3 - Com o que ela está infeliz?

1760 Words
STEPHAN JONES Eu sigo Estella para dentro, desço as escadas e voltamos à vida da festa. Como eles conseguem ter tantos amigos? E por que iriam querer convidar todos para a casa deles? Nunca tive vontade de fazer isso, de receber um monte de gente na minha casa. Enquanto andávamos no meio da multidão, nós dois paramos quando esbarramos em Brandon. — Eu estava me perguntando para onde vocês dois foram. Eu sorrio. — Ela me fez companhia enquanto eu fumava alguns cigarros. Mas, na verdade, preciso ir. — Tão cedo? — Sim. Tenho uma longa noite pela frente amanhã. Estreia de filme e tudo mais. Ele levanta as sobrancelhas enquanto toma um gole do seu copo. — Ouvi dizer que é muito bom. — Espero que sim. Ajudei no roteiro, então espero que não tenham estragado tudo. Os dois sorriem para minha tentativa de brincadeira e eu faço um gesto em direção a Estella. — Convidei você e Ella para virem comigo, mas ela recusou meu convite. Ela arregala os olhos para mim, atordoada, e Brandon franze a testa. — Você deveria ir, querida. — Eu não queria ir sem você. Ele revira os olhos e ri. — Vá. Acho que você vai gostar muito. Você nunca foi a uma estreia de filme como essa. Eu iria se pudesse. Amanhã vou viajar a negócios. — ele me diz. — Ela me contou. Tentei convencê-la a vir mesmo assim, mas talvez você faça um trabalho melhor do que eu. O jeito como ela me olha me faz sorrir. Ela já está irritada comigo e mäl nos conhecemos. Acho isso engraçado. — Estou insistindo para que você vá, querida. Divirta-se. Ela parece exasperada. — Certo. Eu vou. Eu sorrio, incapaz de me conter. — Maravilhoso. Te pego às sete. Obrigada por me receber esta noite, Brandon. Tenho certeza de que te vejo em breve. Aperto a mão dele novamente, depois a dela, e enquanto vou em direção ao elevador, sei que ela está me seguindo. — Por que você fez isso? Enquanto aperto o botão, olho para ela, fingindo inocência. — Fiz o quê? — Você sabe. Assim como sabia que ele me mandaria ir. — Talvez eu tenha feito. Enfim, é black tie, então vista algo parecido com o que você está usando agora. Vou fazer reservas para o jantar. Você vai se divertir. Ela tenta não sorrir e eu olho para trás. Brandon não está à vista e ninguém está prestando atenção em nós. Eles estão concentrados em socializar, comer e beber, como deveriam estar. — Te vejo amanhã à noite, ok? Se mudar de ideia sobre o almoço, é só me ligar. Coloco a mão em seu ombro, inclino-me para perto e beijo-lhe suavemente a bochecha. Ela solta um suspiro suave enquanto beijo a outra e, depois que me afasto, aquela vontade de beijá-la na boca volta, mas eu obviamente não conseguiria mais. E o que alguém pode dizer sobre eu beijá-la nas bochechas? Sou inglês, faço isso ocasionalmente com mulheres que conheço; não passa de uma forma de cumprimentar ou me despedir em certos momentos. Embora isso seja diferente. Ela está com as bochechas vermelhas e o rubor está subindo pelo peito. A palidez da pele dela torna isso muito fácil de perceber. Ouve-se um leve ruído quando as portas se abrem. — Traga seu exemplar de O Amante. Eu autografo, como eu disse. Boa noite. Eu me afasto dela e entro no elevador, depois me viro para encará-la. Nos encaramos enquanto aperto o botão para ir para o térreo. Ela tenta sorrir, mas eu não retribuo, e o sorriso some rapidamente de seus lábios. Sinto como se pudesse queimar seu corpo só de olhar para ela, mas as portas estão se fechando e ela se foi. Puxo a gravata, desfazendo-a lentamente, e puxo o colarinho. Está apertado demais. Estou com calor, suando, e é por causa dela. Como ela me deixou desse jeito? Ela não fez nada, exceto ser absolutamente de tirar o fôlego. A última vez que uma mulher me tirou o fôlego daquele jeito, eu tinha apenas dezesseis anos. E não que Estella soubesse, mas ela leu sobre essa mulher. O Amante, um dos meus livros mais populares até hoje, é semiautobiográfico. Não que alguém soubesse. Publiquei-o como ficção. Ninguém nunca me perguntou se era outra coisa senão isso, exceto uma das minhas irmãs, que me confrontou depois da publicação. Ela sabia quando eu estava no meio de um caso, mas nunca disse nada até então. Saio lentamente do elevador e, em vez de pegar um táxi de volta como fiz para chegar aqui, vou a pé. A noite está linda, o céu está limpo, mas não presto muita atenção. Estou muito focado nela. A mulher com quem transei ontem à noite e hoje de manhã era muito atraente, mas não senti interesse em nada além de tränsar com ela. Duvido que algum dia a veja novamente. Mas, Estella, antes mesmo de tränsar com ela... se eu tiver a chance, sinto que gostaria de ter algo a ver com ela. Eu nem consigo contar quantas mulheres já fiquei, foram muitas, mas sei que nunca me interessei muito por elas. Mesmo aquelas com quem já tive “relacionamentos”. Pode ser considerado um relacionamento