Essa informação é quente! Sua missão acaba por aqui.

1629 Words
Saio do quarto e sigo até a sala. Dante do outro lado da sala. Ele está apoiado no parapeito da varanda com um copo de uísque entre os dedos, girando o líquido como se tentasse encontrar respostas nele. Puxo o ar para tirar o meu nervosismo e vou até ele. — Que foi? Você está tão meditativo — digo, depois de um longo silêncio. Ele ergue os olhos para mim, e há algo ali que não reconheço de imediato. Cansaço, talvez. Ou algo mais profundo, algo que ele tenta esconder, mas que, por alguma razão, sinto que posso ver. — Você sempre faz isso? — Isso o quê? — Querer saber o que se passa na cabeça dos outros. Sorrio de leve. — É que você parece tão melancólico e não resisti em saber o que se passa na sua cabeça. Dante me observa por um instante, depois suspira e passa a mão pelo cabelo, como se estivesse considerando se deveria ou não falar. Quando finalmente se decide, sua voz sai mais baixa. — Estou pensando na minha vida, no que eu era antes e o que me tornei agora. Me surpreendo com a honestidade. Com a vulnerabilidade que escapa, mesmo que ele tente esconder. Dante não parece ser o tipo de homem que se abre com facilidade. Talvez nem mesmo perceba que está fazendo isso agora. —Grandes mudanças?— digo, segurando seu olhar. Ele sorri de canto, mas há algo melancólico nesse sorriso. —Imensas e profundas. Ficamos em silêncio por um tempo, apenas observando a cidade respirar. O som distante de buzinas e conversas misturando-se ao ruído das ondas que se quebram ao longe. — Você sente falta de algo? — pergunto, sem olhar para ele. — Do quê? — sua voz soa baixa, quase arrastada. — Não sei. Algo que perdeu. Algo que gostaria de ter de volta. Ele fica em silêncio por tanto tempo que quase penso que não vai responder. Mas então, ele suspira, como se estivesse exausto. — Tranquilidade, paz. Mas isso não é algo que perdi, é algo que nunca tive e que gostaria de experimentar. Me viro para encará-lo, mas ele continua olhando para a cidade. Seu perfil iluminado pela luz fraca da sacada, os olhos fixos em algo que não consigo ver. Pela primeira vez, vejo Dante não como o homem de presença dominante, do sorriso presunçoso e da fala afiada. Mas como alguém que carrega algo pesado demais para ser dito. E, por algum motivo, isso mexe comigo mais do que deveria. — Quem sabe um dia você encontra — murmuro. Ele finalmente me olha, e há algo diferente em seus olhos. Algo que faz meu estômago se revirar, que me deixa mais consciente da proximidade entre nós. Por um instante, parece que ele vai dizer algo, mas então apenas sorri de lado. — Sim, talvez eu encontre se estiver ao meu lado. E as palavras dele, carregadas de uma promessa velada, me fazem sentir algo que eu não consigo controlar. Algo que me coloca à deriva no mar revolto entre desejo e dever. A porta da sala se abre e Rafael surge com Alice nos braços. Alívio. — Boa noite. Como foi o passeio? — Pergunto com um sorriso. Rafael sorri. — Alice adorou. Fomos aos brinquedos eletrônicos no shopping. Pensei que estivesse dormindo? — Não, ainda é cedo. Alice estava coçando os olhos e abrindo a boquinha. Vou até ela. —Ela está com sono. Vem, Alice. Dante se aproxima, então me encara sério e, depois, dá um beijo na filha. — Boa noite para vocês. —Digo e sigo rumo ao quarto dela. Tiro-lhe os sapatos e o vestido. Coloco seu pijama enquanto ela fecha os olhos, fazendo-a deitar-se. Ela imediatamente dorme. Dou-lhe um beijo na testa. Quando estou para sair do quarto, Dante surge. Meu coração dispara. — Deixe a luz do banheiro acesa. Como ela saiu, pode ficar agitada e ter pesadelos. Fico confusa com seu feeling. Sério isso? Ah, esse bandido me deixa louca... Vou até o banheiro e acendo a luz. Saio do quarto. — Boa noite. Ele segura meu braço. — Vem, quero falar com você. Eu engulo em seco, desviando o olhar de sua presença imponente. É difícil pensar claramente com ele tão perto. — Falar comigo? Ele me segura possessivamente pelo braço e me conduz até meu quarto. Entramos. Ele fecha a porta e se vira para mim. — Eu não consigo parar de pensar em você. Isso está me angustiando. Eu não menti quando te disse que eu era apenas uma noite, mas você é uma droga e eu sou o viciado. Eu quero você comigo todos os dias. Quero o infinito. Completamente sem fôlego, eu o encaro, os pensamentos confusos pela sensação deliciosa do seu toque, mas também pela loucura disso tudo. — Dante, eu realmente