Me fale de você.

1037 Words
— Não, vim com um amigo. — Aquele que você estava dançando? Meu coração dá um salto no peito. Ele estava me observando antes. O calor da adrenalina percorre meu corpo. — Não. Eu o conheci aqui. Nem sei o nome dele. — Desvio os olhos, forçando desinteresse. Rafael me analisa, como se tentasse decifrar cada palavra minha. — Qual é a sua história? — Ele pergunta, inclinando a cabeça para o lado, intrigado. Eu hesito, mas logo sorrio, aproveitando a deixa para começar a construir a narrativa que preciso que ele acredite. — Por que quer saber? Ele dá um sorriso, um misto de diversão e mistério. — Como eu já disse, você não combina com esse ambiente. É como colocar um quadro da natureza em uma parede cheia de abstratos. Sinto o rubor subir ao meu rosto. Com um suspiro, decido usar a verdade para criar empatia. É mais fácil sustentar um disfarce quando ele se apoia em algo real. — Não gosto muito desse tipo de lugar — admito. — Só vim porque um amigo de infância insistiu. Ele acabou me deixando sozinha. — Faço uma pausa e dou um suspiro exagerado. — Tentei me divertir, dancei um pouco, mas confesso que sou bem caseira. O interesse em seus olhos cresce, e minha respiração acelera. É isso. Ele está mordendo a isca. — Verdade? — Ele diz, o tom mais baixo e íntimo. — Eu também não curto esses lugares, mas acabo vindo por negócios. Tenho que agradar os clientes. — Então você vem pouco aqui? O sorriso desaparece, dando lugar a um semblante sério. — Mais do que eu gostaria. Nesse instante, sinto alguém se aproximar. Leandro surge ao meu lado, sua expressão fechada, como se já não aprovasse minha interação com Rafael. — Ah, esse é o amigo de quem falei — digo, tentando soar casual. — Rafael Fernandes, este é Ricardo Félix. Ambos trocam um leve aceno de cabeça, mas a tensão entre eles é palpável. — Darei uma festa no sábado. Por que vocês não aparecem?— Rafael Souza diz, sem disfarçar que fala mais para mim do que para Ricardo. Minha mente corre. Essa é minha oportunidade de ouro. Deus! Será que Dante estará lá? Estremeço, mas não posso recuar. Preciso me infiltrar na vida dos irmãos de alguma maneira. — Por que não? Leandro força um sorriso e concorda. — Claro. Rafael me encara com um olhar mais intenso do que antes, enquanto um sorriso enigmático se forma lentamente em seus lábios, como se ele estivesse analisando cada um dos meus movimentos. — Então está marcado. A música muda. Uma melodia mais lenta e envolvente domina o ambiente, criando uma atmosfera quase íntima. Rafael ignora completamente Leandro, como se ele não existisse, e estende a mão para mim. — Quer dançar? — Sim, por que não? — respondo com confiança, mesmo sentindo um frio na espinha. Uma mistura de empolgação e um medo quase palpável percorre meu corpo. Estou entrando em terreno perigoso, e ambos sabemos disso. Rafael volta a atenção para Leandro, lançando um olhar afiado. — Até sábado. — O tom seco da sua voz não deixa espaço para réplica. É como se ele dissesse: "Agora cai fora." Esses irmãos Metralha são muito possessivos. Esse pensamento passa pela minha cabeça enquanto Rafael pega minha mão e me conduz até o meio do salão. Ele me puxa para perto, quase colando nossos corpos. O perfume dele é forte, marcante, embora um pouco doce demais para o meu gosto. — Relaxa. — Ele murmura perto do meu ouvido, sua respiração aquecendo os fios do meu cabelo. — Estou relaxada. — Asseguro, tentando esconder o nervosismo. — Não parece. Está toda tensa. — Ele se afasta um pouco, analisando meu rosto com atenção. — Por acaso, está com medo de mim? É o que parece. Eu encaro aquele rosto bonito, traços que poderiam ter sido esculpidos à mão, enquanto ele me observa com uma intensidade que parece desarmar. Sim, ele é perigoso. Não só nos negócios, mas também com as mulheres. Extremamente sedutor. — Medo não. — Respondo, com a maior naturalidade que consigo. — Mas é normal eu estar meio tensa. Não te conheço. Ele sorri, um sorriso lento e provocador, que parece carregar uma promessa. — Você parecia bem à vontade com meu irmão. O rosto de Dante surge na minha mente, e com ele, as lembranças de estar em seus braços. Aquele abraço forte, quase protetor, que me fez sentir tão segura por um instante. Minha respiração vacila. — É? Impressão sua. Ele ergue uma sobrancelha, um sorriso de canto brincando em seus lábios enquanto dançamos. — Bem, se você está dizendo... O olhar de Rafael é tão intenso que eu não consigo sustentar por muito tempo. Desvio os olhos para a a******a da camisa dele, onde a massa de pelos negros está parcialmente exposta. Apesar de todo o perigo que ele exala, há algo hipnotizante nele. Os polegares de Rafael começam a acariciar levemente minhas costas, o movimento simples me causando arrepios que eu tento, inutilmente, disfarçar. De repente, ele coloca a ponta do dedo indicador no meu queixo, erguendo-o delicadamente para que eu olhe diretamente em seus olhos antes de soltá-lo. — Me fale de você. Eu suspiro, sentindo a pressão de ser analisada tão de perto. Não posso mentir completamente, mas também não posso ser totalmente sincera. Opto por uma mistura de verdades e omissões, uma versão de mim que possa despertar a curiosidade dele, sem revelar demais. — Sou filha de fazendeiros. Saí do interior porque sempre tive o desejo de explorar o mundo, conhecer outras realidades. Queria algo diferente daquela vida simples e repetitiva. Tudo aquilo começou a me sufocar. — Minha voz sai mais baixa ao lembrar do passado. — Fiquei um tempo na casa de uma tia, mas hoje moro sozinha, em um apartamento modesto no centro. Atualmente, estou desempregada. — Aventureira, então? Foi só isso que te tirou de lá? — Ele pergunta, inclinando levemente a cabeça, os olhos analisando cada movimento meu. Respiro fundo, hesitando por um momento antes de admitir: — Na verdade... saí por causa do meu pai. Ele contribuiu bastante para a minha decisão.
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