STEPHAN JONES
Enquanto estou encostado no corrimão e acendo um cigarro, ouço seus passos atrás de mim. Ela está à minha direita um momento depois e, enquanto expiro a fumaça, observo-a. A brisa quente de verão roça seus cabelos, movendo-os levemente, e ela coloca uma mecha atrás da orelha. Está cravejada com um pequeno diamante e não tenho dúvidas de que é verdadeiro. Ela não parece o tipo de mulher que usaria diamantes falsos. Assim como sua aliança de casamento. É bem simples, uma aliança de prata simples, mas com um diamante grande que faz seus dedos parecerem pequenos.
— Você já me pesquisou?
Ela está olhando para a cidade da sacada, mas rapidamente olha para mim com um sorriso.
— Sim.
— Por quê?
— Eu fiz isso há muito tempo, quando era mais jovem, depois que li O Amante.
Viro-me para encará-la e ofereço um cigarro, mas ela recusa educadamente. Quantos anos ela tinha quando leu? Ela mäl chegou aos vinte e dois anos. E um livro como aquele, sobre o caso de um jovem com uma mulher mais velha e casada, com muitas passagens de cunho sëxual, certamente despertaria algum tipo de sentimento carnal em uma jovem.
— Você é muito interessante. — digo baixinho.
— Sou? Por quê?
— Odeio festas. Nunca gostei muito delas. Mas conversar com você quase me faz esquecer que estou em uma. Isso nunca aconteceu comigo antes.
— Você está dizendo que gosta da minha companhia?
— Acho que sim.
Ela levanta as sobrancelhas e ri suavemente.
— Isso é legal, não é? Na verdade, já li muito sobre você, sabia? Sei o jeito como as pessoas te descrevem.
— Diga-me como me descrevem. — murmuro.
— Dizem que você é... esquivo, como fumaça. Acho que é uma citação. Muito bonito também. Você poderia derrubar alguém com apenas um olhar. Discreto, quieto, extremamente reservado. Sua própria família diz isso. E dizem que você é um verdadeiro conquistador. Um mulherengo, para ser franca.
Essas são todas citações, não apenas a primeira parte. E são todas verdadeiras, cada uma delas. Até minha família, meus irmãos e irmãs, disseram essas coisas.
— Você realmente leu sobre mim, não é? Essas entrevistas que você está citando, tirando a parte do mulherengo, são de quase vinte anos atrás. De quanto tempo você me procurou? Quanto tempo você gastou me pesquisando?
Enquanto ela me encara, desvio o olhar e aproveito para observar seu corpo pela primeira vez. O vestido preto e justo que ela usa deixa pouco espaço para minha imaginação. Tenho certeza de que, por baixo, ela tem um corpo que me excitaria muito. Afinal, ela é modelo, sei disso graças ao Brandon, mas não me dei ao trabalho de pesquisar nenhum de seus trabalhos. Gostaria de ter feito isso agora.
— E então? Quanto tempo?
— Suficiente. — Sua voz é rouca, superficial e insegura.
— E aí? O que você acha de mim? Você me acha esquivo? Reservado? E quanto a bonito? Você me acha bonito?
Olho para o rosto dela novamente. A atmosfera mudou. Está acontecendo rápido, tanto que é alarmante. Eu a achei atraente no momento em que a vi pela primeira vez, e isso mudou para desejo sëxual.
Acho que ela também sabe. Não me importa o fato de ela ser casada com o Brandon, mesmo que ele seja meu amigo. Conheço bem a sensação de desejar uma mulher, e esse é um desejo profundo e intenso. Mais intenso do que eu já senti em muito tempo. A ideia de levá-la de volta para o quarto que passamos no caminho e tränsar com ela me passa pela cabeça, mesmo sabendo que não conseguiria.
— Eu acho você um homem atraente, sim. Eu estaria mentindo se dissesse o contrário.
