Flávia Ribeiro
Logo após sair do apartamento de Renata...
Quando cheguei em casa, fiquei tão confusa e triste. Não consegui esquecer o olhar de decepção que Renata me deu. O peso das suas palavras ainda martelavam em minha mente. Mesmo que tivesse lutado contra, não tinha mais como fingir que não sentia nada por ela. O seu beijo, o seu toque, cada gemido seu, tudo nela me atraía. E quanto mais descobria sobre a sua vida, mais curiosa ficava.
Antes de dormir, pensei em mandar uma mensagem para ela. Já fazia tanto tempo que não abria a nossa conversa no w******p. Ela me passou o seu contato no dia em que nos conhecemos. Lembro de me sentir conectada a ela de uma forma tão natural. Eu nunca tinha falado sobre a minha infância com desconhecidos. Demorava muito até confiar em alguém, mas com Renata, na nossa primeira conversa, contei muitos detalhes da minha vida. Era tão fácil conversar com ela naquela época. Agora, todas as vezes que conversávamos, eu falava coisas das quais me arrependia. Deixei meu celular de lado e me forcei a dormir. Era melhor assim. Renata não merecia entrar na confusão que era a minha cabeça. Eu sabia que ela era muito mais do que eu merecia.
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No dia seguinte, Soph veio me visitar. Ainda não tínhamos ficado a sós, desde que voltei de viagem. Minha amiga tomou café da manhã comigo e depois caminhamos até uma parte do quintal em que mandei instalar dois balanços. Os trabalhadores já tinham começado as mudanças internas e o barulho não era agradável para receber visitas. Aqui, podíamos conversar tranquilamente.
— A casa está ficando linda, muita coisa mudou desde que estive aqui.
— Sim, ajeitei o jardim, colocamos novas pedras na estradinha para a entrada dos carros, plantei grama em alguns lugares e pintamos toda a parte externa. Agora vamos começar as mudança dentro de casa.
— Sim, está ficando maravilhoso. Que bom que está de volta, amiga. Senti tanto a sua falta. — Soph me abraçou.
— Também senti. Temos muito o que conversar.
— Sim, você passou um ano fora. Quais são as novidades?
— Nossa Soph, conheci tantos lugares e também pessoas muito simpáticas. Foi uma experiência maravilhosa.
— Imagino, amiga. Fico feliz demais por você. Conseguiu realizar o seu sonho. E agora, tá crescendo na sua profissão e investindo na sua casa. Você sabe que você é como uma irmã para mim. Te acompanhei em toda a sua trajetória profissional e ver que você tem sucesso, me deixa muito orgulhosa.
— Ah, obrigada Soph. — Abracei a minha melhor amiga. — Sem você, eu nunca teria conseguido nada disso.
— Bobagem, eu só te ofereci um emprego. Você fez tudo isso sozinha, amiga. Sua dedicação e comprometimento são admiráveis.
— Obrigada mesmo. Estava precisando me animar um pouco e as suas palavras sempre me incentivam.
— Está tudo bem? Tô te achando meio tristonha. Aconteceu alguma coisa, Fla?
— Só estou com muita coisa na cabeça. Tem só algumas semanas que estou de volta e já aconteceu tanta coisa na minha vida.
— Talvez seja bom desabafar um pouco. Você sabe que pode confiar em mim, amiga.
— Eu sei, me desculpa, sei que estou um pouco distante.
— Não quero te pressionar, você sabe. Só quero fazer parte da sua vida, somos família.
— Você faz parte da minha vida, Soph. Não é isso. Só, não sei por onde começar a falar.
— Então vamos fazer assim, eu pergunto e você responde. Pode ser?
— Claro, pode me perguntar o que quiser.
— Sei que você não gosta de falar sobre esse assunto, mas você já decidiu o que vai fazer em relação a sua mãe?
— Ainda estou decidindo. Mas li todo o relatório da investigação. Não sei se o Rick te contou.
— Ele não me contou. Você sabe que o Rick pode até ser fofoqueiro, mas não com assuntos sérios. Ele sabe que esse tema é delicado para você. Me conta, o que tinha nesse relatório?
Contei para Soph todos os detalhes sobre os documentos da investigação. Ela ficou tão chocada quanto Henrique. Eu sabia que era muita informação para processar, eu mesma ainda estava tentando entender tudo.
— Nunca iria imaginar que essa era a verdade por trás de tudo. Sinto muito, Flávia. Sei que deve estar sendo difícil para você lidar com tanta coisa. Quero te ajudar no que precisar.
— Obrigada Soph, mas no momento, ainda não sei o que vou fazer. Estou deixando toda essa história de família biológica para depois. Não estou pronta para conhecê-los.
— Entendo. Não fique ansiosa por isso, vai no seu tempo.
— O Rick falou a mesma coisa.
