Depois de tomar uma ducha, me deito na cama e me lembro da primeira vez que vi Leandro. Meus pulmões soltam o ar com as lembranças do meu primeiro dia no BOPE.
A base estava um caos naquele dia. Havia acabado de acontecer uma operação arriscada e o clima era tenso. Homens feridos eram atendidos às pressas, armas sendo descarregadas, vozes ríspidas ecoando pelo ambiente. Eu estava perdida, parada, sem saber para onde ir, já que o oficial responsável por me receber estava ocupado com a situação.
Foi então que vi Leandro. Ele estava do outro lado do salão, todo de preto, a farda impecável, uma bandoleira cruzada no peito, carregando um fuzil com naturalidade. Caminhou até mim com uma presença imponente, como uma pantera n***a prestes a atacar. Naquele instante, eu soube que ele não era apenas mais um no batalhão. Meus olhos o seguiram sem que eu percebesse, e minha respiração ficou presa na garganta por alguns segundos.
Ele me chamou atenção porque era bonito sem ser clássico. Havia algo bruto nele, uma força que transbordava em cada movimento. Seu olhar era intenso, analisador. Quando parou à minha frente, senti minhas mãos esquentarem e uma leve corrente elétrica percorrer minha espinha.
— Santos? — Ele perguntou, a voz grave e firme.
Assenti, sem conseguir disfarçar meu nervosismo.
— Bem-vinda ao inferno. — Ele disse, sem um sorriso, mas com uma expressão que parecia avaliar se eu aguentaria ou não.
Depois daquele dia, nossa relação foi se moldando. Ele me ajudou a me adaptar, me mostrou o departamento, apresentou-me a dinâmica do batalhão e, aos poucos, passamos a trabalhar juntos. A preocupação dele comigo já vinha desde aquela época. Ele sempre estava atento aos meus passos, me testava, mas também me protegia quando necessário.
Naquele tempo, eu sentia uma atração por ele, mas entendi rápido que não poderia misturar as coisas. Nós dois éramos soldados em um ambiente hostil, e envolvimentos emocionais poderiam comprometer qualquer missão. Então, enterrei essa possibilidade e passei a vê-lo como um amigo e mentor. Mas Leandro nunca desligou completamente. Eu vejo como ele me olha. Ele ainda espera... e isso me preocupa.
Suspiro, me virando na cama. O que aconteceu entre nós no passado ainda pesa sobre ele. Mas agora, no meio dessa missão, não há espaço para distrações. Eu preciso manter o foco. Preciso ser forte.
Um dia, Leandro me chamou para sair. Eu neguei, mas ele insistiu, dizendo que era algo importante sobre o trabalho. Acabei aceitando. Fomos a um bar, desses que o pessoal sempre frequenta. O lugar tinha um clima meio abafado, com uma luz fraca e música ao fundo, meio sufocante, mas também intimista. O bar era de uma amiga dele, e a lembrança dessa amiga me assaltou de imediato. Nesse dia, eu percebi algo sutil que até então não tinha notado: ela gostava dele. O modo como ela o olhava, como seu sorriso se expandia sempre que ele falava… tudo aquilo lhe entregava. Mas Leandro parecia completamente alheio, indiferente até, como se não visse o que estava bem diante dele.
Leandro estava diferente naquela noite, tenso, quase inquieto. E, logo, percebi por quê: meu nome estava sendo cogitado para integrar um trabalho de infiltração. Ele não gostou nada dessa ideia e me aconselhou a recusar, como se fosse um pedido, não um conselho. Ele me encheu de argumentos, todos sobre o quão inadequada eu seria para esse trabalho. O tom de sua voz, a expressão de sua face… tudo indicava que ele estava fora de si, como se aquele fosse o único jeito de me proteger.
Eu ainda me lembro de cada palavra, como se tivesse acontecido ontem:
— Desculpe-me, Leandro, mas Carlos só me deu aquilo que eu pedi. Eu já havia conversado com ele sobre trabalhar externo.
— Trabalhar em operações de campo no BOPE é uma coisa. Mas essa missão, de infiltração, exigirá muito mais de você. É muito mais perigosa. — Ele disse isso de forma enfática, como se fosse a única verdade.
Os olhos dele estavam fixos nos meus, como se quisesse entender cada pedaço da minha alma. Ele parecia estudando minhas reações, buscando uma fraqueza. Por um momento, até achei que ele fosse me quebrar em pedaços com aquele olhar penetrante. Eu o enfrentei.
— Leandro, desde que comecei, você me ajudou muito, eu admito. Só que agora, você está me sufocando. Está passando dos limites.
Ele segurou minhas mãos com firmeza, como se tentasse me prender ali, mas, ao mesmo tempo, soltou um suspiro, como se estivesse exausto, derrotado.
— Você não tem o perfil. E esse caso que vamos entrar… é muito perigoso para quem começou agora. Espere mais um pouco. Eu acho que você deveria falar com Carlos, dizer que pensou bem, que você é nova demais para esse tipo de trabalho. Eu até falei com ele sobre isso.
— Você já disse isso a Carlos? — Perguntei, um pouco atônita, sentindo que ele estava tentando controlar cada movimento meu.
Os olhos dele se estreitaram, mas não desviaram.
— Disse. Mas ele está irredutível. Quando ele coloca algo na cabeça, ninguém tira. A única pessoa que pode mudar isso é você.
Levantei-me, decidida.
— Vou pensar.
Eu me virei, mas, surpreendentemente, ele também se levantou. Suas mãos agarraram meus ombros com mais força do que eu esperava. Eu fiquei tonta, não pela força dele, mas pelo calor que emana de seu corpo, pelo cheiro almiscarado e o toque que parecia consumir todo o espaço entre nós. Seu perfume de tabaco e roupa limpa invadiu minhas narinas.
— Pense! E saiba que quero o melhor para você. — Ele falou com uma seriedade que me fez sentir um nó na garganta.
Assenti, não conseguindo mais dizer nada. Ele me observou por um longo momento antes de soltar os meus ombros. Saí do bar, e seus olhos ainda me seguiam.
No dia seguinte, Carlos me perguntou se eu tinha pensado sobre o assunto e quis de mim uma resposta e para desgosto de Leandro, eu aceitei. Momentos depois, pegamos o caso de Dante, e Carlos achou necessário que eu me infiltrasse. Ele me explicou que, caso surgisse a oportunidade de eu ser a infiltrada, não deveria hesitar. Claro, eu não disse nada a Leandro sobre isso.
Janete me contou, mais tarde, que Leandro havia pedido para ser meu parceiro, já trabalhando com a possibilidade de eu aceitar o caso. Eu percebi que ele já tinha se preparado para isso, mas não estava preparado para o que viria.
Antes de me envolver com os Ferreira, passei uma semana com aulas de tiro. Durante esses dias, algo mudou. Leandro começou a se tornar hostil comigo, a mostrar claramente seu desgosto por eu ter aceitado esse trabalho. A tensão entre nós aumentava a cada dia, mas, de alguma forma, eu sabia que estava tomando a decisão certa.
Afasto os pensamentos de minha mente, e com um bocejo, puxo o edredom, me enrolando nele. Fecho os olhos, deixando que o sono venha, embora uma sensação estranha de inquietação ainda persista em minha mente.