Dou um passo em direção a ela, mas não muito. Ainda estou tentando senti-la. Afinal, acabamos de nos conhecer.
— Eu também te acho muito atraente, Estella. O que devemos fazer a respeito?
— Nada. Sou uma mulher casada.
— E eu sou mulherengo, lembra? O fato de você ser casada não me incomoda.
— Isso deveria te incomodar. Acho que você gosta de usar as pessoas.
Ela tem razão. E eu gostaria muito gostaria de usá-la. Mas mesmo com esse insulto, com sua honestidade áspera, esse desejo está se intensificando e eu encaro sua boca. Seus lábios são carnudos, seu inferior está para fora, esperando para ser beijado. E a vontade de beijá-la é avassaladora e, quando começo a me aproximar, ela dá um passo para trás.
Ela é fácil de ler e é nisso que eu sou bom. O casamento não me incomoda... mas incomoda a ela. Ela não está feliz com o Brandon. Ela é muito infeliz, na verdade. Está escrito na cara dela, do mesmo jeito que eu escreveria em um livro. Eu já escrevi isso em um livro, o livro que ela leu, uma mulher infeliz no casamento, e ela é como essa personagem.
As portas se abrem e nós dois olhamos para o homem e a mulher que estão entrando na sacada conosco. Volto para o meu lugar e acendo outro cigarro. Espero que ela volte para dentro e me deixe sozinho aqui fora, mas ela está parada ao meu lado novamente. Aqueles dois estão do outro lado da sacada, mas consigo ouvi-los conversando. Aposto que estão bêbados porque estão fazendo barulho, rindo e se tocando.
— Deveríamos almoçar amanhã. Você está livre?
Ela limpa a garganta, olhando para os dedos entrelaçados à sua frente.
— Eu acho que não.
— Você não está livre? Ou prefere não almoçar comigo?
— Eu não... eu não acho que seria apropriado almoçar com você sozinha. Principalmente depois do que você acabou de dizer.
Então ela não é uma traidora, não é esse tipo de mulher. Já estive com esse tipo de mulher, já fui o "outro" algumas vezes, e ela não é esse tipo de mulher. Isso me faz desejá-la ainda mais, o que é exótico para mim. Quando uma mulher não me quer, é isso. Eu aceito e deixo para lá. Não imploro, não tento de novo, mas o que há de tão diferente nela?
— Poderíamos convidar o Brandon.
Isso a deixa confusa, dá para perceber só pelo jeito que ela olha para mim.
— Você quer convidar o Brandon?
— Sim. Por que não? Ele poderia vir conosco. Sou novo na cidade. Você poderia me mostrar seu lugar favorito para comer. Preciso de algumas dicas.
Ela balança a cabeça novamente e suspira.
— Brandon vai viajar amanhã. Ele vai ficar fora o fim de semana todo e só volta na segunda.
Olho para as pessoas que voltam para dentro, olho ao redor e me sento em uma das muitas cadeiras ali fora. Aponto para a que está ao meu lado, ela hesita, mas se senta. Inclino-me para a frente, com os cotovelos apoiados nos joelhos e o queixo apoiado em uma das mãos, e a encaro. Estamos mais perto do que antes, um dos saltos dela está bem ao lado de um dos meus sapatos, e eu poderia colocar a mão em seu joelho se quisesse.
— Poderíamos ir almoçar de qualquer jeito, sem ele. E à noite tenho um compromisso. A estreia de um dos meus livros que virou filme, um evento no tapete vermelho e uma festa depois. Você poderia vir comigo e a gente poderia jantar depois.
Ela está pensando nisso e eu a observo atentamente. Quero muito que ela diga sim e, ao mesmo tempo, estou tentando entender o que está acontecendo comigo. Já estive com muitas mulheres bonitas, mas há algo diferente nela. Não consigo definir o que é. Quero ficar sozinho com ela, conhecê-la melhor e, claro, ver o que há por baixo daquele vestido.
