O Palazzo De Santis fervilhava.
Carros luxuosos estacionavam diante das escadarias, mulheres desfilavam com vestidos que pareciam feitos de luz e pecado, e homens de terno olhavam uns para os outros com sorrisos falsos e olhos cheios de poder.
A cada som de taça, a cada risada abafada, eu me lembrava do motivo pelo qual estava ali: vingança.
Mas o problema é que, naquela noite, o próprio motivo parecia se dissolver toda vez que Lorenzo me olhava.
Vestia um smoking preto impecável.
O cabelo penteado para trás deixava o rosto ainda mais imponente, e o olhar o olhar era uma arma carregada.
E eu sabia que ele a apontava direto para mim.
— Isabella — ele disse, aproximando-se com uma taça de champanhe na mão.
— Nunca imaginei que pudesse transformar arte em distração.
Seu olhar desceu lentamente pelo meu corpo, e por um instante esqueci de respirar.
O vestido preto que eu usava era justo, com um decote elegante e uma f***a discreta.
O suficiente para manter as aparências, mas não o suficiente para esconder o efeito que ele tinha sobre mim.
— Não sabia que restauradoras eram obrigadas a comparecer a bailes — murmurei, tentando manter a voz firme.
Ele sorriu, inclinado, provocante.
— Apenas as que despertam curiosidade e outras coisas.
Meu coração disparou.
— Não sabia que despertava algo no senhor.
Lorenzo se aproximou o bastante para que apenas nós dois pudéssemos ouvir o que ele dizia.
— Desperta mais do que eu gostaria de admitir. E isso é perigoso, Isabella.
O tom dele soou como um aviso, Ou uma promessa.
Antes que eu pudesse responder, uma mulher se aproximou, Caterina De Santis, a irmã dele. Loira, elegante, o tipo de beleza fria e aristocrática que o poder molda.
— Lorenzo — disse ela, com um sorriso tenso.
— O embaixador italiano chegou. Papai quer falar com você.
Ele assentiu, mas os olhos continuaram fixos em mim por alguns segundos longos demais.
— Volto em breve. — A voz dele soou mais baixa, quase um sussurro.
— Não vá embora.
Quando ele se afastou, respirei fundo, tentando retomar o controle.
Mas bastou um gole de champanhe para perceber que o ar parecia mais pesado, como se algo ou alguém me observasse.
E estava.
Um homem parado do outro lado do salão.
Moreno, terno escuro, olhar calculista.
Eu o reconheci imediatamente, Marco Venturi, ex-braço direito da família De Santis.
O mesmo homem que, segundo os dossiês que eu havia estudado, estava presente na noite em que meu pai morreu.
Meu sangue gelou.
Ele me encarava como se me conhecesse.
Meu instinto gritou, corra.
Mas a máscara de Isabella Romano não podia cair ali.
Então, sorri. E caminhei até o jardim, com o coração pulsando forte demais.
O ar noturno estava frio, e o perfume das flores do jardim, não conseguia disfarçar o cheiro de perigoso.
Abaixei a cabeça, tentando parecer calma, mas os passos atrás de mim denunciaram que eu não estava sozinha.
— Boa noite, signorina — disse uma voz masculina, rouca, com um sotaque pesado.
— E uma coincidência ainda mais bonita encontrar você aqui.
Virei-me lentamente.
Era Marco.
Mais velho do que nas fotos, mas os olhos eram os mesmos.
Predadores.
— Acho que não nos conhecemos — respondi, fria.
Ele riu baixo.
— Talvez. Mas há algo no seu olhar… que eu já vi antes.
Antes que eu pudesse responder, ouvi outro som passos firmes, determinados.
Lorenzo apareceu, a expressão sombria, a postura tensa.
— Venturi — disse ele, em tom cortante. — Não esperava vê-lo por aqui.
Marco ergueu as mãos, sorrindo.
— Só um velho amigo, apreciando a festa.
Lorenzo se colocou entre nós, e o olhar dele mudou.
Era o olhar de um homem que não permitia.
Nem perguntas, nem ameaças.
Nem proximidade.
— Isabella — disse ele, sem tirar os olhos de Marco — volte para dentro, Agora.
Havia algo no tom dele que me fez obedecer, mesmo contra minha vontade.
Mas antes de me afastar, percebi, a tensão entre os dois não era recente.
Havia história ali.
E sangue.
****
Quando finalmente o salão do Baile se esvaziou, Lorenzo veio até mim.
Os olhos escuros, a expressão dura, o controle prestes a se quebrar.
— O que fazia com Venturi lá fora? — perguntou, a voz baixa, perigosa.
— Ele apenas me abordou — respondi, erguendo o queixo.
— Eu não o conhecia.
— Não o conhecia — repetiu ele, como se testasse minhas palavras.
— E mesmo assim deixou que se aproximasse?
— Não sou uma prisioneira — retruquei, o sangue fervendo.
Ele deu um passo à frente.
— Mas está dentro do meu território, Isabella. Aqui, cada movimento seu tem consequências.
— Então é isso? Está me vigiando agora? — provoquei, sentindo o coração bater rápido demais.
Ele se inclinou, o rosto a centímetros do meu.
— Não, Isabella. — A voz dele era um sussurro rouco, carregado de desejo e advertência.
— Estou protegendo o que é meu.
Por um instante, o mundo parou.
O olhar dele mergulhou no meu, e toda a lógica desmoronou.
Meu corpo reagiu antes da mente.
E quando ele se afastou, a ausência dele doeu mais do que eu gostaria de admitir.
Ele se virou, caminhando em direção à porta, mas antes de sair, murmurou.
— O que aconteceu esta noite não se repita.
Fez uma pausa, me encarou de lado.
— A menos que eu permita.
E então, desapareceu no corredor.
Fiquei ali, sozinha, o coração em chamas e os segredos latejando dentro de mim.
Pela primeira vez, percebi que talvez o jogo estivesse fugindo do meu controle.
E que o homem que eu jurara destruir,
poderia muito bem ser aquele que me arrastaria para o abismo.