Enquanto eu tentava assimilar o que tinha acabado de acontecer, Rica entrou na casa do meu avô.
- Luna, o que aconteceu? - Ele perguntou. - A Angela… Ela foi… Foi sugada pela TV. Mas… como? Que bruxaria é essa?
Olhei para Sebas e para vovô em busca de ajuda, mas eles apenas deram de ombro, também não sabiam o que fazer, e sem saída, acabei optando por contar a verdade para o meu namorado, mesmo que eu pudesse sofrer as consequências disso.
- Ela não foi sugada e também não é nenhum tipo de bruxaria. - Falei.
- Então o que é isso?
- Acontece que… Na verdade… - Dei uma coçada de leve na nuca enquanto criava coragem para contar. - O Sebas, a Angela e eu nós não somos daqui, dessa época…
- Como assim? Do que você está falando?
Nisso, notei vovô fazer um sinal para meu irmão e os dois se retiraram.
- Nós viemos do ano de 2023.
- É o quê? Como assim? Mas como? Não, isso é impossível. Você só pode estar brincando.
- Até queria, mas não estou. E bom… Através dessa TV, que o meu avô, que aliás é o Andrés, construiu, a gente pode viajar no tempo, e é isso que a Angela fez…
- Luna, Luna, para, chega, por favor. - Suspirou um pouco. - Isso é loucura! Como? Viagens no tempo não existem, e como uma tv pode ser uma máquina do tempo? E espera… Andrés é seu avô? Mas ele é apenas alguns anos mais velho que a gente.
É, acho que eu deveria ter ido com calma com as informações, acho que quis contar tudo de uma vez e acabei falando demais, deve ter dado algum ‘’bug’’ no cérebro dele, não sei como ele não desmaiou com tudo o que eu havia dito, porque se alguém me falasse que é do futuro, e que seu avô tem menos de 30 anos, acho que eu teria um treco, ou iria rir da cara da pessoa, talvez as duas coisas.
- Rica, desculpa não ter te dito nada antes…
- Luna, você mentiu pra mim esse tempo todo, eu pensei que eu te conhecesse, mas agora estou vendo que tudo o que eu sabia de você era pura mentira. Aliás, teu nome é Luna mesmo ou você mentiu isso também?
- Rica…
Ele nem esperou eu terminar a frase, me deu as costas e saiu me deixando falando sozinha. Me sentei no sofá cabisbaixa enquanto me perguntava se eu havia feito a coisa certa. d***a, ele devia estar me odiando agora, e tudo por minha culpa. Deixei algumas lágrimas escaparem, mesmo tentando evitá-las. Ouvi alguns passos, mas não olhei para ver de quem se tratava. De repente senti alguém se sentar ao meu lado. Era vovô.
- O que houve? Vocês brigaram?
- Eu contei tudo, e agora ele está me odiando. - Coloquei minha cabeça no ombro do vovô.
- Hey, não fica assim. - Ele me abraçou. - Ele só precisa de um tempo pra assimilar tudo, mas tenho certeza que ele não está te odiando.
- Acha que ele vai me perdoar? - Perguntei tentando conter algumas lágrimas.
- Claro que sim…
Olhei por alguns segundos e lembrei do meu vovô de 2023, ele sempre me confortava e me tranquilizava quando eu estava com algum problema, fazia eu me sentir melhor e eu gostava muito disso.
- Quer que eu converse com ele? - Perguntou.
- Obrigada, mas eu acho melhor, não, ele pode ficar bravo com você também por ter escondido isso dele e sem falar, que ele pode não gostar por eu ter pedido pra você fazer isso.
- Tudo bem, mas agora vá trocar essa roupa e vai dormir, você precisa descansar, hoje o dia foi cansativo
- Obrigada, vovô.
O abracei e lhe dei um beijo no rosto, ele sorriu e eu me retirei em direção ao meu quarto. Não consegui dormir direito nessa noite, o jeito que Rica me olhou não saia da minha cabeça, eu não queria magoá-lo, nem decepcioná-lo. Ai, d***a, acho que eu devia ter contado antes, ele não podia descobrir dessa forma. O que será que estava se passando pela cabeça dele?