— Serei um perfeito cavalheiro. — murmuro. — Eu ia sozinho, principalmente depois do que saiu recentemente nos tabloides sobre mim, mas gostaria muito que você fosse comigo.
Ela meio que sorri.
— Seu fiasco de traição?
Eu bufo e rio baixinho.
— Meu fiasco de traição — repito. — Não foi um fiasco tão grande, na verdade.
— Você nunca disse o contrário.
— Minha porta-voz divulgou uma declaração.
— Ela disse: “Sem comentários.”
Ela ri enquanto diz isso e eu abro um sorriso. Gosto do som da risada dela, é leve e livre, exatamente o oposto de mim. Sou rígido e contido, e não sou de me soltar nem rir, a menos que seja forçado.
— Você poderia ter dito alguma coisa. Ou teria sido muito pessoal para você?
Qual seria o sentido de dizer qualquer outra coisa? Ela queria me atacar, me machucar, e eu não me importava o suficiente com ela para me defender. Ficamos juntos por um tempo, mas ela nos levava muito mais a sério do que eu. O fato de ela ter destruído meus pertences pessoais nunca apareceu nos tabloides. O fato de ela ter me dado um tapa, me batido e puxado meu cabelo quando terminei tudo também não apareceu. O fato de eu ser uma pessoa reservada é muito verdadeiro, e eu preferiria não ter falado com nenhum repórter ou tabloide sobre algo que eu achava que deveria ter sido mantido em sigilo.
Isso já é mais do que eu contaria a qualquer outra pessoa e é assustador para mim sentir que posso falar tão livremente na frente dela.
— Vem comigo? Por favor? Você pode me ver sentir vergonha enquanto assisto ao filme.
— Por que você ficaria envergonhado?
— Sempre fico envergonhado quando um dos meus livros vira filme. Não sei por quê, simplesmente fico.
O sorriso dela aumenta, mas depois some, e eu vejo aquela infelicidade de novo. Ou ela não sabe esconder, ou não quer esconder na minha frente. Ela pareceu feliz quando Brandon nos apresentou. Ela parecia feliz na foto do casamento que está na mesa dele, não que eu tenha conseguido vê-la direito. E ela parecia feliz até começarmos a conversar aqui.
— Você gostaria de ir? Acho que nos divertiríamos juntos.
Nós nos encaramos, ela tenta me ler, mas eu sei que não vai ter sorte com isso. Além de eu desejá-la, não há mais nada que ela possa captar de mim. Sou uma parede, intensamente protegida.
— Simplesmente não acho que seria apropriado. Sinto muito, Stephan.
Suspiro, coloco a mão no joelho dela e aperto-o delicadamente. É decepcionante, mas não vou insistir no assunto. Mesmo que a sensação da pele dela sob a minha mão esteja me excitando além da conta, o suficiente para que meu päu comece a reagir, e eu a queira tanto que consigo sentir o gosto. E o jeito que ela diz meu primeiro nome assim, em vez de apenas o sobrenome... Eu gostaria de ouvi-la gritar. Eu poderia fazê-la fazer isso, tenho certeza.
— Tudo bem. Não precisa se desculpar. — digo com um sorriso. — De qualquer forma, te dou meu número. Se mudar de ideia e quiser almoçar comigo amanhã, é só me ligar. Estou livre a tarde toda.
Do bolso do meu casaco, tiro um pequeno bloco de notas, anoto meu número e entrego o papel a ela. Ela o encara por um momento antes de dobrá-lo.
— Eu deveria ir.
— Você já está indo embora?
— Sim. Eu não estava planejando ficar muito tempo mesmo.
Acho que ela preferiria que eu ficasse, mas eu prefiro não ficar. Não estou acostumado a ser rejeitado e não estou bravo com isso, claro, mas acho que gostaria de ir para casa.
— Eu te acompanho até a saída.