Capítulo 04 - Santos.

1621 Words
Afrodite Bueno Se alguém dissesse que eu dormiria tranquilamente após ser sequestrada por um mafioso, eu riria na cara da pessoa. Mas, adivinhem? Foi exatamente o que aconteceu. Mesmo cercada por homens armados, em um lugar que eu não fazia a menor ideia de onde ficava, e com a imagem de um mafioso frio e perigoso estampada na minha memória, eu apaguei. Como se estivesse em casa, debaixo do meu edredom, ouvindo o ronco da minha gata. Talvez meu cérebro tenha entrado em modo de defesa, desligando completamente da realidade insana na qual fui jogada. Talvez eu estivesse tão exausta, tão saturada emocionalmente, que dormir era minha única opção viável. A verdade é que, assim que ele saiu da sala — o homem dos olhos intensos e da voz carregada de comando — um de seus capangas entrou em silêncio. Sem me dirigir uma palavra, ele colocou de volta a maldita venda vermelha sobre meus olhos e me guiou por um caminho desconhecido. Meus passos ecoavam no chão firme, e a tensão em meu corpo era tanta que m*l sentia minhas pernas. Depois de alguns minutos de caminhada silenciosa, o som de uma porta se abrindo ecoou e, em seguida, senti o toque frio do ar-condicionado me envolver. A venda foi retirada, revelando um quarto surpreendentemente moderno. Amplo, decorado com tons neutros, um tapete macio sob os pés e uma cama grande que parecia ter saído de um catálogo de luxo. Ao lado, uma porta aberta deixava à mostra um banheiro tão elegante quanto o quarto. Suspirei aliviada. Não era uma cela. Era quase uma suíte de hotel cinco estrelas — se ignorássemos o fato de que eu estava, tecnicamente, presa. Corri até o banheiro, e só ali percebi o quanto meu corpo tremia. A adrenalina cobrava seu preço. E, para minha própria surpresa, mesmo com toda a tensão, não consegui evitar um pensamento desconfortável: apesar da raiva de Alejandro, eu não queria que ele morresse. Talvez eu até quisesse um pouco — por tudo que me fez passar — mas se ele morresse pelas minhas mãos, ou melhor, pelas consequências da minha existência, aquilo me perseguiria. Fechei a porta do banheiro — como se isso fosse me proteger de alguma coisa — e tomei um banho rápido, tentando lavar não só o suor e o medo, mas também a sensação de impotência. Vesti novamente as mesmas roupas e voltei ao quarto, me jogando na cama como se meu corpo tivesse desligado. E dormi. Apaguei como uma pedra. Acordei algumas horas depois com a mente um pouco mais clara, ainda que o ambiente me lembrasse constantemente de que estava longe de casa — e da liberdade. O quarto era silencioso, sem janelas comuns. Apenas pequenas frestas no alto das paredes permitiam a entrada de luz externa, o que me impedia de ver onde eu estava exatamente. Nem mesmo uma ideia de localização. Nenhum relógio, nenhum sinal de celular. E tudo ali parecia planejado para manter um prisioneiro confortável… e impotente. Minha mente já começava a trabalhar em possíveis rotas de fuga. Não era como se eu pudesse apenas fugir dali — não viva, pelo menos. Mas ainda assim, meu instinto de sobrevivência gritava para estar sempre um passo à frente. Depois de um bom tempo encarando as paredes, a maçaneta girou. A porta foi destrancada e se abriu com um leve rangido. Um homem entrou. Bonito. Muito bonito, na verdade. Cabelos loiros, olhos verdes, sorriso cínico. Parecia o tipo de cara que você sabe que vai te meter em encrenca, mas ainda assim não resiste. Totalmente diferente do moreno da noite anterior, o que me olhava como se pudesse ver através da minha alma. Esse aqui parecia mais... divertido. — Buenos días, princesa — disse ele com um tom leve, descontraído. — Espero que tenha dormido bem. Inclinei a cabeça, desconfiada. — Meu chefe quer ver você — continuou. — Mas antes... — ele ergueu algo. A venda vermelha. Revirei os olhos. — Sério isso? — Ordens — respondeu com um sorriso preguiçoso. — Vamos lá, não é como se você tivesse escolha. Me deixou colocar a venda e então segurou meu braço com firmeza, porém sem agressividade. Caminhamos por mais corredores, e eu me esforcei para decorar os sons, os cheiros, qualquer pista que pudesse ser útil depois. Finalmente, outra porta foi destrancada, a venda retirada, e lá estava ele. O moreno da noite passada. Mesmo sentado atrás de uma mesa, ele dominava o espaço. Seus olhos escuros estavam fixos em mim com uma intensidade que me fez estremecer por dentro. Um olhar de predador — frio, calculista — e, ao mesmo tempo, perigosamente curioso. — Não encontramos o seu namorado — disse ele sem rodeios. Engoli a irritação que subiu pela garganta. Aquele maldito não era mais meu namorado. — Uma pena para você — retruquei, cruzando os