Ela corre perigo.

1301 Words
Preciso ficar esperto. Tem algo errado com ela. Algo nela não bate, algo me intriga. A desconfiança cresce dentro de mim, como um alerta pulsando sem parar. Meu instinto grita para vigiá-la. Quem é Rebeca? O que ela faz quando ninguém está por perto? Onde ela gosta de ir? Ela tem alguém? A adrenalina circula pelo meu corpo enquanto caminho ao lado de Leleco em direção ao carro. O carregamento que iremos receber hoje é valioso. Deu trabalho demais. Foram semanas de negociações com Manuelino, nosso intermediário. Ele é o elo com os tubarões do tráfico na Colômbia. As pessoas não fazem ideia do que é negociar drogas. São meses de planejamento, caminhos traçados, dinheiro investido. O lucro é alto, mas o risco também. E o perigo é o que me faz sentir vivo. O coração bate mais rápido, a adrenalina arde nas veias. Eu amo isso. Dirijo em silêncio, imerso nos meus pensamentos. Leleco me conhece bem o suficiente para não puxar conversa. Em quinze minutos, chegamos ao ponto de encontro. O lugar é deserto, cercado de terrenos baldios e mata fechada. A estrada velha fica depois da trilha do trem. Vinte e cinco minutos depois, o sinalizador acende no vermelho. Paro o carro sem desligar o motor. As cancelas descem, bloqueando a passagem. Passo os dedos pelos cabelos, impaciente. O barulho do trem cargueiro se arrasta como um castigo. Os vagões parecem infinitos. — Merda! — resmungo, cerrando os punhos. Assim que o trem passa, o sinal verde se acende. Aperto o acelerador pronto para seguir, mas um movimento no mato chama minha atenção. Uma cabeça surge entre a vegetação alta. Meu corpo inteiro se alerta. — Viu isso? — pergunto a Leleco. — O quê? Fungo, impaciente. — Não faremos esse caminho. — Vamos atrasar! — Prefiro perder tempo do que ser pego. O que eu vi não foi normal. Tem um mirante aqui perto. Vamos observar. Dou ré e pego uma estradinha que margeia a trilha do trem. Cinco minutos depois, subo um morro íngreme, de terra batida, até uma torre de energia. Estaciono no mato alto, abro o porta-malas e pego o binóculo de longo alcance. A vista é perfeita. Ajusto o foco e observo a estrada que leva até a fábrica. Então eu vejo. Snipers posicionados no telhado. Mais adiante, viaturas escondidas entre as árvores. Miro no entregador. Ele está nervoso. Foi rendido. Estão esperando para nos pegar em flagrante. Se eu seguisse, seria capturado com a carga inteira no porta-malas. Cadeia. E cadeia. Filhos da p**a! Blasfemo, minha mão apertando o binóculo com tanta força que os nós dos meus dedos ficam vermelhos. Passo o equipamento para Leleco. — Olha isso! Nosso carregamento já era. A polícia nos cercou. Tocaia. Eles querem nos pegar com a droga na mão. A fúria se acumula dentro de mim como um veneno queimando minhas entranhas. Rebeca! Desde que ela apareceu, tudo desandou. Vejo, em minha mente, a cena dela entrando no quarto de Alice logo depois da minha ligação marcando esse ponto de encontro. Lembro do chiado estranho na linha, como se houvesse outra pessoa escutando. Meu estômago revira. Mãos trêmulas, puxo o celular e disco para Ronilson. — Alguma movimentação? — Sim, chefe. O alvo pegou um táxi com uma mala. Segui até a Av. Atlântica, 1450. Prédio residencial, dez andares. Entrou e não saiu mais. Meu sangue ferve. — Não saia daí. Se ela sair, segure-a. — Segurar como? — Se precisar, use a força. Se resistir, mostra a arma. Mas não a deixe escapar. Me espera. Faço um sinal para Leleco entrar no carro. Ele entra sem questionar. Arranco, os pneus cantam no asfalto. Rebeca é da polícia. Só pode ser. E eu fui um i****a. Provavelmente nem esse é o nome dela. A traição dela é uma facada no peito. A lâmina girando, me torturando enquanto estou consciente. Inferno! Meu corpo queima de ódio. Aperto o volante até os nós dos dedos esbranquiçarem. Dirijo em alta velocidade, costurando os carros até o endereço indicado. Agora é questão de tempo. Não vamos descansar até ter essa v***a nas nossas mãos. 