CAPÍTULO 1 — O PRIMEIRO IMPACTO

1285 Words
O som das rodas dos carros sobre o asfalto molhado sempre acalmava Naomi. Era como um lembrete de que a cidade não dormia, não importava quão cansada ela estivesse depois de um dia inteiro no tribunal. No entanto, naquela noite, enquanto caminhava pela calçada em direção ao estacionamento subterrâneo, a sensação que pairava no ar não era de rotina. Era inquietação. Era... algo prestes a mudar. Naomi apertou a pasta de couro contra o peito, a respiração ainda acelerada depois da audiência que quase a fez perder a paciência — e, pior, o caso. O réu que defendera, um empresário acusado de fraude e associação criminal, parecia menos preocupado com a própria liberdade do que com “quem estava assistindo”. Isso a irritava. Ninguém parecia ter controle da própria vida quando forças invisíveis estavam envolvidas. E Naomi detestava forças invisíveis. Ainda assim, enquanto descia a rampa estreita do estacionamento, o salto ecoando nas paredes de concreto, ela não conseguia tirar da cabeça a sensação incômoda de que fora observada. Não pelos jornalistas. Não pelos advogados adversários. Por alguém. Ao alcançar o carro, respirou fundo e pressionou o botão para destravar as portas. O som curto do alarme a fez relaxar — mas só por um segundo. Algo dentro dela, um instinto que aprendera a respeitar desde cedo, se manteve alerta. — Longo dia? — disse uma voz masculina atrás dela. Naomi girou tão rápido que quase deixou a pasta cair. Ali, a poucos passos, parado como se tivesse brotado do chão, estava o homem que confundira seus pensamentos na audiência. O homem que ela notara sentado na última fileira, observando silenciosamente, sem piscar. Um rosto tão perfeitamente composto que parecia ter sido esculpido para intimidar ou seduzir — ou ambos. Ele usava um terno escuro impecável, molhado apenas nas bordas por causa da garoa que começara minutos antes. A gravata afrouxada revelava um pedaço do pescoço definido, e o cabelo castanho escuro caía levemente sobre a testa. Mas eram os olhos que prendiam. Olhos claros, intensos, de um cinza quase prateado que pareciam enxergar mais do que deveriam. — Senhor Moretti — disse Naomi, firmeando a postura e ajustando o blazer. — Eu não esperava que viesse falar comigo pessoalmente. Os lábios dele curvaram-se num meio sorriso que não chegava aos olhos. — Luca — corrigiu, com a voz baixa, grave e calma. — “Senhor Moretti” é meu pai. Ou meu irmão, dependendo do assunto. A resposta a pegou desprevenida. Não pelo conteúdo. Mas pela forma como ele olhava para ela — como se ela fosse parte de um enigma que ele adoraria decifrar. Naomi sustentou o olhar. Ela não era mulher de se intimidar, muito menos por um homem bonito. E ele era mais do que isso — era perigoso. Não pelo que fazia, mas pelo que carregava consigo. A reputação dos Moretti não precisava ser explicada nos jornais; era cochichada pelos cantos, comentada em silêncio pelas corporações, temida por quem lidava com o submundo da cidade. — O que o senhor… — ela corrigiu-se rápido — o que você quer? — Só agradecer pelo seu trabalho hoje. Você foi brilhante. — Ele deu um passo à frente, mas manteve uma distância respeitosa. — Meu pai comentou que se não fosse você, o juiz teria pedido prisão provisória. A irritação retornou. — Se o seu pai quer agradecer, pode me mandar flores. Essa abordagem misteriosa em estacionamento não é necessária. Luca soltou uma risada curta e surpreendentemente genuína. — Posso providenciar as flores. Mas duvido que aceitaria. Ela cruzou os braços. — Não aceito presentes de pessoas que não conheço. Luca arqueou uma sobrancelha, como se aquilo fosse um convite. — Então permita que eu me apresente adequadamente. Naomi percebeu, naquele instante, o jogo sutil