Alice me olha insegura.
— Eu só tenho um ursinho que o tio Rafael me deu. Os outros brinquedos ficaram na outra casa.
Que ironia, ela tem o pai urso e um ursinho de brinquedo. Que gracinha.
Quase rio...
— Por que não ficaremos muito aqui, meu anjo. — Dante diz.
Eu me agacho perto dela. Sinto os olhos do bandido em mim. Tô louca para ver o outro urso.
— Pode ser seu ursinho. Você me mostra?
Ela sorri e acena um sim com a cabeça pra mim. Estendo minha mão para ela.
— Então vem!
Ela pega a minha mão com relutância.
— Com sua licença! — Digo e me levanto sob o olhar atento de Dante.
Pouco tempo depois, ainda estou no quarto de Alice quando começo a ouvir vozes exaltadas. Embora eu esteja louca para ir lá e ouvir a conversa, eu fecho a porta, pois Alice começou a me olhar assustada.
Droga! Queria tanto ouvir o motivo da briga. Mas como?
— Papai está brigando com tio Rafael. — Ela diz séria.
— É conversa de adulto. — Digo para ela com um sorriso, tentando amenizar a situação.
— Não gosto de conversa de adulto.
Eu me agacho.
— Só de vez em quando brigamos.
— Papai brigava com mamãe. Ela chorava.
— Verdade?
— Ela dizia que ele não gostava dela.
Meu peito aperta. Alice fala com a inocência de uma criança, mas suas palavras carregam um peso que me atinge como um soco.
— Alice, que tal desenharmos?
— Eu quero desenhar.
— Vamos esperar um pouquinho e eu arrumo uma caneta e papel para você.
— Mamãe morreu. — Ela continua, de repente.
— Eu sei. — A fito séria. — Ela desenhava com você?
Ela acena sim com a cabecinha.
Eu pego o ursinho e a distraio. Dou vida para ele, e através dele fiquei falando com ela. Ela adorou a ideia de que o ursinho falava. Isso durou um tempo, até que ela me pediu de novo:
— Eu quero desenhar.
— Tudo bem. Vamos pedir para o tio Rafael.
Eu abro a porta e pego a mãozinha dela. Caminho pelo corredor e avisto Rafael na sacada, de costas para nós. Ele ainda não se trocou.
— Rafael?
Ele se vira para mim. Seu semblante está carregado e seus olhos tristes.
— Alice quer desenhar. Você pode providenciar lápis e papel?
Ele olha para a sobrinha e a pega no colo. Depois de lhe dar um beijo na cabeça, me diz:
— Vamos na biblioteca.
Ele caminha com Alice no colo. Dante entra na sala com um cigarro numa mão e um copo de uísque na outra. Ele parece nervoso.
— Não gosto que fume perto de Alice. Se quiser fumar, vá até a área externa.
Dante ignora Rafael e se senta no sofá.
— Eu fumo onde eu quiser. E não ficarei muito tempo. Só até eu arrumar meu apartamento que está em reforma. — Seus lindos olhos verdes pousam em mim. — E você? O que está olhando?
Eu o encaro séria. Se eu me acovardar será pior. Ele vai achar que eu tenho algo a temer. Ele deve estar me testando.
— Nada. Rafael tem razão. Você deveria pensar em Alice. Essa fumaça faz m*l.
Ele respira fundo.
— Cuide da sua vida. Da minha cuido eu. — Diz hostil.
Rafael me entrega Alice e se aproxima de Dante.
— Rebeca está trabalhando para mim e é uma hóspede na minha casa. Então, eu quero que você a respeite.
Dante sorri malicioso para o irmão.
— Acho que entendi o porquê dessa sua preocupação com a linda Rebeca.
— O recado está dado. Você está na minha casa, seja educado.
Rafael me pega pelo braço e me diz com a expressão séria:
— Vamos!
Caminhamos em silêncio pelo corredor até uma linda biblioteca. Quando entramos, Rafael fecha a porta.
— Evite Dante para não ter problemas.
O que eu menos quero é evitar Dante.
Eu, de um modo ou de outro, preciso estar perto dele. É claro que Rafael não tem ligação com o crime organizado, por isso ele não me interessa mais, essa é a verdade. Eu preciso ser amiga de Dante.
— Vocês são muito diferentes. Uma pena. Por que essa discrepância?
— Sofremos na infância. Eu canalizei essa dor para fazer algo construtivo. Meu irmão, não. Ao contrário, ele destrói.
Eu aceno um sim para ele. Rafael me estuda com aqueles lindos olhos azuis. Alice abraça a perna dele e ergue o rostinho de um jeito muito sério para uma criança.
— Quero desenhar.
Ele ri e a pega no colo.
— Ah, você quer desenhar?
Ela move a cabecinha afirmativamente.
— O tio Rafael vai arrumar caneta, papel e lápis para você. E amanhã, vou pedir para comprar lápis de cor, canetinhas. O que acha?
Ela abre um lindo sorriso.
— Eu quero!
Rafael a coloca no chão e abre a gaveta. Pega um lápis, uma caneta e um bloco de papel.
— Por enquanto é o que tenho.
Ele me entrega tudo. Eu sorrio para ele. Seus lindos olhos azuis descem momentaneamente para a minha boca. Eu engulo em seco e pergunto:
— Você está há muito tempo com Alice?
— Um mês. Mas parece que estou há anos.
Eu assinto e digo para Alice:
— Vamos então para o quarto desenhar?
— Vamos! — Ela diz animada.
Eu encaro Rafael, que nos observa.
— Bem, então tchau. Mais tarde conversamos.
Ele assente e eu pego a mãozinha dela, saindo da biblioteca e me dirigindo ao quarto. Passo pela sala. Dante está na sacada.
— Vai indo que eu já vou. — Digo para Alice, que assente.
Tremendo, caminho até ele. Dante exala uma aura perigosa e irresistível. Seu corpo imponente e relaxado contrasta com a intensidade cortante de seus olhos quando ele me encara.
— Posso conversar com você?
Ele se vira para mim, parece surpreso. De seus lábios sai um sorriso irônico.
— Claro, por que não?
— Não quero ser sua inimiga. Afinal, eu cuido de sua filha, e ela é um encanto de criança. Podemos ser amigos?