CAPÍTULO 2 — A SOMBRA QUE ACOMPANHA O NOME

1380 Words
O som da chuva contra o vidro do escritório de advocacia Carter & Associados era suave, quase hipnótico. Naomi sempre gostara de dias nublados — havia algo neles que convidava à introspecção, ao foco — mas naquela manhã o clima só servia para realçar a estranha inquietação que a acompanhava desde o tribunal. Ela abriu o notebook, digitou algumas notas sobre a audiência, mas suas mãos pararam no teclado. Luca Moretti. O nome surgira sozinho, como se tivesse vida própria. Ela franziu o rosto, irritada por deixar que um desconhecido — ainda por cima um Moretti — ocupasse qualquer espaço mental. — Você está inquieta — observou uma voz familiar. Naomi ergueu os olhos para encontrar Isabela Duarte, sua melhor amiga e sócia no escritório, parada à porta com uma xícara de café na mão e uma expressão que misturava brincadeira e preocupação. — Só cansada — Naomi respondeu, fechando a tela do notebook antes que Isabela pudesse ver o que estava escrito. — O caso de hoje exigiu mais do que o esperado. Isabela arqueou uma sobrancelha, entrando e fechando a porta atrás de si. — O caso ou o homem de terno preto que não tirava os olhos de você? Naomi quase engasgou com o ar. — Você percebeu? — perguntou, tentando parecer indiferente. — O tribunal inteiro percebeu — rebateu Isabela. — Ele parecia estar em câmera lenta enquanto o resto de nós estava em tempo real. Quem era aquele? — Luca Moretti. O silêncio que se seguiu foi pesado. — Moretti? — repetiu Isabela, colocando a xícara sobre a mesa devagar. — Naomi... isso não é um sobrenome qualquer. — Eu sei — respondeu ela, cruzando os braços. — E não estou interessada em nada que venha desse lado da cidade. — Lado escuro, você quer dizer. — Chamem como quiserem. Isabela se aproximou, sentando-se na cadeira à frente da mesa de Naomi. — Ele falou com você? — Falou — admitiu Naomi. — Disse que admira meu trabalho. Que “quis ver com os próprios olhos”. Isabela estreitou os olhos. — Isso é um problema. Homens assim não aparecem em tribunais sem motivo. — Eu sei — repetiu Naomi, mais para si mesma do que para a amiga. Mas ela não sabia. E era isso que a deixava tão frustrada. --- Horas depois, na outra ponta da cidade, Luca caminhava pelo enorme salão de mármore que servia de entrada para a residência da família Moretti. Iluminado por lustres antigos e decorado com quadros importados, o ambiente emanava riqueza e poder — mas para ele, aquilo tudo era apenas fachada. A verdadeira essência da família não estava nas paredes. Estava nos segredos. E nos códigos. Ele subiu a escada larga, passou pelos corredores silenciosos e entrou em seu escritório pessoal. Uma sala ampla, com estantes de madeira escura cheias de livros e mapas, uma mesa impecavelmente organizada e uma janela que dava visão para os jardins externos. Sentou-se. Respirou fundo. E a imagem dela voltou. Naomi Carter. A advogada de olhar afiado, postura impecável e coragem rara. É claro que ele já ouvira falar dela. Alguns parceiros de negócios — os legais e os não tão legais — mencionavam seu nome com respeito misturado a cautela. “Ela não se vende”, diziam. “É honesta demais para certos acordos.” Isso a tornava perigosa. E fascinante. Luca nunca tinha sido um homem guiado por impulsos românticos. Sua vida fora construída com lógica, disciplina e autocontrole — pilares que o afastavam do caos que rodeava o sobrenome Moretti. Mas bastara uma troca de olhares para perceber que Naomi era diferente. Tão diferente que o desconcertava. E ele odiava se sentir desconcertado. Quando ouviu passos firmes no corredor, reconheceu o som imediatamente. O único homem na casa que caminhava como se cada passo fosse um aviso. Mateo Moretti, seu irmão mais velho. A porta abriu sem cerimônia. — Soube que você apareceu no tribunal hoje — disse Mateo, sem saudação. — Notícias correm rápido — respondeu Luca, sem levantar o olhar. — Especialmente quando