Lá está ele, parado na soleira. Seus olhos negros me observam com intensidade.

1064 Words
No dia seguinte, acordo tarde. Depois de dar uma geral no apartamento, começo a organizar minhas malas. Reservo um compartimento secreto para guardar o celular que Leandro me deu, garantindo que fique bem escondido. Agora, a próxima missão: escolher um vestido. Dou um sorriso enquanto observo meu guarda-roupa. A verdade é que não tenho muitas opções. Nunca investi muito na minha aparência; minha prioridade sempre foi o conforto e a funcionalidade. Meu estilo é dominado por calças, camisetas, jaquetas e camisas práticas. Vestidos? Apenas três. Um deles já foi usado, restam duas opções. Felizmente, desta vez, não preciso impressionar Rafael Ferreira, o que é um alívio. Já cumpri meu objetivo principal: consegui me infiltrar. Não preciso me preocupar em seduzir ninguém. Meu papel agora é profissional, e a aparência não precisa ser um fator decisivo. Mesmo assim, enquanto olho as opções, penso em Dante. Quando peguei o caso envolvendo Ferreira, li sobre o histórico criminal de Dante. Ele é conhecido da polícia desde cedo, acumulando pequenos delitos. Apesar disso, ele nunca foi pego. É habilidoso em escapar das autoridades, deixando um rastro de suspeitas, mas sem provas concretas para incriminá-lo. Sua reputação é marcada por histórias de porte ilegal de arma com numeração raspada e outros esquemas, mas Dante sempre conseguiu se manter um passo à frente, fazendo com que seu nome seja mais temido do que oficializado nos registros. Já Rafael, pelo que conversamos, não aprova a vida do irmão, então acredito que não há motivo para me preocupar com ele, ao menos por enquanto. Desvio minha atenção de Rafael e Dante para as opções de vestidos no meu guarda-roupa. O melhor deles é um tubinho verde-escuro, com decote quadrado e comprimento um pouco acima dos joelhos. O tecido acetinado dá um toque elegante e discreto, e a cor combina bem comigo. É ele. Passo o dia agitada, mas não é por causa da festa ou do trabalho que vou começar na casa de Rafael, mas por ter que lidar novamente com Leandro, seu jeito autoritário e sua insistência em me contradizer. Ele é a causa da minha boca seca, do meu coração disparado e dos pensamentos inquietos que me perseguem. Suas palavras cortantes têm um impacto que não consigo ignorar. Às sete e meia, já estou pronta. Tento me distrair com a televisão, mas falho miseravelmente. A ansiedade continua crescendo. Quando o relógio marca oito e cinco, o interfone toca. Sinto um frio na barriga ao liberar a entrada de Leandro. Cinco minutos depois, a campainha soa, e meu nervosismo atinge o auge. Respiro fundo, tentando parecer calma, e abro a porta. Lá está ele, parado na soleira. Seus olhos negros me observam com intensidade. Ele veste uma camisa branca semiaberta, revelando o peito moreno e levemente peludo, combinada com uma calça preta impecável. Os cabelos, geralmente desalinhados, estão penteados para trás, e a barba, que normalmente tem aquele charme desleixado, está completamente feita, deixando seu rosto ainda mais marcante. Ele está lindo. Por um instante, preciso me forçar a desviar o olhar do conjunto impressionante que é Leandro e focar nos seus olhos. Meu coração dispara ao lembrar das malas e de toda a missão que nos aguarda. — Entre. Seus olhos percorrem minha figura com uma intensidade faminta antes de ele se mover para dentro do meu apartamento. m*l tenho tempo de fechar a porta, e já sinto seus braços firmes envolvendo minha cintura. Surpresa pela rapidez do gesto, ergo meus olhos para ele. O sorriso que ele exibe é devastadoramente viril, irradiando uma eletricidade que faz um arrepio percorrer minha espinha. — Está linda. — Sua voz sai rouca, mas logo seu olhar se torna sombrio, e o sorriso desaparece, dando lugar a uma expressão melancólica. — Daria tudo para que desistisse de tudo isso e saísse comigo agora. Iríamos jantar fora, passar a noite juntos, conversar e depois... — Ele faz uma pausa, o tom carregado de emoção. — Fazer amor até o sol raiar. Sinto meu coração vacilar por um instante, mas, antes que a tensão me consuma, dou um passo para trás, afastando-o suavemente. Tento me recompor, mas percebo que ele desvia o olhar para algo na sala. Seus olhos se fixam nas malas, e uma carranca de desgosto imediatamente se forma em seu rosto. Vejo seus ombros se retesarem, e a linha de sua mandíbula fica ainda mais marcada. — Que malas são essas? — Sua voz agora carrega uma nota dura, como se a presença delas confirmasse algo que ele já temia. — Rafael pediu para que eu levasse. — Respondo, mantendo a voz o mais neutra possível. — Creio que começo amanhã. O olhar de Leandro continua preso nas malas, como se fossem uma afronta direta à sua vontade. Ele solta o ar lentamente, mas não parece disposto a deixar o assunto morrer tão facilmente. Leandro  Tudo o que consigo fazer é observá-la, sentindo o medo de perdê-la crescer dentro de mim como uma mão invisível apertando minha garganta, me sufocando. — Deus! O que posso dizer? Você já sabe minha opinião sobre tudo isso. — Minha voz soa mais áspera do que pretendia. Ela dá um passo em minha direção e me lança um sorriso sereno, como se tentasse amenizar a tensão no ar. Seus dedos tocam os meus, quentes e suaves, e ela segura minha mão com firmeza. — Leandro, eu gostaria que estivesse do meu lado. Preciso do seu apoio. O olhar dela carrega um peso que me faz desviar os olhos. Tristeza. Culpa. Droga! Sinto meu peito apertar enquanto retiro minha mão da sua, passando os dedos pelos cabelos numa tentativa de aliviar a pressão. Eu queria sentá-la aqui, agora, e explicar quem são essas pessoas com quem ela está lidando. O tipo de perigo que está enfrentando. As fotos que mostrei já dizem muito, pensei que fossem chocá-la o suficiente, mas ela é teimosa. E essa teimosia vai nos destruir. Merda! Isabela só conhece as pessoas boas. Ela não sabe o tipo de m*l que essa família representa. Eu cresci ao redor de um bairro violento, eu tenho experiências fortes para dizer que o mundo é duro, selvagem. É a lei do mais forte. Uma selva. Mas eu me calo, não adianta, ela só vai pegar mais raiva de mim. Teimosa, não adianta gastar minha lábia, eu só vou ficar nervoso, mas não consigo deixar de fitá-la contrariado.
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