Penso em Leandro. Agora eu o imagino bebendo em algum bar, ou talvez em casa, na fossa. Não deve estar sendo fácil a perda do parceiro e amigo. Desde que entrei para o BOPE, pude ver como Leandro e Heitor eram próximos. Eram mais do que colegas de farda, eram irmãos, confidentes.
Ligo para ele. Escuto o som de quatro toques antes que atenda.
— Alô. — A voz dele está rouca, carregada de cansaço.
— Oi.
— Isabela?
— Você está bem?
— Tirei um cochilo... que horas são?
— Nove horas.
O silêncio que se segue só é interrompido pela respiração pesada dele.
— É bom te ouvir.
— Você pediu para eu ligar.
Ouço um barulho de cama rangendo, como se ele estivesse se sentando.
— E se eu não pedisse, você me ligaria?
— Sim. Para saber como você está.
— O que posso dizer? Perdi um grande amigo, e a mulher que eu amo está se arriscando, longe de mim. Como você acha que estou me sentindo?
Fecho os olhos por um instante, sentindo o peso do que ele diz.
— Eu sei... Logo, logo, tudo vai se resolver. — Digo, a voz carregada de angústia.
Alguém bate na minha porta.
— Leandro, vou desligar. Amanhã a gente se fala.
Desligo o celular e o coloco debaixo do colchão. Para meu alívio, é a governanta Estela.
— Amanhã é minha folga, e você vai passar o dia inteiro com Alice. Rafael costuma se virar na cozinha nesses dias.
— Pode deixar, amanhã eu ajudo no que for preciso e fico com ela. E por falar nisso, Alice já está dormindo?
— Sim. Dei banho, janta... seis e meia já estava na cama.
— Ela costuma acordar no meio da noite?
— Já aconteceu, mas ela é incrivelmente forte. Sai no escuro sozinha e vai para o quarto de Rafael. Acaba dormindo com ele.
Sorrio, mas de forma amarga. Ele perguntou por mim mesmo? Ou Dante armou tudo?
— Rafael seria um pai perfeito para Alice.
Estela me encara com uma expressão infeliz.
— Sim, é verdade...
Ela vai embora, e eu tranco a porta. Pego o celular novamente e ligo a tela. Uma mensagem está piscando.
"Quando tudo se resolver aí, me manda uma mensagem dizendo que está tudo bem."
Sorrio de canto e digito:
"Está tudo bem. Era a Tânia avisando que amanhã será sua folga. Boa noite."
Não dá nem um minuto, e ele responde:
"Te amo, queria você aqui do meu lado. Bjs. Se cuida!"
Ah, Leandro... você me detestaria se soubesse o que fiz.
🌞🌞🌞🌞🌞🌞🌞🌞
A semana transcorre sem surpresas. Dante sumiu. Rafael, tenho visto pouco, mas toda vez que falo com ele, está com aquele jeito educado e prestativo. Alice é um amor. Está mais falante e feliz. Muito diferente daquela menina retraída.
Agora estou com ela na sala quando Rafael chega acompanhado de uma mulher alta, de cabelos negros e olhos castanhos. Ela se chama Helena. Ele me apresenta como sua namorada. Sorrio ao vê-lo com alguém. Enquanto ele a serve, conversamos um pouco. Descubro que ela é advogada e adora crianças. Rafael parece feliz ao lado dela. Sua expressão está relaxada e sorridente.
Alice, quando é apresentada a Helena, fica tímida, mas por pouco tempo. Logo, já a puxa para ver os brinquedos novos que Rafael e Dante compraram. Naquela famosa competição pelo coração da menina.
Quando Helena e Alice somem no corredor, comento com um sorriso:
— Estou feliz que esteja com alguém. Você merece o melhor.
Rafael sorri.
— Eu estou feliz também. Estou apostando as minhas fichas nesse relacionamento. Quero muito que Alice tenha uma mãe.
Meu coração se agita ao pensar no urso sem a filha.
— Você acredita mesmo que Dante, de uma maneira ou de outra, vai te deixar com a filha?
— Tenho fé que sim. Para estar com Alice, não posso ser um homem solteiro. Por isso, quero muito que dê tudo certo com Helena.
— Você a ama?
Ele funga.
— Ela é uma pessoa maravilhosa.
Sorrio.
