Se apegue a isso!

1147 Words
— Boa noite, minha princesa. — Ele murmura, com um olhar intenso. Percebo que ele está com pressa pela forma como coloca o capacete e liga a moto sem hesitação. — Você vai sair novamente? — Pergunto, tentando soar despreocupada. — Sim, meu anjo. Preciso espairecer, pensar. — Ele responde alto, já se posicionando para sair. Antes que eu possa dizer qualquer coisa, ele acelera e sai em uma arrancada, desaparecendo na noite. Fico ali por um instante, observando o rastro da moto, tentando decifrar essa confusão de sentimentos dentro de mim. Então, respiro fundo e me viro em direção à portaria. Só que, assim que chego, o rapaz me barra. Droga! Olho para o relógio. Dez e meia. Ele pega o telefone e liga para a cobertura de Rafael. Depois de dizer meu nome, sou finalmente liberada. Sigo para o elevador, ainda sentindo a adrenalina do que ouvi no bar. Meu peito aperta. Preciso falar com Leandro o quanto antes. Quando chego à porta, hesito por um momento antes de tocar a campainha. Me sinto constrangida por estar nessa situação. A porta se abre, revelando Rafael. Ele está usando um short de dormir, o peito nu revelando músculos bem definidos e cobertos por pelos castanhos. Seus cabelos estão bagunçados, e o olhar sério logo me fuzila. — Você saiu com Dante? — Ele pergunta, a raiva evidente em sua voz. Engulo em seco. — Sim. — Respondo sem rodeios. Vejo seus músculos tensionarem e seus punhos se fecharem. Seu olhar é um misto de frustração e fúria. — Meu Deus! Como nos enganamos com as pessoas! — Ele solta, exasperado. Respiro fundo, me preparando para o que vem a seguir. — Rafael, eu saí com ele, mas meu objetivo não foi esse que você está pensando. Somos amigos. — Tento argumentar, mantendo a calma. — Você acha que eu acredito nisso? Amigos? Eu não caio nessa! — Ele dispara, dando um passo para mais perto. — Fiz isso por Alice. — Digo, e no fundo sei que não é uma mentira. Se eu conseguir prender esse bandido, tudo será resolvido. Ele bufa, esfregando as mãos no rosto, frustrado. — Você não conhece meu irmão. Ele não se abre comigo, mas eu sei que ele mexe com gente da pesada. Por favor, não corra riscos estúpidos! Meu coração acelera. Preciso avisar Leandro. Preciso ir para o meu quarto e ligar para ele. — Rafael, estou com dor de cabeça. Preciso descansar. Amanhã conversamos. — Digo, tentando encerrar a conversa. Ele me observa por alguns segundos, como se tentasse ler minha alma, então assente com um suspiro pesado. — Tudo bem. Mas não se arrisque mais saindo com o meu irmão. Se eu tiver que perder Alice, vou lamentar muito, vou comer o pão que o d***o amassou, mas eu não quero que você se envolva nessa história. Não quero que se envolva com ele. — Sua voz sai carregada de preocupação e algo mais… algo que não consigo identificar. — Está certo. — Digo, sem questionar, mas sabendo que a verdade está muito longe disso. Ele respira pesadamente enquanto me observa me afastar. Meus passos são rápidos. Assim que entro no quarto, fecho a porta e solto o ar que estava segurando. Abro o guarda-roupa e guardo o capacete. Então, minha mente grita um nome: Zé Galinha! Vou até minha mala e pego o celular. Minha pulsação acelera quando vejo três mensagens de Leandro: Oito e quarenta: Me liga! Nove e meia: Meu Deus! Parece uma tortura! Você só pode estar fazendo isso de propósito. Dez horas: Difícil ficar na sua mão. É assim que me sinto. Sem paz, por favor, me liga! Eu ligo para Leandro. — Isabela, graças a Deus! — Ele diz seco do outro lado entre suspiros. Seu tom de voz muda e ele fala agressivo. — Espero que você tenha uma boa explicação para me ligar às onze horas da noite. —Leandro Por favor, me ouça! Dante está furioso com você e Heitor. Vocês estão acabando com os pontos de distribuição. Ele sabe disso através de um informante. Eu ouvi seus homens chamá-lo de Zé Galinha. — Isabela! Mas que merda! Como você sabe de tudo isso? Você está se envolvendo com esse cara? — Para de se preocupar comigo e me ouça! Zé Galinha vai passar uma informação falsa, de um ponto de distribuição, mas é uma tocaia. Você está me ouvindo? Quando você for, vai com reforços e pega esses desgraçados. Leandro fica em silêncio por um momento, então diz com um tom intrigado: — Zé Galinha é um traficante que pegamos no início dessa semana a casa dele estava cheia de pacotes de cocaína no congelador... — Ele ficou mudo por um tempo. — Agora entendo porque ele mudou de ideia e disse que nos ajudaria. —Bem agora então já sabe... Leandro se exalta: — Como conseguiu essa informação? Você está se arriscando muito. Melhor você parar por aí. — E perder a oportunidade de pegar Dante? Desculpe-me, mas não. — Isabela... — Boa noite. Se cuida! Um minuto depois, o celular vibra. Eu o desligo. Horas depois, estou deitada na cama, encarando o teto enquanto a escuridão do quarto parece se fechar ao meu redor. O colchão sob meu corpo é macio, mas não traz conforto. O lençol roça minha pele, mas não aquece o suficiente para acalmar meu coração inquieto. Lá fora, o som distante de um cachorro latindo se mistura ao zunido baixo da cidade adormecida. Viro para o lado, tentando encontrar uma posição que me ajude a apagar a avalanche de pensamentos que me assola, mas o sono simplesmente não vem. Sentimentos de todo tipo assolam meu coração. Estou triste, confusa. Um nó se forma na minha garganta e não consigo desfazê-lo. Não sei o que vi em Dante para estar assim, mas a verdade é que aquele bandido mexe comigo. Talvez seja a maneira como seu olhar me prende, como se pudesse enxergar além da minha fachada. Ou a forma como sua voz rouca e baixa ressoa dentro de mim, despertando algo que eu preferia não sentir. Quando ele se aproxima, o mundo ao redor parece perder o foco, e isso me assusta. Eu deveria vê-lo apenas como um alvo, um criminoso que precisa ser parado, mas não consigo evitar essa inquietação dentro de mim. E ele ter me beijado foi o suficiente para eu me sentir muito pior. Agora estou com medo do desconhecido. Prendê-lo, vê-lo atrás das grades tem que ser meu sentimento maior. Preciso resistir a ele. Esse homem não presta. Droga! Por que Rafael teve que me contar sobre a vida de merda que eles tiveram?? Agora fico desculpando Dante pela vida que ele tinha. Mas e Rafael? Ele não é um homem diferente? Dante deveria ter se esforçado para vencer como o irmão! Se apegue a isso!
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD