O som da chuva contra o vidro do escritório de advocacia Carter & Associados era suave, quase hipnótico. Naomi sempre gostara de dias nublados — havia algo neles que convidava à introspecção, ao foco — mas naquela manhã o clima só servia para realçar a estranha inquietação que a acompanhava desde o tribunal.
Ela abriu o notebook, digitou algumas notas sobre a audiência, mas suas mãos pararam no teclado.
Luca Moretti.
O nome surgira sozinho, como se tivesse vida própria. Ela franziu o rosto, irritada por deixar que um desconhecido — ainda por cima um Moretti — ocupasse qualquer espaço mental.
— Você está inquieta — observou uma voz familiar.
Naomi ergueu os olhos para encontrar Isabela Duarte, sua melhor amiga e sócia no escritório, parada à porta com uma xícara de café na mão e uma expressão que misturava brincadeira e preocupação.
— Só cansada — Naomi respondeu, fechando a tela do notebook antes que Isabela pudesse ver o que estava escrito. — O caso de hoje exigiu mais do que o esperado.
Isabela arqueou uma sobrancelha, entrando e fechando a porta atrás de si.
— O caso ou o homem de terno preto que não tirava os olhos de você?
Naomi quase engasgou com o ar.
— Você percebeu? — perguntou, tentando parecer indiferente.
— O tribunal inteiro percebeu — rebateu Isabela. — Ele parecia estar em câmera lenta enquanto o resto de nós estava em tempo real. Quem era aquele?
— Luca Moretti.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
— Moretti? — repetiu Isabela, colocando a xícara sobre a mesa devagar. — Naomi... isso não é um sobrenome qualquer.
— Eu sei — respondeu ela, cruzando os braços. — E não estou interessada em nada que venha desse lado da cidade.
— Lado escuro, você quer dizer.
— Chamem como quiserem.
Isabela se aproximou, sentando-se na cadeira à frente da mesa de Naomi.
— Ele falou com você?
— Falou — admitiu Naomi. — Disse que admira meu trabalho. Que “quis ver com os próprios olhos”.
Isabela estreitou os olhos.
— Isso é um problema. Homens assim não aparecem em tribunais sem motivo.
— Eu sei — repetiu Naomi, mais para si mesma do que para a amiga.
Mas ela não sabia. E era isso que a deixava tão frustrada.
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Horas depois, na outra ponta da cidade, Luca caminhava pelo enorme salão de mármore que servia de entrada para a residência da família Moretti. Iluminado por lustres antigos e decorado com quadros importados, o ambiente emanava riqueza e poder — mas para ele, aquilo tudo era apenas fachada.
A verdadeira essência da família não estava nas paredes.
Estava nos segredos.
E nos códigos.
Ele subiu a escada larga, passou pelos corredores silenciosos e entrou em seu escritório pessoal. Uma sala ampla, com estantes de madeira escura cheias de livros e mapas, uma mesa impecavelmente organizada e uma janela que dava visão para os jardins externos.
Sentou-se. Respirou fundo.
E a imagem dela voltou.
Naomi Carter. A advogada de olhar afiado, postura impecável e coragem rara.
É claro que ele já ouvira falar dela. Alguns parceiros de negócios — os legais e os não tão legais — mencionavam seu nome com respeito misturado a cautela. “Ela não se vende”, diziam. “É honesta demais para certos acordos.”
Isso a tornava perigosa.
E fascinante.
Luca nunca tinha sido um homem guiado por impulsos românticos. Sua vida fora construída com lógica, disciplina e autocontrole — pilares que o afastavam do caos que rodeava o sobrenome Moretti.
Mas bastara uma troca de olhares para perceber que Naomi era diferente.
Tão diferente que o desconcertava.
E ele odiava se sentir desconcertado.
Quando ouviu passos firmes no corredor, reconheceu o som imediatamente. O único homem na casa que caminhava como se cada passo fosse um aviso.
Mateo Moretti, seu irmão mais velho.
A porta abriu sem cerimônia.
— Soube que você apareceu no tribunal hoje — disse Mateo, sem saudação.
— Notícias correm rápido — respondeu Luca, sem levantar o olhar.
— Especialmente quando meu irmão decide surgir em um caso que não lhe diz respeito.
Luca ergueu a cabeça, encontrando os olhos frios e calculistas de Mateo.
— Nada me diz respeito até que eu decida — retrucou.
— Não brinque com isso — Mateo se aproximou. — Você sabe que qualquer movimentação sua é interpretada como ordem, aviso ou ameaça.
— Não dei nenhuma ordem — disse Luca calmamente.
— Mas esteve lá. E isso basta para mexer nas águas.
Luca suspirou.
— Apenas quis ver a advogada.
Mateo cruzou os braços.
— A advogada, huh? Ela te interessa?
Luca não respondeu.
E o silêncio falou por ele.
— Isso é imprudente — disse Mateo. — Ela é o tipo de mulher que não tolera jogos. E você… você vive cercado deles.
— Não estou interessado em jogos, Mateo.
— Então está interessado em quê? — o irmão rebateu, duro. — Em complicar a vida dela? Em colocar a família no radar dela? Ou em colocar ela no nosso radar?
Luca apertou o maxilar.
— Eu sei me controlar.
— Não quando se trata do que você quer — disse Mateo, a voz baixa, quase ameaçadora. — E você esquece algo crucial: o nosso código não permite que alguém de fora se aproxime demais.
Luca ficou em silêncio.
Mateo deu um passo para trás, pegando o casaco.
— Tenha cuidado, Luca. O nome Moretti tem peso demais. Pode esmagar gente inocente. — Abriu a porta. — E pode acabar esmagando você também.
Quando o irmão saiu, Luca encarou seu próprio reflexo na janela.
— Naomi Carter… — sussurrou para si. — O que você está fazendo comigo?
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No dia seguinte, Naomi chegou cedo ao escritório. Passara a noite revendo documentos do caso e tentando ignorar o fato de que, vez ou outra, a imagem de Luca surgia como um convite proibido.
Logo depois das nove, Isabela bateu à porta.
— Chegou para você — disse ela, entregando uma caixa retangular, embrulhada com papel simples e sem remetente visível.
Naomi franziu o cenho.
— Deve ser algum cliente.
— Talvez — disse Isabela, mas seu olhar denunciava desconfiança.
Naomi abriu. Dentro havia uma pasta de couro elegante e, no interior, um envelope pequeno.
Ela o abriu devagar.
“Para acompanhar sua elegância no tribunal.”
Sem assinatura.
Sem inicial.
— Você sabe de quem veio — murmurou Isabela.
Naomi fechou o envelope rapidamente.
— Eu não quero isso — disse, empurrando a pasta para longe.
— Então devolva.
— Não posso.
— Pode sim. Você é advogada. Devolver presentes inconvenientes faz parte do trabalho.
Naomi cruzou os braços.
— Devolver seria admitir que sei quem enviou. E eu não quero abrir nenhum canal de contato.
Isabela suspirou, apoiando-se na mesa.
— Naomi… ele está tentando criar uma ponte. E você precisa decidir agora se vai cortar essa ponte antes que ela cresça.
Naomi ficou em silêncio.
A verdade era:
A ponte já começara a ser construída.
E não fora Luca quem colocara a primeira pedra.
Fora ela.
Fora o olhar que o seguiu quando ele se afastou do tribunal.
Fora o arrepio que sentira quando ele pronunciou seu nome.
Fora a curiosidade que ela negara para si mesma desde então.
Mas Naomi era uma mulher que conhecia perigos.
E Luca Moretti era todos eles.
Inspirou fundo e se levantou.
— Eu vou resolver isso hoje — disse. — De um jeito definitivo.
— Resolver… como?
— Indo até a empresa Moretti.
Isabela ficou boquiaberta.
— Naomi! Você está louca?!
Naomi pegou a pasta de volta.
— Estou sendo profissional. Eu não aceito presentes de ninguém que possa comprometer minha carreira.
— Mas ir até eles?! Isso é...
— É necessário — interrompeu Naomi. — Antes que ele pense que pode entrar na minha vida sem ser convidado.
Isabela balançou a cabeça, mas sabiam que Naomi não voltaria atrás.
Enquanto caminhava para o elevador, sentiu seu coração acelerar não de medo, mas de determinação.
E algo mais.
Algo que ela não queria nomear.
Porque parte dela sabia que esse confronto não seria o fim.
Seria apenas o começo.
O início silencioso de uma guerra interna.
E de um amor que jamais deveria existir.