De repente bateram à porta do meu quarto.
- Posso entrar? - Meu irmão perguntou.
- Claro.
Ele entrou em meu quarto, fechou a porta e se sentou na minha cama ao meu lado.
- O vovô me contou… Sinto muito pelo que houve entre você e o Ricardo.
- Valeu. - Dei um leve sorriso.
- Pelo menos agora eu não sou o único da família que está sofrendo por amor. - Falou.
- Sebastián! - O repreendi.
- Tô brincando. - Deu um leve sorriso.
- Eu também sinto muito por você e a Angela terem brigado.
- Eu juro que não gosto da Laura, não queria beijá-la.
- Eu acredito em você. Ai, Sebas, fico tão feliz por ver o quanto você amadureceu, antes você gostava da Angela por ela ser bonita, de boa condição financeira, só se importava com isso, mas agora… Agora você gosta dela de verdade, como ela é.
- Verdade… Eu… Eu amo a Angela, essa Angela. - Sorriu com o olhar tristonho. - Bom, qualquer coisa eu estou no quarto ao lado.
- Pode deixar. - Sorri.
Sebas se levantou da minha cama e fez menção de sair, mas logo parou de caminhar e se virou para mim.
- Luna, hã… Bom, por mais que você seja a preferida do vovô em todas as realidades, e mesmo você se achando ‘’a inteligente’’ e pegando no meu pé…
- Sebas… Também te amo. - Sorri.
- Isso, era isso que eu queria dizer. Obrigado. Nossa, você falando parece tão fácil.
- Boa noite, Sebas. - Sorri novamente.
- Boa noite. - Ele sorriu também e saiu do meu quarto.
(...)
Era 11h, tentei ligar algumas vezes para Rica do telefone residencial do meu avô, mas só chamava, será que não tinha ninguém na casa? Não, provavelmente ele estava me evitando, acho que ele não queria mesmo falar comigo, tá, eu sei que eu devo dar uma tempo pra ele, mas eu também não quero que Rica fique chateado, queria poder me explicar…
Eu estava sentada no sofá quando vovô chegou em casa junto de Isa.
- Oi Luna. - Ela falou docemente.
- Oi.
- O que houve? Que carinha é essa?
- Ah, longa história. - Falei.
- Eu tenho tempo. - Se sentou ao meu lado.
- Eu trouxe a Isa pra almoçar com a gente. - Disse vovô. - Podem ficar conversando que vou fazer a comida.
- Se eu soubesse teria preparado algo. Quer ajuda?
- Não precisa. Obrigado. - Ele disse se dirigindo para a cozinha.
Enquanto vovô fazia o almoço, eu disse para Isa que Rica e eu havíamos brigado e que ele não queria falar comigo, só não lhe disse o motivo, e ela me aconselhou a dar um tempo pra ele, não ficar ligando nem mandando mensagem, pois ele poderia se sentir pressionado e isso poderia ser pior, eu sabia que ela tinha razão, mas… Ah, queria tanto poder falar com ele, saber o que Rica está sentindo, o que ele está pensando… d***a, por que 64 anos tinham que nos separar? Isso é tão injusto.
Vovô, Isa, Sebas e eu estávamos almoçando. Silêncio no ar. Sebas e eu no maior baixa astral. Isa e vovô também não diziam nada, porém, às vezes eu notava uma troca de olhares entre os dois, como se quisessem dizer algo, mas ninguém falava uma palavra sequer, o que já estava me deixando agoniada.
- Querem dizer algo? - Perguntei.
- Na verdade, sim. - Falou vovô. - Bom, eu sei que é tudo muito recente, mas Isa e eu… - Pegou na mão da loura. - Nós vamos nos casar.
- Quê? - Foi a primeira vez que meu irmão falou durante o almoço.
- Como é? - Perguntei. - Não, vocês não podem se casar.
- E por que não? - Perguntou Isa meio confusa.