Acordo às oito horas. Não sei se é muito cedo para um domingo, mas essa não é minha casa e também não conheço a rotina daqui. Tomo um banho rápido, visto uma calça jeans e uma camiseta branca, calço os tênis e prendo os cabelos antes de escovar os dentes.
Antes de destravar a porta, vou até o meu esconderijo e pego o celular. Sorrio ao ver a notificação de mensagem.
Cinco e meia da manhã?
Ricardo não dorme?
Bom dia.
Me liga essa noite.
Já com saudades.
Ricardo.
Digito rapidamente:
Bom dia!
Você não dorme?
Acabei de acordar. Estou aguardando no quarto.
Te ligo hoje à noite.
Beijos.
Guardo o celular e destranco a porta. Vou até a sacada e observo o sol surgindo no horizonte, iluminando o telhado das casas abaixo de mim e um parque ao longe. As ruas ainda estão quase vazias.
O tempo passa devagar. Fico ali por um longo momento, tentando me acostumar com a ideia de que Dante Ferreira está por perto. Ele não mora aqui, mas está na casa. E isso já é o suficiente para me deixar tensa.
A simples lembrança da noite passada, do vislumbre do seu corpo tatuado, da presença opressora que ele exala sem precisar dizer uma palavra, faz minha garganta secar.
Respiro fundo.
Tenho que agir naturalmente. Mas como? Ele é um dos alvos da investigação e, ao mesmo tempo, a pessoa que desperta em mim uma reação visceral que eu não consigo controlar.
Ouço batidas na porta e meu coração dispara.
É a governanta. Vou até ela, mas sinto que minhas pernas estão pesadas, como se algo dentro de mim me impedisse de sair. No caminho, lanço um olhar para o rádio-relógio.
Nove horas.
— Bom dia. — Ela me cumprimenta com um sorriso.
— Bom dia.
— O senhor Ferreira pediu para ver se já está acordada. Ele levantou cedo, tomou café e foi correr no parque. Me acompanhe até a sala de jantar.—ela então hesita—Ah, o irmão dele está aqui. Então não se assuste quando encontrar um homem grande.
— Dante Ferreira? — Pergunto, tentando parecer casual, mas minha voz sai um pouco trêmula.
Ela me observa com curiosidade.
— Sim, ele mesmo. Vi há pouco na sala de estar.
Meu estômago se contrai. Então ele continua na casa. Minha respiração fica irregular, e eu tento disfarçar o nervosismo esfregando as mãos na calça jeans.
— E Alice?
— Acordada. Está na cozinha com Joana.
— Joana?
— A cozinheira.
— Ah, sim, claro.
Mas minha mente está distante. Não importa o quanto eu tente me concentrar, o pensamento de encontrar aquele monstro me desestabiliza.
Saio do quarto, sentindo um arrepio subir pela espinha. Cada passo que dou parece ecoar nos corredores silenciosos. Minhas mãos tremem levemente, e eu fecho os punhos, tentando me recompor.
Preciso ser forte. Preciso parecer apenas uma babá comum.
Mas quando me aproximo da sala de jantar, sinto a energia no ar mudar. Meu coração acelera, e meus sentidos ficam em alerta. Sei que ele está em algum lugar.
A governanta me guia até a ampla sala onde uma mesa está posta com perfeição, o cheiro de café fresco misturado ao leve aroma de pão recém-saído do forno se espalha pelo ambiente. Faço uma varredura rápida com os olhos, procurando por ele.
Nada.
Solto o ar preso nos pulmões, aliviada.
Mas o alívio dura pouco. Sei que isso não significa que estou livre do encontro, apenas que ele foi adiado.
Ainda assim, aproveito os poucos segundos de trégua para me sentar e tentar normalizar minha respiração. Seguro a xícara de café, mas percebo que meus dedos ainda estão levemente trêmulos.
Dante Ferreira está nesta casa.
E, mais cedo ou mais tarde, vou ter que encará-lo.
Meu coração parece querer rasgar o peito. Meu olhar vai e volta para o corredor, cada som que ecoa pela casa me mantém em estado de alerta. Sei que ele pode surgir a qualquer momento, e a antecipação está me matando.
Finalizo meu café com as mãos ainda trêmulas, a tensão me corroendo por dentro. Mas os irmãos continuam ausentes.
Uma garotinha magrinha entra na sala, ainda vestindo a calça do pijama rosa e uma camiseta branca. As pantufas fazem pouco barulho no chão, e seus cabelos castanhos caem quase até a cintura. Quando nossos olhares se cruzam, vejo nos olhos verdes – os mesmos do pai – algo que se esconde atrás da timidez.
— Oi, Alice. — Meu tom é suave, amigável, um convite para que ela se aproxime.
Mas ela não aceita. Seus olhos me analisam rapidamente antes de sair correndo da sala sem dizer uma palavra. O baque do coração se intensifica. Isso não é bom.
Respiro fundo e me levanto da mesa. É nesse exato momento que tudo dentro de mim trava.
Um calafrio percorre minha pele.
Ele está aqui.
O ar se torna pesado, quase espesso demais para ser respirado. Minhas pernas ficam fracas, e, sem pensar, me escondo atrás do grande vaso ao lado da mesa de jantar.
Dante Ferreira entra na sala.
E, meu Deus… Ele é muito pior – ou melhor – do que eu lembrava.
Agora que a claridade da manhã revela cada detalhe, posso vê-lo melhor. Ele veste uma calça jeans escura, sem cinto, ajustada o suficiente para denunciar a força das coxas. A camiseta preta justa molda cada músculo de seu peito e dos braços tatuados. Mas é o rosto dele que me atinge com mais impacto: pele bronzeada, a barba cerrada e bem cuidada, e os cabelos castanhos, grossos e ligeiramente bagunçados, caindo para o lado num topete displicente.
Ele tem a presença de um rei que governa pela força. Um predador que não precisa caçar, porque a presa se entrega sozinha.
Meu estômago revira.
O próprio pecado em forma de gente.
O calor que sobe pelo meu corpo briga com o frio do pânico. Ele é real. Ele está ali.
E eu estou fodida.
Minhas mãos suam, meu coração descontrolado martela no peito. Tento me acalmar, tento lembrar que tenho um objetivo, mas o corpo reage antes da razão.
Então, como se pressentisse minha presença, ele levanta a cabeça.
E me vê.
O tempo para.
Os olhos verdes-esmeralda se fixam nos meus como lâminas cortantes. O que quer que ele estivesse pensando antes desaparece, porque agora ele está me encarando como se estivesse vendo algo que não fazia parte do seu mundo.
A expressão dele endurece. Os ombros largos se retesam.
E então ele começa a caminhar na minha direção.
Cada passo é um golpe direto no meu autocontrole. Meu corpo inteiro reage, um arrepio sobe pela minha espinha, e o ar se recusa a entrar nos meus pulmões. O Dante de ontem – aquele que eu só vi à distância, molhado e sem camisa – já era intimidador. Mas este, de perto, decidido, com um olhar afiado como lâmina e um andar predatório, é muito pior.
Eu me levanto devagar, sem mais me esconder. Não adianta. Ele já me viu.
E agora, eu não tenho mais para onde fugir.