O avião particular de Lorenzo cortava o céu noturno como uma lâmina prateada.
Da janela, as luzes de Roma se tornaram um brilho distante, engolido pelas nuvens.
Eu — Isabella, Amara, ou quem quer que fosse naquele momento estava presa entre duas versões de mim mesma.
A mulher que buscava vingança.
E a que, inexplicavelmente, começava a desejar o próprio inimigo.
Lorenzo não falou quase nada durante o voo.
Ele revisava documentos, analisava relatórios, mas seus olhos , quando se levantavam , pareciam sempre me encontrar.
Era como se ele estivesse me estudando, desmontando minhas camadas uma a uma.
Quando o avião pousou em Nápoles, a noite estava densa, úmida, carregada de eletricidade.
Carros pretos os esperavam na pista.
Lorenzo abriu a porta e estendeu a mão para mim.
— Bem-vinda a Nápoles. A cidade onde tudo começa, e termina.
O toque dele foi breve, mas intenso o suficiente para despertar o arrepio que percorreu meu corpo inteiro.
O caminho até a villa da família De Santis foi silencioso.
Nápoles dormia, mas havia algo na cidade uma vibração antiga, um segredo vivo que parecia reconhecer o tipo de escuridão que Lorenzo carregava.
Assim que chegamos, ele me levou até um escritório luxuoso, repleto de quadros e móveis que pareciam tão antigos quanto o próprio nome da família.
— Fique aqui. Não demoro — ordenou, com a voz baixa e firme.
Mas a curiosidade era mais forte que o bom senso.
Enquanto ele se ausentava, comecei a observar o lugar.
Sobre a mesa, uma foto antiga chamou minha atenção, Lorenzo, mais jovem, ao lado de um homem de olhar severo seu pai, presumi, e de uma mulher.
Meu coração parou.
A mulher da foto tinha o mesmo colar que minha mãe costumava usar.
Senti o chão desaparecer por um instante.
Minha mãe havia trabalhado para a família De Santis antes de morrer , e, segundo os rumores, havia morrido por causa deles.
E agora, ali estava uma prova concreta de que ela havia sido próxima o suficiente para ser fotografada ao lado do patriarca.
Antes que eu pudesse pensar no que aquilo significava, Lorenzo retornou.
— Está mexendo nas minhas coisas, Isabella? — perguntou com um meio sorriso, mas os olhos não sorriam.
— Só estava observando — respondi, tentando disfarçar o tremor nas mãos.
Ele caminhou até mim, parando atrás da cadeira onde eu estava sentada.
Sua voz roçou minha orelha.
— Esta casa tem muitos fantasmas. Alguns, eu ainda não decidi se quero enterrar, ou ressuscitar.
— E você acha que pode decidir isso sozinho? — perguntei, sem me virar.
Lorenzo deu uma risada curta, rouca.
— Sempre posso.
O silêncio que se seguiu foi carregado.
O perfume dele madeira, vinho e perigo era um lembrete constante de tudo que eu tentava resistir.
Ele se moveu para frente e apoiou as mãos nos braços da cadeira, me prendendo entre seus braços sem tocar de fato.
— Está com medo, Isabella?
— Não.
— Deveria estar.
Olhei para ele, e algo dentro de mim simplesmente quebrou.
— Já vi homens piores que você, Lorenzo.
— A mentira saiu suave, mas ele percebeu.
O olhar dele desceu até meus lábios, depois voltou aos meus olhos.
— Não acredito em você.
E antes que eu pudesse reagir, ele inclinou o rosto devagar, deliberadamente até que a distância entre nós se tornou perigosa.
— Quando você mente, sua respiração muda — murmurou, quase roçando minha boca.
— E agora, está ofegante.
Meu corpo inteiro respondeu, mesmo quando minha mente gritava para recuar.
— E o que isso te diz? — perguntei, em um fio de voz.
— Que você queira lutar comigo, e comigo ao mesmo tempo.
O ar pareceu se incendiar.
Mas, de repente, alguém bateu à porta.
— Signore De Santis! — uma voz masculina ecoou.
— Temos notícias de Venturi.
Lorenzo se afastou um pouco, a tensão ainda vibrando entre nós.
— Fale.
— Ele foi visto perto do porto, falando com uma mulher. Temos imagens.
Lorenzo olhou para o tablet que o homem trouxe e, quando a imagem apareceu, o rosto dele mudou.
Ele me olhou.
Depois, voltou o olhar para a tela.
A mulher que aparecia ao lado de Venturi era eu.
Mas a foto era antiga.
De anos atrás.
De quando eu ainda era Amara.
Meu coração disparou.
A máscara de Isabella estava prestes a ruir.
Lorenzo me fitou, silencioso.
E então, com uma calma que era mais assustadora do que qualquer fúria, ele disse,
— Quero que todos saiam. Agora.
O cômodo se esvaziou em segundos.
Ele se virou para mim.
— Então, quer me contar quem diabos você é de verdade?
Engoli seco.
— Não vai acreditar em mim.
— Tente.
A voz dele estava diferente. Não havia ironia, nem provocação — apenas perigo puro.
— Eu não sou quem você pensa — murmurei.
— Mas talvez eu seja quem você precisa descobrir.
Os olhos dele se estreitaram.
— Eu deveria te entregar agora mesmo. Mas algo me impede.
— O quê?
Lorenzo se aproximou, encostando o dedo sob meu queixo, obrigando-me a olhá-lo.
— O fato de que, mesmo sabendo que está mentindo para mim, eu ainda não consigo parar de querer você.
A confissão caiu entre nós como um raio, Brutal, Inegável.
E quando ele saiu, deixando-me sozinha naquele escritório antigo, percebi que a linha entre inimigo e desejo já havia sido completamente destruída.