Capítulo 03 - Fantasma.

1160 Words
Santiago Del Rei Os olhos dela estavam cobertos de ódio, mas ainda assim, por algum motivo estranho, hipnotizavam. Havia uma tensão no ar que me fazia pensar em situações muito diferentes daquela... e todas envolviam ela gemendo meu nome, e não me desafiando com aquele olhar flamejante. E para piorar, a mulher tinha que estar usando aquele maldito moletom. O mesmo que eu vinha rastreando há dias. — Interessante — murmurei, mantendo a postura firme, a voz controlada, mesmo que meu sangue estivesse fervendo com curiosidade — Você está usando um moletom que estava sendo rastreado por mim... Ela não se mexeu. Não reagiu. Nem uma sobrancelha arqueada. A mulher era uma muralha. Sabia esconder as emoções como uma profissional. — Então me diga — continuei, com um leve deboche na voz — o que está fazendo com esse moletom? Ou melhor... onde está o dono dele? — Transändo com uma loira em algum canto de Madrid — respondeu sem hesitar, com veneno na voz e brasas nos olhos. A resposta me pegou desprevenido. Esperava negação, talvez uma desculpa esfarrapada. Não uma confissão cheia de rancor. — Esse moletom é do meu ex — ela completou, mordaz — E por uma ironia maldita do destino, eu o vesti na pressa... atrapalhando o seu sequestro. Ela disse como se fosse culpa minha ela estar no lugar errado, na hora errada, com a roupa errada. Eu sorri de canto. Não porque achei engraçado. Mas porque gostei da ousadia. A mulher era atrevida, inteligente... e provocante pra c*****o. — E por acaso você saberia o paradeiro exato desse namorado sortudo? — questionei, me aproximando um passo, apenas para testar os limites dela. — Ex — ela corrigiu com ênfase, os olhos cravados nos meus — Talvez... Mas o que eu ganho com isso? Ah... esperta. Gosto disso. — Talvez... sair viva daqui — respondi com calma, deixando a ameaça pairar no ar, mesmo que eu já tivesse decidido que não desperdiçaria uma mulher como ela. Ainda assim, queria ver até onde ela iria com esse joguinho. Ela me encarou por alguns segundos. Depois respirou fundo, como quem tomava uma decisão importante. — Preciso de um laptop... e de um copo de uísque, cheio. — disse, como se pedisse as armas para uma missão secreta. Ou para domar o inferno. Sorri. Essa mulher era, no mínimo, interessante. Sem tirar os olhos dela, virei o rosto e assobiei para um dos meus homens. — Tragam o que ela pediu — ordenei. O capanga saiu, e minutos depois, voltou com um copo generoso de uísque e o notebook. — Soltem ela — falei, firme. Os homens hesitaram por um segundo, mas não ousaram questionar. Assim que as cordas foram desfeitas, ela se levantou com uma calma quase teatral. Pegou o copo de uísque com uma elegância natural e, sem hesitar, virou o conteúdo de uma vez só. O líquido desceu por sua garganta como se fosse água, e por um segundo, meus homens e eu trocamos olhares — perplexos. Nenhuma careta, nenhum estremecimento. Era como se ela estivesse apenas se aquecendo para algo maior. Em seguida, sentou-se à frente do notebook e começou a digitar com uma precisão assustadora. Me aproximei, ficando ao seu lado, curioso. Os dedos dela dançavam pelas teclas em um ritmo tão rápido que parecia impossível acompanhar. Ela era ágil, calculista... uma máquina. Mas ao mesmo tempo, havia uma graça no que fazia. Uma sensualidade involuntária até nos comandos mais frios. E então eu olhei para ela — de verdade. Aqueles olhos azuis. Intensos. Profundos. Hipnotizantes. Não eram só bonitos. Eram perigosos. Era o tipo de olhar que fazia você se esquecer de onde estava, do que estava fazendo. Um olhar que parecia atravessar sua pele, sua carne, e se alojar direto na sua alma. Era como se ela tivesse o poder de comandar o mundo com um simples piscar de olhos. Um arrepio percorreu minha nuca. De repente, a tela do notebook brilhou com um ponto marcado em vermelho. — Essa é a localização onde ele provavelmente está — ela disse, sem tirar os olhos do que acabara de fazer — É o máximo que eu consigo rastrear sem levantar bandeiras. Assenti em silêncio e entreguei o notebook a um dos meus homens. Ainda estava sob o efeito do seu olhar. Quase me esqueci de responder. — Posso ir embora agora? — ela perguntou, o tom impaciente, talvez até um pouco provocativo. — Não. Ela me encarou, incrédula. — O quê? Por quê? — Sua voz era uma mistura de indignação e fúria contida. — Eu ajudei você. E ajudou mesmo. Mas confiar? Confiar era outra história. — Preciso comprovar que ele está lá. Ou que essa mulher que você mencionou existe — disse, firme, cruzando os braços. — Até lá, você fica aqui. Sob meu domínio. Os olhos dela se tornaram uma arma. Um raio azul disparado diretamente contra mim. Não havia medo neles. Só raiva. Orgulho ferido. E algo mais... algo que parecia me prender feito corrente. Eu já havia enfrentado assassinos, soldados, chefes de cartel. Mas aquele olhar? Aquilo era outra guerra. Saímos da sala e meu olhar encontrou um dos homens na porta. — Levem ela para um dos quartos da mansão. Quero comida e água à disposição, mas mantenham os olhos bem abertos. Cada movimento dela. Entendido? Ele assentiu, pronto para obedecer. — E mais uma coisa... — acrescentei, sem desviar o olhar — Descubram quem diabos ela é. Aquela mulher não é só um rostinho bonito. Ela não é qualquer uma. Ele se afastou apressado, e eu segui pelo corredor até me deparar com Diego, encostado na parede como se já me esperasse. O sorriso dele era tudo, menos inocente. — Então, temos uma hóspede nova e gata na mansão? — provocou com aquele tom debochado de sempre. — Isso não é da sua conta — cortei seco, sem nem diminuir o passo. Mas ele não se deu por vencido. — Ah, qual é, Santos... Se você não vai se divertir, deixa que eu mostro o caminho pra ela. Sou um ótimo anfitrião. Parei. Virei devagar, como um predador prestes a dar o bote. O olhar que lancei faria qualquer um tremer. — Às vezes eu realmente preciso me lembrar de por que ainda não te matei — rosnei. — Não testa a porrä da minha paciência. Diego ergueu as mãos em rendição, mas o sorriso irônico não saiu do rosto. — Relaxa, chefinho. Você não faria isso. Sou um dos poucos que ainda aguenta seu mau humor crônico. Fora sua adorável família, claro. Revirei os olhos, mas segui em frente. Ele veio logo atrás. — Aonde vamos agora? — perguntou, como se tudo estivesse normal. — Atrás do nosso fantasma — respondi, sem olhar para ele. Diego sorriu, animado como se fosse para uma festa. — Até que enfim. Já tava achando que ia morrer de tédio nessa mansão cheia de armas e segredos.
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