O som das rodas dos carros sobre o asfalto molhado sempre acalmava Naomi. Era como um lembrete de que a cidade não dormia, não importava quão cansada ela estivesse depois de um dia inteiro no tribunal. No entanto, naquela noite, enquanto caminhava pela calçada em direção ao estacionamento subterrâneo, a sensação que pairava no ar não era de rotina.
Era inquietação.
Era... algo prestes a mudar.
Naomi apertou a pasta de couro contra o peito, a respiração ainda acelerada depois da audiência que quase a fez perder a paciência — e, pior, o caso. O réu que defendera, um empresário acusado de fraude e associação criminal, parecia menos preocupado com a própria liberdade do que com “quem estava assistindo”. Isso a irritava. Ninguém parecia ter controle da própria vida quando forças invisíveis estavam envolvidas.
E Naomi detestava forças invisíveis.
Ainda assim, enquanto descia a rampa estreita do estacionamento, o salto ecoando nas paredes de concreto, ela não conseguia tirar da cabeça a sensação incômoda de que fora observada. Não pelos jornalistas. Não pelos advogados adversários.
Por alguém.
Ao alcançar o carro, respirou fundo e pressionou o botão para destravar as portas. O som curto do alarme a fez relaxar — mas só por um segundo. Algo dentro dela, um instinto que aprendera a respeitar desde cedo, se manteve alerta.
— Longo dia? — disse uma voz masculina atrás dela.
Naomi girou tão rápido que quase deixou a pasta cair.
Ali, a poucos passos, parado como se tivesse brotado do chão, estava o homem que confundira seus pensamentos na audiência. O homem que ela notara sentado na última fileira, observando silenciosamente, sem piscar. Um rosto tão perfeitamente composto que parecia ter sido esculpido para intimidar ou seduzir — ou ambos.
Ele usava um terno escuro impecável, molhado apenas nas bordas por causa da garoa que começara minutos antes. A gravata afrouxada revelava um pedaço do pescoço definido, e o cabelo castanho escuro caía levemente sobre a testa.
Mas eram os olhos que prendiam.
Olhos claros, intensos, de um cinza quase prateado que pareciam enxergar mais do que deveriam.
— Senhor Moretti — disse Naomi, firmeando a postura e ajustando o blazer. — Eu não esperava que viesse falar comigo pessoalmente.
Os lábios dele curvaram-se num meio sorriso que não chegava aos olhos.
— Luca — corrigiu, com a voz baixa, grave e calma. — “Senhor Moretti” é meu pai. Ou meu irmão, dependendo do assunto.
A resposta a pegou desprevenida.
Não pelo conteúdo.
Mas pela forma como ele olhava para ela — como se ela fosse parte de um enigma que ele adoraria decifrar.
Naomi sustentou o olhar. Ela não era mulher de se intimidar, muito menos por um homem bonito. E ele era mais do que isso — era perigoso. Não pelo que fazia, mas pelo que carregava consigo. A reputação dos Moretti não precisava ser explicada nos jornais; era cochichada pelos cantos, comentada em silêncio pelas corporações, temida por quem lidava com o submundo da cidade.
— O que o senhor… — ela corrigiu-se rápido — o que você quer?
— Só agradecer pelo seu trabalho hoje. Você foi brilhante. — Ele deu um passo à frente, mas manteve uma distância respeitosa. — Meu pai comentou que se não fosse você, o juiz teria pedido prisão provisória.
A irritação retornou.
— Se o seu pai quer agradecer, pode me mandar flores. Essa abordagem misteriosa em estacionamento não é necessária.
Luca soltou uma risada curta e surpreendentemente genuína.
— Posso providenciar as flores. Mas duvido que aceitaria.
Ela cruzou os braços.
— Não aceito presentes de pessoas que não conheço.
Luca arqueou uma sobrancelha, como se aquilo fosse um convite.
— Então permita que eu me apresente adequadamente.
Naomi percebeu, naquele instante, o jogo sutil que ele jogava — com todos. O tom seguro, a postura elegante, o poder não declarado. Era o tipo de homem que cresceu sendo obedecido, ouvido e seguido.