que ele jogava — com todos. O tom seguro, a postura elegante, o poder não declarado. Era o tipo de homem que cresceu sendo obedecido, ouvido e seguido. Mas ela não era como os outros. — Eu sei quem você é — disse ela, sem rodeios. Luca parou, observando-a com mais atenção. Não havia surpresa. Havia... curiosidade. — Então vamos economizar tempo — ele respondeu. — Se sabe quem eu sou, também sabe que não faço rodeios. Quando quero falar com alguém, eu falo. E hoje, eu queria falar com você. — Por quê? — Porque você não teve medo de ninguém naquela sala. Nem do meu pai. Nem do promotor. Nem de mim. O coração de Naomi acelerou, não pela ameaça velada — porque não havia ameaça — mas pela sinceridade na voz dele. Um elogio assim, vindo dele, carregava um peso que ela não queria aceitar. — Meu trabalho exige isso — disse ela, tentando encerrar a conversa. — Seu trabalho exige coragem. E você tem muito mais do que a maioria. Por um segundo, Naomi ficou sem resposta. Não porque estivesse impressionada — mas porque não esperava que um Moretti dissesse algo tão… honesto. — Olha, eu agradeço — ela começou, controlando o tom — mas não devo me envolver com nenhum m****o da sua família fora do ambiente profissional. Luca inclinou a cabeça, como se estudasse a frase palavra por palavra. — Quem disse que quero envolver você na minha família? A forma como ele disse “você” enviou um arrepio indesejado pela coluna de Naomi. Ele dava cada passo com precisão cirúrgica — como alguém acostumado a medir reações, decifrar intenções, avaliar fraquezas. Ela reconhecia o tipo. E isso a deixou ainda mais alerta. — Então o que quer? — insistiu Naomi. Luca se aproximou um passo — apenas um. Suficiente para que ela sentisse a presença dele como um calor sutil, mas firme. Ele não a tocou. Não invadiu seu espaço. Só se fez presente. — Quero te conhecer — respondeu, com simplicidade desconcertante. Por um instante, Naomi pensou ter ouvido errado. Ela piscou, o cérebro tentando encontrar algum subtexto escondido, algum duplo sentido, alguma armadilha. Mas Luca não desvia o olhar. Não pisca. Não mente. — Não é uma boa ideia — ela murmurou, mais para si mesma do que para ele. — Muitas coisas na minha vida não são boas ideias — ele rebateu suavemente. — Mas algumas são impossíveis de ignorar. A garganta de Naomi secou. Ela odiava quando desconhecidos a liam tão facilmente. Mas odiava ainda mais quando alguém a fazia sentir algo antes mesmo de entender o porquê. — Não posso — repetiu ela, apertando a pasta enquanto dava um passo para trás. — Não pode… ou não quer? — Luca perguntou, a voz mergulhando numa curiosidade perigosa. O silêncio de Naomi respondeu por ela. Não podia negar a atração. Nenhum dos dois podia. Mas isso não significava que ela deixaria transparecer. Ela ergueu o queixo, retomando o controle. — Boa noite, senhor Moretti. Ele abriu um leve sorriso. — Boa noite, Naomi. E então, para o choque dela, Luca virou-se e caminhou em direção à saída do estacionamento. Não insistiu, não forçou, não tentou prolongar o diálogo. Mas antes de desaparecer pela rampa, ele parou, a silhueta recortada pelas luzes vermelhas da cidade. Sem virar totalmente o rosto, falou: — Não se preocupe. Eu respeito limites. Uma vez. A frase ecoou fundo dentro de Naomi. Uma vez. Apenas uma. Ela entrou no carro com o coração acelerado, tentando ignorar o pressentimento de que acabara de abrir a porta para algo que jamais poderia controlar. Algo intenso demais. Algo perigoso demais. Algo que poderia mudar tudo. E, embora não admitisse nem para si mesma, uma parte dela — a mais profunda, a mais secreta — já sabia que aquela noite não seria a última vez que veria Luca Moretti. Seria apenas o início.
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