🚗🚗🚗🚗🚗🚗 Isabela Logo que entro no apartamento, desfazendo as malas, começo a organizar tudo. Algumas roupas vão para o armário, outras direto para a lavanderia. Pego o celular que Leandro me deu e sorrio, satisfeita, ao ver uma mensagem piscando. Bom dia! Hoje estou em casa. Carlos me dispensou. Queria muito ter falado com você ontem. Morro de saudades. Não vejo a hora que tudo isso acabe e que você esteja ao meu lado, sã e salva. TE AMO. Sem hesitar, digito minha resposta: Estou em casa. Acabou. Pode ficar sossegado agora. bjs. Carlos cumpriu o que combinamos, deixando Leandro de fora dessa megaoperação na prisão de Dante. Estou aliviada com isso. Mas, ao mesmo tempo, uma tristeza toma conta de mim. Sei que Dante, a essa altura, deve estar atrás das grades. Respiro fundo, tentando afastar o peso no peito. Se anima, penso. Dante é um m*l elemento. Ele vai pagar pelos seus pecados na cadeia e todo meu trabalho finalmente será recompensado! Mas por que isso não me anima? Solto o ar com angústia. A imagem de Dante surge na minha mente: ele com Alice no colo, quando dançávamos no bar, e, depois, em cenas muito mais íntimas. Meu corpo se aquece com o pensamento, mas me forço a afastá-lo. Dante vai pagar. Ele vai pagar na cadeia, ou pior... morto pela polícia. O pensamento me dá um estremecimento. Morto. Eu não quero pensar nisso. Ele pode reagir. Ou talvez se entregue. Por favor, que se entregue... Meu coração ainda acelera só de imaginar a possibilidade de ele reagir. Parece que o fim da bandidagem é sempre assim: inevitável. Eu sabia que ele seria pego. Ele quis isso, e agora vai pagar. Enxugo as lágrimas rapidamente e, para tentar acalmar minha mente, decido dar uma geral no apartamento. Uma pequena faxina para ocupar os pensamentos. Depois, tomo um banho e lavo os cabelos, me sentindo um pouco mais em casa. Coloco uma camiseta branca com um desenho de guitarra preta, uma calça jeans escura e seco os cabelos com secador, deixando-os soltos. Calço meus tênis brancos e sigo para a cozinha, onde faço um café. Pego alguns biscoitos para acompanhar, mas logo percebo que não posso viver só de biscoitos. A geladeira está vazia, e a despensa só tem enlatados. Preciso sair para comprar comida. Talvez eu ligue para Leandro penso, mas o cansaço e a fome são mais fortes. Decido sair para fazer compras. Faço uma lista do que preciso e pego minha bolsa. Antes de sair, com as mãos trêmulas faço uma última checagem no celular e, ao constatar que não tem mensagens, sigo rumo ao mercado que fica na mesma calçada, não muito longe de onde moro. Mais tarde quando eu chegar, ligarei para Leandro e perguntarei como foi tudo e ......sobre a prisão de Dante. Meu coração diminui no meu peito só de pensar nisso. Carlos Benson —Maldição! — falo alto, frustrado, desligando o telefone sem conseguir falar com Isabela. Com o coração acelerado, ligo para Leandro. —Leandro? Carlos falando. Não consigo falar com Isabela. —Por que precisa falar com ela? O que houve? —Ela nos passou informação de um carregamento de drogas. Nós apreendemos tudo, mas Dante não apareceu. Não sei como, mas ele desconfiou. Pedi para ela deixar o caso. Achei que ela já estivesse em casa. Ela precisa sumir por um tempo. Por favor, entre em contato com ela. Ela corre perigo. Enquanto não pegarmos esse criminoso, ela precisa estar fora de qualquer ação. —Vou tentar ligar para ela. —Você sabe onde ela mora? Se não, te passo o endereço. —Sim, eu sei. —Ótimo. Me mantenha informado.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD