CAPÍTULO 6

990 Words
O amanhecer chegou lento, pintando Roma com tons de ouro e cinza. No Palazzo, o silêncio era quase palpável o tipo de silêncio que vem depois de uma tempestade, mas antes de outra. Eu não dormi. Passei a noite revendo cada palavra dita no baile, cada olhar de Lorenzo, cada gesto que denunciava algo que ele tentava esconder. Ele havia dito que estava me “protegendo”. Mas de quê? Ou de quem? Enquanto organizava meus materiais no salão principal, ouvi o som das portas se abrindo. Não precisei olhar para saber quem era ele. O ar mudou. Lorenzo De Santis tinha esse poder , entrar em um ambiente e fazer o mundo inteiro se curvar, sem dizer uma única palavra. — Bom dia, Isabella. — A voz dele era calma, quase cortês. Mas havia algo ali, escondido entre as sílabas, algo frio. — Senhor De Santis — respondi, tentando manter o tom neutro. Ele caminhou até uma das janelas e ficou de costas para mim. — A festa de ontem foi interessante. Algumas presenças indesejadas, é claro. — Como Venturi — murmurei, testando o terreno. Lorenzo se virou lentamente. — Sim. Um homem perigoso. Mas o que me intriga, Isabella, é por que ele escolheu justamente você para abordar. Meu estômago se revirou. Mas eu mantive o rosto sereno. — Talvez porque eu estava sozinha. Ele deu um passo em minha direção. — Ou talvez porque ele viu algo. — Algo? — Algo que você tenta esconder. O silêncio entre nós se tornou espesso, sufocante. Eu sabia que ele estava testando minhas reações. E eu não podia falhar. — Não tenho nada a esconder — disse, cruzando os braços, tentando soar firme. — Todos têm — ele respondeu, com um meio sorriso. — Alguns escondem cicatrizes, Outros identidades. Meu coração acelerou. Por um instante, achei que ele soubesse. Que tivesse descoberto tudo. Mas Lorenzo apenas se aproximou mais, até ficar perto o suficiente para que eu sentisse o calor da respiração dele contra a minha pele. — Você é diferente, Isabella. — A voz dele baixou, rouca, íntima. — Não pertence a este mundo, mas também não parece querer sair dele. Senti o sangue pulsar nas têmporas. — Talvez eu só esteja tentando sobreviver nele — respondi. — E o que faz alguém sobreviver na escuridão? — Ele inclinou a cabeça, estudando meu rosto. — Medo ou desejo? O olhar dele queimava. E eu sabia que, no fundo, a resposta era os dois. Ele ergueu a mão, tocando um fio do meu cabelo que havia escapado do coque. Um gesto pequeno, mas que fez o tempo parar. — Às vezes, Isabella, não sei se quero desvendar você ou destruir você. — Talvez as duas coisas deem o mesmo resultado — sussurrei. Os olhos dele escureceram. E por um momento, o ar entre nós foi puro fogo contido. Nenhum dos dois se movia. Mas cada olhar era um toque. Cada respiração, uma provocação. — Cuidado, Isabella — disse ele finalmente, recuando um passo. — Jogar comigo pode custar mais do que está disposta a pagar. — E quem disse que tenho medo do preço? — desafiei. O sorriso dele foi lento, perigoso. — É isso que me fascina em você. Ele se virou, caminhou até a porta — e então parou. Sem olhar para trás, murmurou. — Farei uma viagem a Nápoles esta noite. Negócios de família. Mas antes de eu ir, quero que esteja no salão às nove. Temos algo a discutir. — Algo profissional? — perguntei, sabendo que a resposta não importava. — Digamos, pessoal. — Ele saiu, deixando a frase pendurada no ar, como uma ameaça e uma promessa ao mesmo tempo. 🌑 Mais Tarde As horas seguintes foram uma mistura de expectativa e medo. Cada som do relógio parecia mais alto, cada sombra, mais longa. Às nove em ponto, eu estava lá. O salão estava vazio, iluminado apenas pelas luzes suaves das velas. O cheiro de vinho e tinta se misturava ao ar morno. E então ele entrou. O olhar dele era diferente não havia sorrisos, apenas intensidade. — Achei que não viria — disse, fechando a porta atrás de si. — Achei que não fosse um convite — respondi. Lorenzo se aproximou devagar, os olhos presos nos meus. — Não convido, Isabella. Eu mando. Meu corpo estremeceu, não de medo, mas pela forma como aquelas palavras soaram. Não como ameaça, mas como confissão. Ele parou diante de mim, e o silêncio voltou , o mesmo silêncio que precede algo inevitável. — Sabe por que mandei chamá-la? — perguntou, baixo. — Imagino que queira me testar outra vez. — Exatamente. — Ele deu um passo à frente. — Quero saber até onde você vai antes de quebrar. O olhar dele me prendeu, e por um instante, não havia mais vingança, nem segredos. Apenas o som da respiração, o calor, o perigo e o desejo se misturando num só fio. Mas antes que qualquer coisa acontecesse, a porta se abriu abruptamente. Era Caterina. — Lorenzo! — disse, aflita. — Acabaram de ligar. Venturi foi visto em Nápoles. Ele fez contato com alguém do nosso círculo. O rosto dele mudou. O predador deu lugar ao estrategista. — Mantenha-o sob vigilância. Ninguém se aproxima dele sem a minha ordem. Caterina assentiu e saiu tão rápido quanto entrou. Lorenzo olhou para mim, ainda tenso. — Parece que o perigo voltou para todos nós, Isabella. — Ou talvez nunca tenha ido embora respondi, olhando diretamente para ele. Por um momento, o ar se encheu novamente daquela energia perigosa, uma mistura de ameaça e desejo contido. Mas ele apenas deu um meio sorriso sombrio, indecifrável e se afastou. — Durma com a porta trancada — disse, antes de desaparecer no corredor. Fiquei sozinha, o coração descompassado, a mente em chamas. E, pela primeira vez, acreditei que o homem que eu queria destruir podia muito bem ser o mesmo que me salvaria.
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