A PRIMEIRA BRECHA NO CÓDIGO

1161 Words
A sala do tribunal estava mais fria do que Naomi Carter esperava. Era sempre assim antes de audiências importantes: o ar-condicionado parecia exagerado, as luzes eram fortes demais, e os olhares, ainda mais cortantes. Ela ajeitou a pasta de couro sobre a mesa e respirou fundo, sentindo o leve perfume de jasmim do creme que passara nas mãos naquela manhã. Pequenos rituais que a ajudavam a manter a compostura. Nada, no entanto, preparara Naomi para a presença silenciosa que se instalara na última fileira do público. Ela sentira antes de ver. Um arrepio súbito, como se uma mudança imperceptível na eletricidade do ambiente tivesse anunciado a chegada de alguém que não passaria despercebido — pelo menos, não por ela. Foi apenas ao erguer o olhar por um breve momento que o viu pela primeira vez: um homem alto, de ombros largos, postura impecável e expressão indecifrável. O terno escuro parecia moldado ao corpo dele, o relógio no pulso era discreto demais para ser barato, e os olhos — um verde profundo, quase hipnotizante — estavam fixos nela como se tentassem decifrar sua alma. Por um instante, Naomi esqueceu o que ia dizer. O juiz não tinha entrado, o promotor ainda ajustava papéis, mas aquele homem... aquele homem parecia saber exatamente quem ela era. Ou, pior, parecia esperar que ela o notasse. E ela notou. Forçou-se a voltar à postura profissional, endireitando a coluna e ajeitando uma mecha de cabelo que escapara de seu coque perfeitamente alinhado. — Concentre-se, Naomi — murmurou para si mesma, quase imperceptível. O caso daquele dia era sensível: seu cliente, um empresário acusado de lavagem de dinheiro. Não era a primeira vez que defendia alguém assim. Mas havia algo diferente naquele processo. Suspeitas não ditas. Silêncios desconfortáveis entre procuradores. Uma sensação vaga de que as linhas do que era visível escondiam algo muito maior. Ainda assim, Naomi estava pronta. Era metódica, disciplinada, e confiava em sua capacidade de encontrar fragilidades nas narrativas mais rígidas. O juiz entrou, e a audiência começou. Ela apresentou seus argumentos com firmeza. Questionou provas duvidosas, desmontou suposições do promotor e conduziu seu cliente com habilidade pelas perguntas delicadas. Foi no momento em que terminou uma de suas contestações que percebeu algo improvável: o homem da última fila... havia sorrido. Não um sorriso inteiro. Apenas a sugestão de um canto de boca levantado, como se apreciasse um detalhe que ninguém mais perceberia. Ela desviou o olhar imediatamente, irritada consigo mesma por notar. Quando a audiência terminou, com a próxima marcada para dali a dois meses, Naomi recolheu seus materiais e se preparou para sair. Queria chegar ao escritório para revisar pontos importantes, e talvez escrever algumas notas antes que os detalhes perdessem frescor em sua mente. Mas, ao empurrar as portas pesadas do tribunal, viu que ele estava lá. Encostado a uma das colunas externas, como se fizesse parte do cenário, como se observar o movimento das pessoas fosse apenas um passatempo. Ou como se estivesse esperando. O coração dela acelerou antes que pudesse se repreender por isso. — Boa audiência — disse ele, a voz grave, baixa, com um sotaque difícil de identificar de imediato. Italiano? Italo-brasileiro? Algo ali carregava um charme fora do comum. Ela franziu o cenho. — Nos conhecemos? — perguntou com frieza. Ele inclinou levemente a cabeça, como se achasse graça do tom defensivo. — Ainda não — respondeu. — Mas eu conheço seu trabalho. Um alerta vermelho acendeu na mente de Naomi. — E quem é você? — perguntou, mantendo a postura impecável, mas preparando-se para encerrar a conversa rapidamente. O homem deu um passo à frente, estendendo a mão. — Luca Moretti. O nome caiu no ar como uma súbita mudança de temperatura. Naomi sentiu o peso do sobrenome antes mesmo de processar emocionalmente o impacto. Moretti. Não era preciso trabalhar muito tempo na área criminal para reconhecer o eco daquele nome. A família era mencionada sempre no plural — os Moretti. Empresários poderosos em vários setores, mas cuja reputação era envolta em rumores e suspeitas que ninguém conseguia provar. Ela não apertou a mão. Sua expressão endureceu. — E o que um Moretti quer comigo? Ele retirou a mão sem se ofender, mantendo a calma irritante de quem parece sempre controlar o ambiente. — Apenas dizer que admiro sua ética e sua coragem — respondeu. — Nem todos enfrentam promotores desse jeito. Muitos escolheriam o caminho mais seguro. O elogio pareceu ter segundas intenções, e Naomi sentiu a espinha se enrijecer. — Prefiro enfrentar promotores do que herdeiros de famílias problemáticas — retrucou. O sorriso dele se alargou um pouco mais, como se estivesse sendo desafiado pela primeira vez em muito tempo. — Então estamos quites — disse. — Porque eu prefiro enfrentar advogados inteligentes do que bajuladores sem propósito. Ela bufou, cruzando os braços. — Olha, eu não sei o que você está tentando fazer aqui, mas— — Nada — interrompeu ele, com suavidade inesperada. — Não vim atrás de você por causa do caso. Nem para interferir em nada. Só... quis ver com meus próprios olhos a mulher de quem tanto falam. O comentário pegou Naomi desprevenida. — E o que exatamente falam? — perguntou, mas se arrependeu no mesmo instante. Curiosidade era munição na mão de homens como ele. Luca deu um meio sorriso, aproximando-se apenas o suficiente para que a voz ficasse baixa, mas não ameaçadora. — Que você não se intimida com poder. E que é brilhante quando está prestes a desmontar uma mentira. Ela recuou um passo, criando distância. — Não sou parte do jogo de ninguém, senhor Moretti. Tenha isso em mente. — Ótimo — disse ele. — Porque também não gosto de jogos. Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos. Passantes seguiam seu caminho, carros buzinavam no trânsito próximo, mas era como se o mundo inteiro estivesse suspenso naquele instante desconfortavelmente carregado. — Tenha um bom dia, doutora Carter — disse ele enfim, inclinando a cabeça de maneira quase respeitosa. — Nos veremos por aí. — Espero que não — respondeu ela, com firmeza. Mas, enquanto Luca se afastava, caminhando com a confiança natural de quem nunca fora ignorado, Naomi sentiu algo inesperado: o olhar dele permanecera com ela, mesmo de costas. Mesmo longe. E por mais que se obrigasse a não olhar, ela olhou. Luca Moretti atravessou a rua como se fosse dono do espaço. Pessoas desviavam, não por medo, mas por instinto. Ele tinha aquela aura — silenciosa, poderosa, perigosa. Naomi inspirou fundo. A última coisa que precisava em sua vida era de alguém como ele. Mas algo em seu corpo, em sua intuição, em sua curiosidade mais profunda, sussurrou: Esse homem não apareceu por acaso. Quando finalmente entrou no carro, percebeu que suas mãos tremiam levemente. Não era medo. Era algo pior: uma sensação de que aquele encontro não terminara ali. E que, gostasse ou não, o destino havia acabado de abrir a primeira brecha no código que ela jurara nunca violar.
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