— Não foi isso que eu te perguntei.
A entrada de Helena e Alice nos interrompe. Eu gostaria muito que Rafael a amasse e não se prendesse a uma mulher apenas por causa de Alice.
Resolvo deixá-los sozinhos e peço licença.
— Vou me recolher, qualquer coisa estou no quarto.
— Amanhã viajarei com Alice e Helena. Ficaremos num hotel a beira mar. Irei a negócios, para conhecer um empreendimento, mas vamos unir o útil ao agradável. Quero passar um dia diferente com Alice, aproveitar o dia na praia.
Sorrio jovialmente.
— Puxa! Alice vai adorar. Quanto tempo ficarão fora?
Ele sorri para mim.
—Uns cinco dias. Você poderia fazer a mala dela para mim?
— Claro!
— Dante, pelo visto, sumiu. Se ele vier para casa, diga o que planejo.
— Está certo.
Ele se abaixa e pega Alice no colo, dizendo para ela:
— Daqui a pouco nós vamos sair. Vamos à sorveteria. Vou comprar um sorvete bem gostoso.
— Ebaaaa!
—Eu não ganho um beijo?
Alice o abraça e lhe dá um beijo molhado.
⌚⌚⌚⌚⌚
Depois que eles saem, fico à vontade na casa. Dirijo-me ao quarto de Alice para arrumar a mala dela. Quando estou terminando, ouço movimento na sala. Com o coração batendo acelerado, vou até lá. Fico tensa quando os olhos de Dante me fitam e se abrem em um sorriso ao me ver.
Ele está lindo, vestido com uma calça preta e uma camisa de mangas curtas da mesma cor. Reparo no seu abatimento ao me olhar. Eu o encaro com expressão dura, embora meu coração esteja trovejando no peito. Isso me confunde. Era para eu odiá-lo.
Ele estende a mão para mim.
— Oi, princesa. Vem aqui.
Eu estremeço.
— Ouça. Aquela noite foi uma ótima experiência, mas continuar isso é um erro!
Ele se aproxima.
— Eu preciso de você. — Ele repete. — Não falo de sexo. Preciso do seu abraço. Tivemos uma noite incrível, como nunca tive, sim. Mas eu... preciso de você, mas de um jeito diferente, hoje.
Fico dura, olhando para ele. Dante se levanta do sofá e vem na minha direção. Eu me assusto e ando para trás, mais e mais conforme ele avança. Minhas costas batem na parede. Ele me encurrala nela.
— Você não está me levando a sério, Dante — eu me zango, ofegante.
— Ao contrário, eu estou. Quero você de um jeito diferente. Está me matando sua indiferença. Eu estou carente de afeto.
Esse urso gigante carente? Ai, meu Deus! É muito para a minha cabeça.
Esse bandido carente é um monstro! Mas por que consigo ver bondade em seus olhos?
Ele me pega pela cintura, seus lábios me beijam levemente. Ele me olha com muito amor.
— Você me... confunde, Dante.
— Como?
— Você parece ser durão em lidar com a vida, com seus negócios, sua gente e, no entanto, agora me vem com esse papo... de carência.
Ele sorri sem humor.
— Sim, lá fora eu sou quem devo ser... e nunca me permiti gostar realmente de alguém, mas aconteceu, minha linda Rebeca, e é forte.
Esse bandido está realmente gostando de mim.
Sem reserva, a mão dele desliza pelas minhas costas até agarrar minha cintura, me segurando firme contra ele.
— Senti sua falta. — Seus olhos me fitam ternos. Eu desvio o olhar para não me perder neles. — Olha pra mim. Por que foge dos meus olhos?
Eu o encaro, falo meio que implorando:
— Dante, foi um erro. E você... não me parece ser um homem que me daria uma vida tradicional.
Ele passa a mão nos cabelos, sua expressão me derrete.
— Mas eu posso fazer a fórmula funcionar: atração + amor. É só me dar uma chance. Sei que pode me amar. Quero formar uma família com você. Alice te ama, e eu também.
Ele me ama? Eu pisco.
Deus, se eu não soubesse dos seus podres, até cairia na lábia dele.
Me desvencilho, mas ele me puxa de volta.
— Dante, por favor. Eu só vim na sala para te dizer que Rafael vai viajar e levar Alice.
Ele me beija no pescoço e me olha.