— Rivalidade. Acho que é isso.
Mas, no instante em que essas palavras deixam minha boca, um desconforto me atinge. É injusto pintar Leandro dessa forma. Eu completo, sem hesitar:
— A verdade é que era para ele se infiltrar, e não eu.
Tânia estreita os olhos, pensativa, e comenta:
— Antes de você chegar, ele se exaltou muito com Carlos. Ele queria tirar você desse trabalho de qualquer jeito. Argumentou que você não está preparada.
Sinto o peso dessas palavras enquanto amasso o copinho de café e o jogo no cesto.
— Eu percebi. Vou voltar para a minha mesa. Preciso terminar o relatório.
Tânia, no entanto, não se dá por vencida. Ela segura meu braço levemente, inclinando-se para murmurar no meu ouvido:
— Leandro parece que gosta de você.
Eu meneio a cabeça, negando de imediato.
— Impressão sua.
Ela arqueia uma sobrancelha, intrigada.
— Querida, é mais do que rivalidade. Pelo que ouvi da discussão, ele se preocupa com você.
Solto uma risada seca, sem humor. Meu olhar se cruza com o dela enquanto balanço a cabeça lentamente.
— É natural ele se preocupar. Ele é meu parceiro desde que entrei na força tática.
Ela me avalia por um instante, como se procurasse algo nas entrelinhas, mas acaba cedendo com um meio sorriso.
— É, pode ser.
Volto para minha mesa, mas não consigo evitar olhar para Leandro por um momento. Sua expressão está carregada de frustração, quase sufocante. Desvio o olhar rapidamente e me concentro em ligar o computador e a impressora. Redijo o relatório, reviso cada detalhe e o imprimo com a precisão de quem sabe que cada palavra pode ser crucial.
Quando o horário do almoço chega, olho para o telefone e quase peço algo para comer ali mesmo, presa na rotina. Porém, uma mudança de humor inesperada me faz decidir ir para casa. Talvez o silêncio do meu apartamento me ajude a reorganizar os pensamentos.
Assim que entro, coloco a bolsa no sofá e caminho direto para a cozinha. Escolho preparar algo leve: uma salada fresca e um frango grelhado. Enquanto os ingredientes ganham forma no prato, ligo a televisão no noticiário, mas as vozes e imagens parecem distantes, como um ruído de fundo.
O peso do dia ainda paira sobre mim, resistente, como uma sombra que me acompanha onde quer que eu vá. Suspiro profundamente, tentando me desvencilhar dessa sensação opressiva, mas ela permanece, firme, uma constante que recusa desaparecer.
Mais tarde, de volta ao departamento, uma presença se materializa diante da minha mesa. Ergo o olhar e encontro Leandro, com seus olhos intensos fixos em mim.
— Vou precisar sair agora, por causa do caso que peguei. Siga o protocolo. Ligue para a secretária dele para confirmar o endereço, mesmo que já saibamos. Assim não damos bandeira. Aproveita e veja o horário exato que devemos estar lá. Eu te ligo à noite.
Ele aponta para o meu celular pessoal sobre a mesa.
— E o celular que eu te dei? Onde está?
— Deixei em casa.
Os olhos de Leandro endurecem.
— Comece a carregá-lo. Encontre um lugar seguro para ele. Um fundo falso na bolsa, sei lá, mas carregue-o.
— Está certo.
Seu olhar permanece em mim por um longo momento, como se quisesse dizer algo que nunca será dito. Em seguida, ele se vira e sai para a rua.
Horas depois ligo para o escritório de Rafael, agora completamente no papel de Rebeca Silva. Repito mentalmente o nome para me convencer de que sou ela, mesmo que a identidade ainda pareça estranha.
Após alguns toques, a secretária atende:
— Boa tarde, sou Rebeca Silva. Estou ligando a pedido do senhor Ferreira para confirmar o endereço da casa dele.
— Sim, ele mencionou que você ligaria. Anote: Rua João Lira, 381, bairro Leblon. — Finjo que anoto, embora o endereço já esteja devidamente registrado em nossas anotações. — O senhor Ferreira solicitou que você comparecesse às nove da noite e levasse as malas.
— Entendido. Obrigada.
Desligo o telefone com um sorriso discreto. Tudo estava indo conforme o planejado. Porém, Leandro não vai gostar nada disso.
À noite, enquanto assisto um programa de humor na televisão, o celular que Leandro me deu vibra. Meu coração dispara, embora eu já saiba quem está do outro lado da linha.
— Oi. — Digo com segurança.
— Você ligou para o escritório de Ferreira?
— Sim, tudo certinho. Nove horas lá. — Não menciono as malas. Leandro não precisa se preocupar antes da hora.
— Passo aí às oito. Quero conversar um pouco com você.
Meu coração bate forte no peito, mas consigo manter a voz firme.
— Sim, mestre.
Ouço Leandro soltar o ar do outro lado da linha.
— Não me provoque. Você não está pronta para as consequências. E, se eu fosse mesmo seu mestre, você teria acatado minhas palavras.
Seu tom provoca um calor que percorre meu corpo, me deixando sem palavras. Tento quebrar o clima com uma despedida:
— Sentirei sua falta.
Silêncio. Depois, ouço um leve riso abafado e imagino o sorriso dele, aquele que suaviza o rosto severo, quase transformando-o.
— Eu também. Você nem imagina o quanto. Por isso, me ligue todas as noites. Promete?
— Prometo.
Há um breve momento de hesitação antes de ele dizer suavemente:
— Te amo.
Meu coração aperta. Engulo em seco e apenas digo:
— Boa noite. — Desligo.