se uma pessoa é distante, fria e desinteressada em qualquer coisa além de sëxo na maior parte do tempo? Quando chego em casa, a primeira coisa que faço é preparar uma bebida para tirar o gosto daquele champanhe horrível. Uísque com gelo resolve. Depois de tirar os sapatos, o paletó e o colete, sento-me à minha mesa. Giro a cadeira por um instante, inclino-me para trás e olho para o prédio deles pelas janelas. Ela ainda está pensando em mim? Na nossa conversa? Ela está nervosa com a ideia de amanhã à noite? Ela vai cancelar? Ela vai ligar e dizer que mudou de ideia e que gostaria de almoçar comigo? Eu zombo e sorrio enquanto acendo um cigarro. Duvido que ela venha almoçar comigo. Foi como arrancar dentes para ela sair, mesmo sabendo que ela realmente queria. Bastou a aprovação do Brandon. Ela devia se importar mesmo com ele e respeitá-lo. Isso não significa que ela não esteja infeliz. Eu sentia. Minha intuição quase nunca se engana. Brandon não é um homem feio, de jeito nenhum. Ele é mais velho que eu, tem cabelos grisalhos, está em boa forma e é um dos homens mais legais que já conheci. Então, com o que ela está infeliz? Ele pode ser diferente a portas fechadas, mas eu simplesmente não consigo imaginá-lo sendo mau ou indelicado com ela. Talvez seja o sëxo. Ela não está satisfeita com ele? Pensar nisso desperta em mim uma sensação de ciúmes, que me pega de surpresa. Faz muito tempo que não sinto ciúmes. Isso me dá um frio na barriga e um formigamento na pele. Tiro o celular do bolso, olho para ele por um instante e clico no Instägram. Não me lembro da última vez que usei o aplicativo, e só o tenho porque minha assessora de imprensa me disse que era bom para exposição. Ela me diz o que devo postar e quando, caso contrário, o perfil fica sem uso. Nunca curti uma única publicação nem procurei alguém, mas agora sim e logo me encontro na página dela no Instägram. Ela tem um tique azul ao lado do nome, assim como eu, e assim que começo a rolar as fotos dela, tenho que parar. Elas me fazem perder o fôlego e meu coração dispara. São ensaios profissionais, lingerie, vestidos, marcas famosas. Achei que ela estava apenas começando a carreira, mas parece que ela já decolou. Eu sabia que o corpo dela tinha que ser bonito, mas vê-lo me dá arrepios. Meu Deus, eu a quero. Olha só para mim. Estou espiando o Instägram dela feito um velho pervertido. Mas notei que não tem uma única foto do Brandon, só dela ou dos amigos, e acho isso estranho. Ela definitivamente tem presença nas redes sociais, com mais de um milhão de seguidores, posta com frequência, então por que não postar o marido aqui? É possível que ela já tenha um amante? Brandon disse que eles estão casados há dois anos. Será que ela já o traiu nesse período? Ela foi rápida em me recusar, mas me deixou flertar e não contou para o Brandon. Isso acontece com frequência? Tenho certeza de que não faltam homens tentando se apossar dela. Será que o Brandon se importaria? Se ela fosse minha esposa e desaparecesse lá fora durante o tempo que estivemos lá fora, tenho certeza de que eu teria tido um problema com isso. Desligo o celular, fumo outro cigarro e termino minha bebida. É quase meia-noite e estou cansado. Muitos pensamentos rondam minha cabeça, ela está me obscurecendo. Entro no quarto, tiro a roupa e deito-me na escuridão. A luz da lua brilha através da cama, tornando o teto visível. Observo-o, movendo-me inquieto, até começar a adormecer lentamente. [...] O toque do meu telefone me acorda. O relógio marca que já passa das três. Quem diabos está me ligando às três? Pego meu telefone e o encaro, semicerrando os olhos devido à luminosidade. Diz DESCONHECIDO, então o jogo de volta no criado-mudo. Mas assim que para de tocar, começa de novo. — Dröga. — murmuro, e então pego o cartão. — Alô? — Eu te acordei? Me desculpe. É ela. Sento-me rapidamente e esfrego os olhos. — Não, tudo bem. Eu estava esperando que você ligasse. Isso soa mais desesperador do que eu pretendia e eu me xingo. É porque ainda estou meio dormindo e fui pego de surpresa. — Só queria te dizer que vou almoçar com você amanhã. — Sério? Certo... onde? Me diga um lugar e um horário. Ou eu posso te buscar. — Não, podemos nos encontrar lá. É... — Espere aí. Vou anotar para não esquecer. Ela fica em silêncio enquanto eu saio correndo do quarto e vou para a sala de estar, sento-me à minha mesa, acendo o abajur e rapidamente pego um bloco de notas. — Ok. — Do Rao. Acha que uma ou duas horas seria bom? Rabisco o nome. — À uma da tarde seria ótimo, Estella. Estou ansioso. — Boa noite, Stephan. A linha cai e, quando percebo a força com que seguro o telefone, afrouxo o aperto. Ela quer almoçar comigo. Algo a fez mudar de ideia. Fico pensando o que aconteceu. Talvez eu pergunte a ela amanhã. Agora preciso dormir um pouco.
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