Assim como existem dois lados de cada história, existem dois lados de toda pessoa. Um lado que revelamos ao mundo e outro que mantemos escondido. Todos acham que me conhecem. Ashley Cooper, filha de um terapeuta renomado de Miami, que é uma das melhores alunas da Miami Senior High School, mas que foi abandonada pela mãe. Pobre coitada. Por muito tempo, eu tive que suportar o olhar de pena dos outros, e por isso eu resolvi dar a volta por cima. As pessoas me acham arrogante, mas isso é porque eu parei de deixar que eles me fizessem de boba, e agora eles não conseguem mais me manipular e me colocam no lugar de vilã. E estou com os meus dois olhos bem abertos, nada passa batido por mim.
Antes eu deixava os outros serem os protagonistas da minha própria história, mas hoje não, hoje sou eu quem impõe os limites, e quem não os respeita eu faço questão de mostrar o caminho para ir para bem longe de mim e da minha vida.
A única pessoa que me entende é a Meghan, ela sim presenciou o meu passado, e por isso ela me dá razão hoje em dia. Foi ela quem segurou na minha mão e me ajudou a levantar a cabeça, e me ensinou à não me importar com a opinião dos outros em relação aos detalhes da minha vida, e me ensinou também a sair do papel de vítima. É preciso aprender à dizer "não", mesmo que eles te xinguem dizendo que você só está sendo egoísta. As pessoas se irritam quando não conseguem o que querem de você. O mundo é podre. Lembre-se disso.
A minha mãe me abandonou quando eu tinha oito anos de idade, ela se divorciou do meu pai e se mudou para o Canadá. Ela não era a melhor mãe do mundo, mas ela foi uma verdadeira v***a egoísta ao me deixar para trás achando que o divórcio incluía abdicar dos filhos também. Mulher podre e vazia! O meu pai virou uma pessoa totalmente diferente do que era antes. Ele não era uma pessoa tão amorosa e carismática, mas ele virou um pai frio e distante, preferindo se afundar no trabalho, ao invés de apoiar a própria filha que foi privada da presença da mãe. Então, não só a minha mãe me deu às costas, mas o meu pai fez o mesmo. Nós m*l conversamos, e por isso eu cresci praticamente "sozinha" nessa casa.
Eu conheci a Meghan nos meus sete anos de idade, desde o jardim de infância estamos juntas, ela acompanhou toda essa confusão na minha vida, ela sim me conhece como ninguém, e sabe quem eu realmente sou. Porém, contudo, todavia, entretanto, eu não me importo com as fofocas que existem ao meu respeito. Eu não dependo de agradar à ninguém.
Já se passava das sete da manhã e assim que fiquei pronta para ir à escola, eu desci as escadas e acabei me encontrando com o meu pai na cozinha, quando fui encher a minha garrafinha de água.
— Bom dia, pai! – falei, dando um suspiro.
Ele estava no canto da cozinha, bebendo o seu café enquanto lia o seu jornal. Ele sempre faz uma cara engraçada, se achando todo intelectual.
— Bom dia – ele disse baixo, me fazendo revirar os olhos.
Parecia que nem tinha vontade de falar comigo. Como que um terapeuta não sabe agir com a própria filha? E olhe lá que ele era elogiado como um grande profissional renomado! Nesse mesmo segundo, uma buzina surgiu na frente de casa, e eu reconheci imediatamente que era a Meghan.
— Não chegue depois do horário, você ainda está de castigo.
— Tenha um bom dia você também, pai – bufei, indo embora o mais rápido que pude.
E lá estava Dylan, saindo de casa no mesmo momento que eu pus os pés pra fora da minha. Ele me olhou rapidamente, me notando também, mas, como sempre, me ignorou, porém eu fiz questão de apreciar a sua beleza. Ele vestia a sua jaqueta preta que o deixava tão lindo, seus cabelos pretos estavam assanhados como sempre, mas isso não o deixava menos maravilhoso, pelo o contrário. Ele tinha um estilo todo badboy, mas ele era todo certinho, então era só o estilo mesmo.
Eu despertei do tranze com outra buzinada e logo entrei no carro vermelho de Meghan.
— Bom dia, Ash – ela me cumprimentou, abaixando o voluma da música que ouvia, e eu sorri para ela.
— Bom dia, Meg – eu puxei o meu espelho da bolsa e resolvi retocar o meu batom, enquanto ela dirigia para a escola.
Eu estava usando um gloss rosa que havia ganhando da Meg no meu último aniversário. Eu me sentia uma patricinha com ele, adoro!
— Quais são as novas? – questionei.
— Jane e Gabriel terminaram.
— De novo? – perguntei, rindo.
— Parece que agora é sério, ela até nos convidou para a festa do Ton, disse que vai tocar o terror lá – ela comentou, me fazendo rir.
— Eu iria de qualquer jeito – falei, bufando, vendo Dylan em seu carro ultrapassar o carro de Meg na pista. — Preciso espairecer um pouco.
— Você contou à seu pai sobre a ligação da sua mãe? – ela quis saber.
No último fim de semana, me surpreendi com uma ligação da minha mãe. E fiquei presa num dilema, sem saber se atendia aquela chamada ou não. "O que o coração não sabe, o coração não sente". Eu não queria ter mais um motivo para me aborrecer com aquela mulher. Não tenho nada para conversar com ela, e não quero ter contato.
No passado, eu até tentei ter uma boa comunicação com ela, mas seu descaso para comigo foi um tapa na minha cara, e me serviu para me despertar da ilusão de ter um relacionamento saudável de mãe e filha, pois com aquela mulher seria impossível!
— Não, e não é necessário, já que eu não atendi – dei de ombros.