CAPÍTULO 7

901 Words
O avião particular de Lorenzo cortava o céu noturno como uma lâmina prateada. Da janela, as luzes de Roma se tornaram um brilho distante, engolido pelas nuvens. Eu — Isabella, Amara, ou quem quer que fosse naquele momento estava presa entre duas versões de mim mesma. A mulher que buscava vingança. E a que, inexplicavelmente, começava a desejar o próprio inimigo. Lorenzo não falou quase nada durante o voo. Ele revisava documentos, analisava relatórios, mas seus olhos , quando se levantavam , pareciam sempre me encontrar. Era como se ele estivesse me estudando, desmontando minhas camadas uma a uma. Quando o avião pousou em Nápoles, a noite estava densa, úmida, carregada de eletricidade. Carros pretos os esperavam na pista. Lorenzo abriu a porta e estendeu a mão para mim. — Bem-vinda a Nápoles. A cidade onde tudo começa, e termina. O toque dele foi breve, mas intenso o suficiente para despertar o arrepio que percorreu meu corpo inteiro. O caminho até a villa da família De Santis foi silencioso. Nápoles dormia, mas havia algo na cidade uma vibração antiga, um segredo vivo que parecia reconhecer o tipo de escuridão que Lorenzo carregava. Assim que chegamos, ele me levou até um escritório luxuoso, repleto de quadros e móveis que pareciam tão antigos quanto o próprio nome da família. — Fique aqui. Não demoro — ordenou, com a voz baixa e firme. Mas a curiosidade era mais forte que o bom senso. Enquanto ele se ausentava, comecei a observar o lugar. Sobre a mesa, uma foto antiga chamou minha atenção, Lorenzo, mais jovem, ao lado de um homem de olhar severo seu pai, presumi, e de uma mulher. Meu coração parou. A mulher da foto tinha o mesmo colar que minha mãe costumava usar. Senti o chão desaparecer por um instante. Minha mãe havia trabalhado para a família De Santis antes de morrer , e, segundo os rumores, havia morrido por causa deles. E agora, ali estava uma prova concreta de que ela havia sido próxima o suficiente para ser fotografada ao lado do patriarca. Antes que eu pudesse pensar no que aquilo significava, Lorenzo retornou. — Está mexendo nas minhas coisas, Isabella? — perguntou com um meio sorriso, mas os olhos não sorriam. — Só estava observando — respondi, tentando disfarçar o tremor nas mãos. Ele caminhou até mim, parando atrás da cadeira onde eu estava sentada. Sua voz roçou minha orelha. — Esta casa tem muitos fantasmas. Alguns, eu ainda não decidi se quero enterrar, ou ressuscitar. — E você acha que pode decidir isso sozinho? — perguntei, sem me virar. Lorenzo deu uma risada curta, rouca. — Sempre posso. O silêncio que se seguiu foi carregado. O perfume dele madeira, vinho e perigo era um lembrete constante de tudo que eu tentava resistir. Ele se moveu para frente e apoiou as mãos nos braços da cadeira, me prendendo entre seus braços sem tocar de fato. — Está com medo, Isabella? — Não. — Deveria estar. Olhei para ele, e algo dentro de mim simplesmente quebrou. — Já vi homens piores que você, Lorenzo. — A mentira saiu suave, mas ele percebeu. O olhar dele desceu até meus lábios, depois voltou aos meus olhos. — Não acredito em você. E antes que eu pudesse reagir, ele inclinou o rosto devagar, deliberadamente até que a distância entre nós se tornou perigosa. — Quando você mente, sua respiração muda — murmurou, quase roçando minha boca. — E agora, está ofegante. Meu corpo inteiro respondeu, mesmo quando minha mente gritava para recuar. — E o que isso te diz? — perguntei, em um fio de voz. — Que você queira lutar comigo, e comigo ao mesmo tempo. O ar pareceu se incendiar. Mas, de repente, alguém bateu à porta. — Signore De Santis! — uma voz masculina ecoou. — Temos notícias de Venturi. Lorenzo se afastou um pouco, a tensão ainda vibrando entre nós. — Fale. — Ele foi visto perto do porto, falando com uma mulher. Temos imagens. Lorenzo olhou para o tablet que o homem trouxe e, quando a imagem apareceu, o rosto dele mudou. Ele me olhou. Depois, voltou o olhar para a tela. A mulher que aparecia ao lado de Venturi era eu. Mas a foto era antiga. De anos atrás. De quando eu ainda era Amara. Meu coração disparou. A máscara de Isabella estava prestes a ruir. Lorenzo me fitou, silencioso. E então, com uma calma que era mais assustadora do que qualquer fúria, ele disse, — Quero que todos saiam. Agora. O cômodo se esvaziou em segundos. Ele se virou para mim. — Então, quer me contar quem diabos você é de verdade? Engoli seco. — Não vai acreditar em mim. — Tente. A voz dele estava diferente. Não havia ironia, nem provocação — apenas perigo puro. — Eu não sou quem você pensa — murmurei. — Mas talvez eu seja quem você precisa descobrir. Os olhos dele se estreitaram. — Eu deveria te entregar agora mesmo. Mas algo me impede. — O quê? Lorenzo se aproximou, encostando o dedo sob meu queixo, obrigando-me a olhá-lo. — O fato de que, mesmo sabendo que está mentindo para mim, eu ainda não consigo parar de querer você. A confissão caiu entre nós como um raio, Brutal, Inegável. E quando ele saiu, deixando-me sozinha naquele escritório antigo, percebi que a linha entre inimigo e desejo já havia sido completamente destruída.
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