meu irmão decide surgir em um caso que não lhe diz respeito. Luca ergueu a cabeça, encontrando os olhos frios e calculistas de Mateo. — Nada me diz respeito até que eu decida — retrucou. — Não brinque com isso — Mateo se aproximou. — Você sabe que qualquer movimentação sua é interpretada como ordem, aviso ou ameaça. — Não dei nenhuma ordem — disse Luca calmamente. — Mas esteve lá. E isso basta para mexer nas águas. Luca suspirou. — Apenas quis ver a advogada. Mateo cruzou os braços. — A advogada, huh? Ela te interessa? Luca não respondeu. E o silêncio falou por ele. — Isso é imprudente — disse Mateo. — Ela é o tipo de mulher que não tolera jogos. E você… você vive cercado deles. — Não estou interessado em jogos, Mateo. — Então está interessado em quê? — o irmão rebateu, duro. — Em complicar a vida dela? Em colocar a família no radar dela? Ou em colocar ela no nosso radar? Luca apertou o maxilar. — Eu sei me controlar. — Não quando se trata do que você quer — disse Mateo, a voz baixa, quase ameaçadora. — E você esquece algo crucial: o nosso código não permite que alguém de fora se aproxime demais. Luca ficou em silêncio. Mateo deu um passo para trás, pegando o casaco. — Tenha cuidado, Luca. O nome Moretti tem peso demais. Pode esmagar gente inocente. — Abriu a porta. — E pode acabar esmagando você também. Quando o irmão saiu, Luca encarou seu próprio reflexo na janela. — Naomi Carter… — sussurrou para si. — O que você está fazendo comigo? --- No dia seguinte, Naomi chegou cedo ao escritório. Passara a noite revendo documentos do caso e tentando ignorar o fato de que, vez ou outra, a imagem de Luca surgia como um convite proibido. Logo depois das nove, Isabela bateu à porta. — Chegou para você — disse ela, entregando uma caixa retangular, embrulhada com papel simples e sem remetente visível. Naomi franziu o cenho. — Deve ser algum cliente. — Talvez — disse Isabela, mas seu olhar denunciava desconfiança. Naomi abriu. Dentro havia uma pasta de couro elegante e, no interior, um envelope pequeno. Ela o abriu devagar. “Para acompanhar sua elegância no tribunal.” Sem assinatura. Sem inicial. — Você sabe de quem veio — murmurou Isabela. Naomi fechou o envelope rapidamente. — Eu não quero isso — disse, empurrando a pasta para longe. — Então devolva. — Não posso. — Pode sim. Você é advogada. Devolver presentes inconvenientes faz parte do trabalho. Naomi cruzou os braços. — Devolver seria admitir que sei quem enviou. E eu não quero abrir nenhum canal de contato. Isabela suspirou, apoiando-se na mesa. — Naomi… ele está tentando criar uma ponte. E você precisa decidir agora se vai cortar essa ponte antes que ela cresça. Naomi ficou em silêncio. A verdade era: A ponte já começara a ser construída. E não fora Luca quem colocara a primeira pedra. Fora ela. Fora o olhar que o seguiu quando ele se afastou do tribunal. Fora o arrepio que sentira quando ele pronunciou seu nome. Fora a curiosidade que ela negara para si mesma desde então. Mas Naomi era uma mulher que conhecia perigos. E Luca Moretti era todos eles. Inspirou fundo e se levantou. — Eu vou resolver isso hoje — disse. — De um jeito definitivo. — Resolver… como? — Indo até a empresa Moretti. Isabela ficou boquiaberta. — Naomi! Você está louca?! Naomi pegou a pasta de volta. — Estou sendo profissional. Eu não aceito presentes de ninguém que possa comprometer minha carreira. — Mas ir até eles?! Isso é... — É necessário — interrompeu Naomi. — Antes que ele pense que pode entrar na minha vida sem ser convidado. Isabela balançou a cabeça, mas sabiam que Naomi não voltaria atrás. Enquanto caminhava para o elevador, sentiu seu coração acelerar não de medo, mas de determinação. E algo mais. Algo que ela não queria nomear. Porque parte dela sabia que esse confronto não seria o fim. Seria apenas o começo. O início silencioso de uma guerra interna. E de um amor que jamais deveria existir.
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