— Dante, podemos conversar?
Ele me estuda por um momento, como se calculasse se deveria ou não me dar essa chance, e então diz secamente:
— Tudo bem. Por que não?
— Deixe Alice com Rafael e vamos para a biblioteca.
Dante coloca a filha no chão.
— Fica com o tio Rafael.
Ele se ergue, lançando um último olhar para o irmão antes de me indicar com um aceno de cabeça para que vá à frente. Atravesso o corredor sentindo a tensão pairando no ar como uma tempestade prestes a desabar. Quando entramos na biblioteca, fecho a porta e viro para ele.
Dante está ali, imóvel, o maxilar travado, os olhos verdes intensos cravados em mim. Há uma força nele, algo bruto e perigoso que me faz ter consciência de cada batida do meu coração.
— Já sei o que vai me pedir. Esqueça. Eu vou levar Alice.
Sua voz é fria, final. Mas eu não posso simplesmente aceitar isso. Respiro fundo e me aproximo devagar.
— Dante, por favor, me escute.
Meu Deus, não sei como minhas pernas continuam se movendo em direção a ele, mas quando percebo, já estou ao seu alcance. E, ousadamente, seguro sua mão e o puxo para o sofá.
— Sente-se. Por favor.
Ele hesita, me avaliando. Meu coração martela no peito. Tudo nele me desequilibra, me deixa instável. Mas, então, vejo sua raiva se dissipar um pouco. Com um suspiro longo, ele se senta.
— Rafael ama Alice como uma filha — começo, tentando manter minha voz firme. — Ele não quer tirá-la de você. Você é o pai dela, e ele sabe disso.
Dante aperta o maxilar.
— Mais cedo ou mais tarde, eu a levarei. Por que não agora?
— Do que você tem medo? Que Rafael ocupe seu lugar de pai?
Seu rosto se fecha como pedra.
— Alice pode se acostumar com os mimos dele, com esse lugar. Mas o lugar dela é ao meu lado. Entende?
— Entendo, mas aqui é mais seguro para ela.
Seus olhos se estreitam.
Droga. Palavra errada.
— Seguro? O que Rafael andou dizendo de mim?
— Rafael não me disse nada. Você mesmo me passa essa imagem.
Ele me encara com dureza.
— Você sabe pouco sobre mim para dizer isso.
Seguro seu olhar.
— Observo suas ações. Seu jeito. Seus sumiços. As migalhas de atenção que dá a Alice. Isso tudo fala mais do que qualquer palavra sua.
Ele inclina a cabeça, me estudando.
— Você usou a palavra segurança. Por quê?
Engulo em seco e busco uma saída.
— Segurança é um sentimento. O seu jeito não dá segurança para Alice, e foi isso que eu quis dizer.
Silêncio. Seus olhos não desviam dos meus, como se tentasse decifrar algo. Quando ele finalmente fala, sua voz é mais baixa, quase carregada de algo que não sei identificar.
— Alice é tudo o que me resta. Eu não vou abrir mão dela.
— Você tem seu irmão também.
Dante solta uma risada sem humor.
— Há um abismo entre nós, minha linda Rebeca e eu não posso fazer nada para acabar com ele.
Meu coração aperta com a tristeza em sua voz. A humanidade dele me atinge em cheio. Preciso me lembrar do que estou fazendo aqui.
— Se você a deixar com Rafael, não significa que está abrindo mão dela. Só deixe Alice mais um tempo.
Ele passa a mão pelos cabelos, pensativo.
— Eu a amo. Ela é minha.
— Então prove isso ficando mais presente. Dando a ela o que realmente importa.
Ele me encara por um longo tempo, e então solta um suspiro derrotado.
— Uma semana.
Meu peito alivia um pouco.
Seu olhar viaja para a minha boca, atrasando-se lá por vários segundos.Ele não se move pelo que parece uma eternidade.
—Como a mãe de Alice morreu?
—Não quero falar sobre isso. —Ele diz e se levanta incomodado pela minha pergunta. Então de repente seus olhos vão ficando tempestuosos. —Só uma coisa, que ainda não está clara para mim. Foi meu irmão que te pediu para me convencer. Não foi?
Eu me levanto.
—Não! Falo por mim mesma. Vejo o quanto Alice está feliz aqui.
—Você fala como se eu fosse incapaz de fazer minha filha feliz.
Meu coração se aperta quando penso na vida de Alice na mão desse bandido.
Uma lágrima silenciosa escapa pelos meus olhos, e Dante a observa, intrigado. Ele ergue a mão e desliza os dedos pelo meu rosto, tocando a trilha úmida da lágrima.
— Acho lindo quando uma mulher chora. Não sei explicar o porquê.
Eu limpo outra lágrima.
— Talvez porque tenha crescido ao lado de mulheres duronas, que não choravam — digo suavemente, oferecendo um sorriso fraco.
Ele me estuda por um longo tempo.
— Rafael te contou, não foi? Nossa mãe estava sempre anestesiada pela bebida forte que tomava.
—Sim, ele contou.
— Você mexe comigo, sabia? Você é linda, mas não é só isso. — Ele toca seu próprio peito. — É aqui que você me toca.
Congelo no lugar. Ele sorri de canto e desliza seus dedos pelo meu queixo.
— Eu sinto que posso amar você.
Um arrepio percorre minha espinha.
— Sou apenas a babá. Não quero ser mais do que isso.
Ele inclina a cabeça, os olhos verdes me prendendo.
— Nunca diga “dessa água não beberei”.
Sua voz tem uma promessa implícita. Sei que esse jogo está longe de terminar. Eu me levanto do sofá incomodada.
—Bem, é isso. Obrigada por permitir que Alice fique mais uma semana.
Começo a caminhar em direção a porta, então sinto seus dedos se fechando no meu braço.
Dante me puxa para mais perto dele com uma força inesperada, e o impacto é imediato. Sinto a pressão de seu corpo contra o meu, um calor intenso que me faz parar por um segundo, perdida em sua presença. Meu coração acelera, minha respiração fica mais pesada, como se todo o ar ao redor tivesse se tornado espesso, difícil de respirar. É como se ele fosse uma tempestade e eu, uma folha frágil à mercê de seus ventos. Cada centímetro do meu corpo se tensa, mas, ao mesmo tempo, algo dentro de mim se entrega. Ele me olha com aqueles olhos penetrantes, que parecem desvendar cada pensamento meu, como se soubesse de tudo, como se fosse capaz de tocar minha alma.