Santiago Del Rei
Assim que ela deixou a sala, o silêncio foi preenchido pelo som abafado da porta se fechando atrás de si. O perfume dela ainda pairava no ar, doce e perigoso como uma promessa. Senti o olhar de Diego queimando sobre mim — malicioso, invasivo, típico dele. Já sabia o que vinha a seguir.
— Sempre tive uma queda por deusas gregas, mas agora... agora isso parece bem mais acessível — disse ele, se jogando no sofá à minha frente com aquele sorriso cínico que eu odiava.
Eu mantinha os olhos fixos na tela do computador, buscando rastros digitais de Alejandro, mas bastou aquela frase para meu maxilar travar. Conhecia Diego há anos. Sabia o que se passava naquela mente podre — imagens torpes, pensamentos profanos... e agora todos voltados para ela.
— Nem ouse — murmurei, a voz baixa, mas carregada de ameaça.
Ele soltou uma risada, debochada.
— Fala sério, Santos. Não me diga que você também não ficou tentado? Aquela bundå... porrä, é coisa de outro mundo. Deve ser pecado o jeito que ela anda.
Meus dedos pararam sobre o teclado. Lentamente, levantei o olhar para ele. Estava sorrindo como um i****a, achando que aquilo era só mais uma conversa banal entre amigos. Mas aquela mulher... ela não era apenas uma prisioneira. E também não era só uma hóspede. Ela era um problema. Um enigma. Um incêndio prestes a fugir do controle.
— Diego — minha voz saiu fria como aço —, ou você cala essa boca e me ajuda a encontrar aquele desgraçado, ou juro que coloco uma bala entre suas pernas só pra garantir que você nunca mais pense com elas.
O sorriso dele morreu no mesmo instante. Seus olhos me estudaram por um segundo, e vi a compreensão surgir. Ele conhecia meus limites. E sabia que eles eram voláteis, curtos, às vezes inexistentes.
— Ok — disse ele, se endireitando na cadeira. — Vamos encontrar o tal fantasma...
Voltei minha atenção à tela. Mas mesmo diante de tantos códigos, IPs mascarados e rastros de rede, minha mente insistia em voltar para ela.
A mulher de olhos hipnotizantes.
A Deusa que, sem saber, estava brincando com o d***o.
(...)
Passei o dia inteiro trancado no escritório, afundado em papeladas, códigos e atualizações da rede, ao lado de Diego. No fim da tarde, Matias e Arturo chegaram, trazendo consigo o cheiro da estrada e da Itália. Tinham ido buscar uma carga importante — e, felizmente, chegaram sem problemas.
— Então quer dizer que temos uma hóspede? — Arturo lançou, m*l Diego teve tempo de abrir a boca.
— E que hóspede! — Diego completou, com um sorriso sujo no rosto.
Ignorei os comentários. Ambos eram previsíveis.
Diego e Arturo eram dois lados da mesma moeda. Um loiro claro, de olhos verdes e sorrisos fáceis. O outro, um homem n***o retinto, com tranças bem cuidadas e olhos azuis intensos que contrastavam com sua pele. Fisicamente diferentes, mas mentalmente... duas versões do mesmo devasso impulsivo.
Matias, por outro lado, era o mais próximo de mim. Silencioso, direto, sem paciência pra merdä nenhuma. O tipo de homem que já viu o pior do mundo e agora só queria manter tudo sob controle.
— Vocês são dois idiotäs — Matias cortou, com o tom de voz carregado de desprezo. — Parecem adolescentes batendo punhetä. Por acaso não transäm? Vivem em estado de celibato?
Segurei o riso, desviando o olhar dos relatórios só pra observar a expressão ultrajada dos dois. Arturo ergueu as mãos como se tivesse sido insultado.
— Minha vida sexuäl está em seu auge, Matias. Obrigado pela preocupação — retrucou ele, sem perder a pose. — Acredito que a de Diego também esteja. Agora você e Santos... vocês sim parecem precisando de uma fodä urgente. Vivem de cara fechada.
Preferi não responder. Se Arturo soubesse que o problema definitivamente não era falta de sexö... provavelmente teria outro colapso. Apenas soltei um riso rouco e neguei com a cabeça.
Comecei a guardar os papéis e me levantei da cadeira. O cansaço me arrastava, não apenas físico, mas mental. Eu já estava no limite.
— Amanhã a gente termina isso — informei, olhando o relógio. Quase dez da noite. Mais do que o suficiente por hoje.
Os três assentiram, e logo deixamos o escritório juntos.
— E onde está a tal hóspede? — Arturo perguntou, como se a curiosidade o consumisse.
— Não é da sua conta.
Ele ergueu as mãos em rendição, rindo como se tivesse ganhado alguma coisa só com a minha reação.
Depois de uma breve despedida, os três foram embora. Subi as escadas sozinho, o silêncio da casa caindo ao meu redor como um manto. Ao passar pelo corredor, algo me fez parar diante do quarto dela. Não pensei duas vezes. Bati uma vez e girei a maçaneta.
Ela estava no chão, o corpo em uma posição de alongamento que beirava o impossível. Vestia uma legging escura e um top justo, que moldavam cada curva como uma segunda pele. O cabelo preso em um coque frouxo deixava alguns fios soltos, emoldurando o rosto que parecia concentrado, calmo... perigoso.
— O que está fazendo? — minha voz saiu mais grave do que o necessário.
— Ioga — respondeu, ainda com os olhos fechados, sem se mover.
Arqueei uma sobrancelha, observando a posição absurdamente flexível que ela mantinha. Um pensamento indecente cruzou minha mente antes que eu pudesse impedir.
— Isso... não dói?
Ela soltou o ar devagar, então se sentou no chão com uma expressão exausta.
— Pra caralhö.
Tive que rir. A sinceridade dela me pegava desprevenido toda vez.
— Vejo que já trouxeram suas roupas.
— Sim. E falei com meus pais e meu trabalho. Me deram um mês de licença. — Disse aquilo como se fosse uma cláusula de liberdade.
— Ótimo — respondi, seco. — Espero que nesse tempo a gente encontre o seu namorado. Caso contrário... é melhor arrumar outro emprego.
Ela me olhou como se eu tivesse acabado de insultar a própria dignidade. Ótimo. Que ela entenda logo que os limites aqui são meus. E que ela só vai sair quando eu decidir.
O silêncio se prolongou por alguns segundos.
— Precisa de alguma coisa? — perguntei, quebrando o clima denso.
Afrodite se levantou com a calma de uma predadora. E eu... cometi o erro de observar. Cada centímetro daquele corpo parecia desenhado para despertar o pior em mim. Ou o melhor. Dependia da perspectiva.
— Talvez... — disse com a voz mais doce do que antes, como veneno misturado ao mel.
Havia um brilho nos olhos dela. Um desafio contido. Um sorriso pequeno, mas carregado de intenções. Meu corpo reagiu antes da minha razão. Comecei a me aproximar. E ela não recuou. Mas seus ombros tensos não escondiam o que a boca insistia em negar.
— Não brinque com fogo, Afrodite — murmurei, parando a poucos centímetros dela. A tensão entre nós era palpável, densa como fumaça. — Você não faz ideia do que está fazendo.
Ela se inclinou levemente, os olhos fixos nos meus.
— Não tenho medo de fogo.
E foi nesse instante que percebi: ou ela era a mulher mais corajosa que já conheci...
...ou a mais suicida.