braços. — Posso ir embora agora? Ele não sorriu. Nem piscou. — Você só sai daqui quando eu quiser. A forma como ele disse aquilo me arrepiou. — Posso saber por quê? — Enquanto não o encontrarmos o seu namorado, você continua aqui. — Já disse que ele não é meu namorado! — rebati, a voz saindo mais alta do que deveria. Ele se levantou lentamente. Cada passo dele era um lembrete de que não se tratava de um homem comum. Era alguém acostumado a dar ordens. E ser obedecido. — Pouco me importa o que vocês são. Você o conhece. E vai me ajudar. — E se eu não quiser? Me aproximei da mesa, desafiando-o com o olhar. Ele se aproximou também. O suficiente para sentir seu perfume amadeirado. O suficiente para ver o brilho cortante nos olhos dele. — Seria um desperdício matar uma mulher tão bonita. Seu elogio me pegou desprevenida. Um elogio em meio à ameaça. Um veneno que descia doce. Maldito. Ele percebeu o impacto, e sorriu, vitorioso. Aquele maldito sorriso de canto. O mesmo sorriso que deve ter feito várias mulheres se esquecerem do próprio nome. Respirei fundo, recuperando a postura. — Ok... mas com uma condição. Todos na sala me encararam como se eu fosse maluca. Talvez eu fosse mesmo. Mas ele parecia interessado. — Quero minhas roupas. Não sei quanto tempo vou ficar aqui, mas não pretendo passar os próximos dias com o mesmo jeans. Também preciso avisar minha família que estou viva. E meu trabalho. Não quero ser demitida por causa de um i****a que se meteu com você. Ele me ouviu com atenção. Realmente ouviu. O que, vindo de um cara como ele, era quase um elogio. — Ok — respondeu, cruzando os braços. — Também tenho minhas condições. Afastei um pouco o olhar. Ele ficava ainda mais perigoso quando se recostava na cadeira daquele jeito. Descontraído. No controle. — Preciso saber quem é você. — Afrodite Bueno — falei, direta. Silêncio. Então ele riu. E o loiro ao lado também. — Isso explica muita coisa — disse o loiro, piscando para mim. — Agora entendo de onde vem tanta beleza. Sorri, convencida. Porque, apesar de tudo, eu continuava sendo eu. E se era para jogar esse jogo, eu jogaria do meu jeito. — Santiago Del Rei — disse ele, com um leve sorriso nos lábios. — Mas para muitos… Santos. Estendeu a mão, esperando que eu apertasse. E eu soube. Soube naquele instante quem ele era. O nome soou como uma sentença. Santiago Del Rei. O apelido Santos, quase irônico, considerando sua fama. Ele não era apenas um mafioso qualquer — ele era o nome mais temido na Espanha. Um fantasma que comandava territórios inteiros com mãos sujas de sangue e inteligência afiada. c***l. Implacável. Um estrategista nascido para dominar o submundo. E eu estava sentada bem na frente dele, respirando o mesmo ar. Alejandro estava morto. Se ainda respirava, era por sorte. Mas por quanto tempo? Apertei sua mão, firme, porém silenciosa. Mostrar medo agora seria cavar minha própria cova. — Notei suas habilidades com tecnologia — comentou ele, em tom leve, mas o subtexto era cortante como lâmina. Estava me testando. — Sou engenheira de computação. Trabalho desenvolvendo softwares e outras tecnologias. — respondi, com a voz calma e controlada. — Então sim, sei mexer em muita coisa. Ele assentiu, com um brilho curioso no olhar. — E também trabalha como hacker? Neguei com a cabeça, sem hesitar. Ninguém sabia. E se dependesse de mim, ninguém saberia. — Alejandro sim — acrescentei, com um leve encolher de ombros. — Aprendi algumas coisas com ele, por osmose. Foi quando o loiro ao lado de Santos se inclinou levemente, interessado. — Alejandro? Quem seria? Olhei direto nos olhos dele, sem recuar. — Alejandro Garcia. O homem que vocês estão procurando. O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor. Santos e o loiro trocaram um olhar rápido, um daqueles que diz tudo sem dizer nada. Eles não sabiam o nome. Até agora. E eu… talvez tivesse acabado de assinar a sentença de morte de Alejandro. Santos voltou a me encarar, mais sério. Sua presença era sufocante, como se o ar ao redor tivesse ficado mais pesado. — Agora que estamos devidamente apresentados, Afrodite — disse ele, levantando-se com calma — espero que não esteja tentando me enganar. Nem fazendo joguinhos. Deu a volta na mesa devagar, os olhos fixos em mim como um predador que estuda sua presa. — Porque, se estiver mentindo... — ele parou à minha frente, tão próximo que pude sentir seu perfume amadeirado e amargo. — Você não sairá viva desta casa. O tom era frio, seco, assustadoramente real. Não era uma ameaça vazia. Era uma promessa. Mas eu, mesmo com o coração batendo acelerado, ergui o queixo e sustentei seu olhar. — Os deuses não mentem..
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