Mas ela não era como os outros.
— Eu sei quem você é — disse ela, sem rodeios.
Luca parou, observando-a com mais atenção.
Não havia surpresa.
Havia... curiosidade.
— Então vamos economizar tempo — ele respondeu. — Se sabe quem eu sou, também sabe que não faço rodeios. Quando quero falar com alguém, eu falo. E hoje, eu queria falar com você.
— Por quê?
— Porque você não teve medo de ninguém naquela sala. Nem do meu pai. Nem do promotor. Nem de mim.
O coração de Naomi acelerou, não pela ameaça velada — porque não havia ameaça — mas pela sinceridade na voz dele.
Um elogio assim, vindo dele, carregava um peso que ela não queria aceitar.
— Meu trabalho exige isso — disse ela, tentando encerrar a conversa.
— Seu trabalho exige coragem. E você tem muito mais do que a maioria.
Por um segundo, Naomi ficou sem resposta.
Não porque estivesse impressionada — mas porque não esperava que um Moretti dissesse algo tão… honesto.
— Olha, eu agradeço — ela começou, controlando o tom — mas não devo me envolver com nenhum m****o da sua família fora do ambiente profissional.
Luca inclinou a cabeça, como se estudasse a frase palavra por palavra.
— Quem disse que quero envolver você na minha família?
A forma como ele disse “você” enviou um arrepio indesejado pela coluna de Naomi.
Ele dava cada passo com precisão cirúrgica — como alguém acostumado a medir reações, decifrar intenções, avaliar fraquezas. Ela reconhecia o tipo.
E isso a deixou ainda mais alerta.
— Então o que quer? — insistiu Naomi.
Luca se aproximou um passo — apenas um. Suficiente para que ela sentisse a presença dele como um calor sutil, mas firme. Ele não a tocou. Não invadiu seu espaço. Só se fez presente.
— Quero te conhecer — respondeu, com simplicidade desconcertante.
Por um instante, Naomi pensou ter ouvido errado.
Ela piscou, o cérebro tentando encontrar algum subtexto escondido, algum duplo sentido, alguma armadilha.
Mas Luca não desvia o olhar. Não pisca. Não mente.
— Não é uma boa ideia — ela murmurou, mais para si mesma do que para ele.
— Muitas coisas na minha vida não são boas ideias — ele rebateu suavemente. — Mas algumas são impossíveis de ignorar.
A garganta de Naomi secou.
Ela odiava quando desconhecidos a liam tão facilmente.
Mas odiava ainda mais quando alguém a fazia sentir algo antes mesmo de entender o porquê.
— Não posso — repetiu ela, apertando a pasta enquanto dava um passo para trás.
— Não pode… ou não quer? — Luca perguntou, a voz mergulhando numa curiosidade perigosa.
O silêncio de Naomi respondeu por ela.
Não podia negar a atração. Nenhum dos dois podia. Mas isso não significava que ela deixaria transparecer.
Ela ergueu o queixo, retomando o controle.
— Boa noite, senhor Moretti.
Ele abriu um leve sorriso.
— Boa noite, Naomi.
E então, para o choque dela, Luca virou-se e caminhou em direção à saída do estacionamento. Não insistiu, não forçou, não tentou prolongar o diálogo.
Mas antes de desaparecer pela rampa, ele parou, a silhueta recortada pelas luzes vermelhas da cidade. Sem virar totalmente o rosto, falou:
— Não se preocupe. Eu respeito limites.
Uma vez.
A frase ecoou fundo dentro de Naomi.
Uma vez.
Apenas uma.
Ela entrou no carro com o coração acelerado, tentando ignorar o pressentimento de que acabara de abrir a porta para algo que jamais poderia controlar.
Algo intenso demais.
Algo perigoso demais.
Algo que poderia mudar tudo.
E, embora não admitisse nem para si mesma, uma parte dela — a mais profunda, a mais secreta — já sabia que aquela noite não seria a última vez que veria Luca Moretti.
Seria apenas o início.