estou atraída por você, mas... Ele não me espera terminar a frase e sua boca toma a minha com fervor. Eu o seguro para não cair, sentindo minhas pernas enfraquecerem pela intensidade do seu beijo, pelo desejo dele. Quando ele encontra meu pescoço, fecho os olhos apertados, mordo os lábios para não gemer. Como escapar disso tudo? O que minha mente diz ser errado, meu corpo se entrega, como um imã poderoso. Quase me entrego... Uso toda minha força de vontade para me afastar de suas carícias, irritada com sua audácia. — Você está equivocado sobre nós. — Falo num tom firme. Vejo seu maxilar endurecer e seus olhos se tornarem uma tempestade. — Eu posso te dar uma boa vida, posso te dar o melhor dessa vida. Eu o interrompo. — O seu dinheiro não me deslumbra e eu não quero nada de você. Dante continua, como se não tivesse me ouvido, com um tom ainda mais cortante. — Tudo o que tenho, o que conquistei, é um fato da vida ao qual me acostumei, mas desde que te conheci, isso não tem mais me bastado. Não depois de você. Tenho uma lista infinita de mulheres à minha disposição, mas meu coração não balança desse jeito. — Eu sinto muito, mas não sinto o mesmo. Transamos, mas... e daí? — Digo ofegante. — Me esquece e arrume outra droga. —E daí? Ele me olha arrasado e eu engulo em seco. — Eu não quero você assim, Dante. Não mais. Eu não sou o que você quer. — Minha voz falha um pouco, mas eu forço para continuar. — Você está preso a algo que eu não posso dar. —Houve uma conexão de alma e você sabe disso. — Ele fala com a voz rouca, quase como se fosse uma ameaça, mas não há raiva. Há desespero. —Eu acredito que uma hora você irá descobrir que sou o homem certo para você e isso irá acontecer quando eu levar Alice e você para morarem comigo. Quando ele se vira, seus passos são lentos, como se estivesse tentando não parecer quebrado. Mas o que ele não pode esconder é a maneira como sua mão treme ao alcançar a porta. A dor está ali, visível, em cada movimento que ele faz, como se ele tivesse perdido mais do que um momento – tivesse perdido a confiança em algo que, talvez, ele sequer soubesse que havia construído. Agradeço a Deus por ele não me beijar, não insistir nisso tudo, porque definitivamente não sei se conseguiria recusá-lo novamente. Tranco a porta e pego meu celular, ligando para Leandro. — Alô, Leandro? — Oi, não! É Helen falando. Fico sem ação por um momento. Quem é Helen, afinal? — Onde está Leandro? — Quem gostaria de falar com ele? — Ela pergunta, com um tom quase hostil. — Isabela. — Um minuto. — Isabela. — Ele diz, tirando a rouquidão da voz. — Você está bem? —Estou. —Oi, Isabela, Carlos falando. —O que está acontecendo? —Leandro levou um tiro de raspão no ombro. Ele caiu também, bateu a cabeça e desmaiou, mas agora está bem. O que tiver que falar, fale comigo. Meu coração aperta, um nó se forma na minha garganta. A angústia se espalha pelo meu peito. Pergunto, tensa: —Ele está bem mesmo? —Sim, só está meio grogue, tivemos que trazê-lo à força para o hospital. Deu um trabalhão danado. Eu me esforço para sorrir, mas a preocupação me consome. —Imagino... — então, mais curiosa, pergunto: — Quem é Helen? —Uma amiga dele. Dona de um bar, quando soube que ele tinha levado o tiro, foi visitá-lo. —Ah, me lembro dela. —Então, me fale. Novidades? —Carlos, a informação que vou te passar, preciso que me prometa deixar Leandro fora disso. Ele precisa se recuperar. Escuto barulho, como se Carlos estivesse se afastando do telefone. —Tudo bem. Não vou colocá-lo em missão tão cedo. Vou mantê-lo mais afastado. Ele tem andado meio aéreo, de qualquer forma. Solto um suspiro de alívio. —Amanhã, Dante receberá um carregamento. Será entregue na estrada velha, naquela antiga fábrica de tecidos, às dez horas da manhã. Isso é tudo. —Essa informação é quente! Ótimo. Mas você vai ficar muito exposta. Quero que amanhã invente uma desculpa e peça sua demissão. Sua missão acaba por aqui. Dante pode desconfiar de alguma coisa. —Está certo. — minha voz sai um pouco mais tremida do que eu gostaria. Carlos desliga a ligação. Fico ali, com o celular na mão, o silêncio pesado ao meu redor. Um sentimento r**m me consome, a tensão é como uma pressão no peito. Não consigo deixar de pensar no risco que corremos com esses criminosos. A verdade é que fiquei abalada com o que aconteceu com Leandro. A morte de Heitor e agora eu preciso lidar com essa consequência.
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