— E ele está certo. Você sabe que estamos aqui para te apoiar. E quando decidir ir até a sua mãe. Se quiser, pode nos chamar. Você não precisa fazer isso sozinha.
— Obrigada, Soph. Vou pensar sobre isso. Alguma outra pergunta?
— O que está acontecendo entre você e a Renata? No ensaio, não teve como não notar que tinha uma tensão entre vocês duas. — Droga, só me faltava aquilo.
— Estamos tendo alguns desentendimentos.
— Que tipo de desentendimentos?
— Eu falei umas coisas para ela. Acho que peguei pesado demais.
— Achei que não se importasse com ela. Parecia tão decidida a afastá-la.
— É estranho, quando ela fica triste comigo, me sinto m*l.
— Você gosta dela? — Aquela pergunta me pegou de surpresa.
— Não sei. Antes tinha certeza que a odiava, mas agora... — Nem sabia o que dizer.
— O que você sente agora?
— Está tudo tão confuso. Me sinto curiosa e atraída por ela. — Confessei.
— Está tudo bem se sentir assim.
— Não posso me sentir assim.
— Porque não? Você já ficou com algumas pessoas antes. Isso nunca foi um problema..... — Soph parou de falar por alguns segundos e me olhou surpresa. — A não ser que....Ai Meu Deus! Você está apaixonada pela Renata.
— Soph!
— Você está apaixonada por ela?
— Isso não importa. Você sabe que não quero me envolver seriamente com ninguém.
— Agora estou curiosa. Porque vocês se desentenderam. O que aconteceu? — Soph ignorou totalmente o que eu falei antes.
— A gente se beijou, e depois eu falei que aquilo não significou nada. Que ela não era mais especial do que qualquer um com quem já fiquei. Eu queria afastá-la, fiquei assustada.
— Nossa, realmente foram p************s, mas não vou te julgar. Quando a Elisa disse que me amava, nós brigamos porque eu não sabia o que dizer e ainda duvidei dos sentimentos dela. Mas você vai encontrar uma maneira de resolver as coisas. Eu pensei que esse dia nunca chegaria. Você finalmente se apaixonou.
— Calma Soph, não sei porque está tão empolgada. Você nem gosta da Renata.
— Isso era no início Flávia, eu tive tempo de conhecer a Renata. Ela é uma pessoa incrível. Antes eu só estava com ciúmes da Elisa, mas depois que me permite conhecê-la, tudo ficou mais claro na minha mente. Ela é uma pessoa boa.
— Sei que quer me ajudar, mas isso não muda nada. Se eu me envolver com a Renata, vai ser diferente dos outros casos que tive. Ela quer muito mais do que só algumas noites e eu vou acabar machucando ela, ainda mais.
— Mas você tem sentimentos por ela. Pelos outros você não tinha.
— Isso só piora tudo.
— Não seja tão teimosa, Flávia. Por que essa resistência toda?
— Por favor Soph, podemos parar de falar sobre isso. Não quero discutir com você.
— Tudo bem. Só quero que saiba que você merece receber amor. — Fiz menção de interromper o raciocínio de Soph, mas ela não deixou e continuou a falar. — Eu sei que você tem mania de se inferiorizar, mas posso te garantir que você é uma das mulheres mais fortes e determinadas que conheço, qualquer pessoa teria sorte de ficar com você. Sei que você tem traumas por causa de tudo o que aconteceu na sua vida, mas nada disso foi culpa sua. E se você anda se culpando, tá na hora de pedir ajuda.
— Você está falando de terapia?
— Sim. Quando você estava indo com frequência ao psicólogo, teve uma grande melhora.
— Se eu disser que vou voltar para a terapia, você para de falar sobre a Renata? — Perguntei, vencida.
— Não é isso, Flávia. Não quero que volte a fazer o tratamento por minha causa ou por causa da Renata, só estou te dando um conselho. Qualquer pessoa precisaria de acompanhamento e ajuda se estivesse passando pelo que você está passando.
— Tá bem, prometo que vou pensar no assunto.
Fiquei aliviada quando Soph parou de insistir em falar sobre Renata. Agora ela falava sobre o casamento e como estava ansiosa para que o grande dia chegasse logo.
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Reunião com a arquiteta...
Rute era minha amiga há pouco mais de um ano, mas nossas amizade se restringia ao lado profissional. Não sabíamos muito sobre a vida particular uma da outra. Estava feliz que ela tinha aceitado cuidar do projeto da minha casa. Enquanto aguardava a sua chegada, pedi algumas bebidas para o garçom e mexi em meu telefone. Mas logo notei quando a arquiteta chegou.
O que estava acontecendo? Renata estava ao lado dela e Rute segurava em seu braço com bastante i********e. Elas eram amigas? Ou talvez fossem algo a mais. Só de pensar nessa possibilidade, cerrei os punhos.
— Flávia, desculpa fazer você esperar. — Rute me abraçou.
— Oi Rute! Que isso, acabei de chegar. Já pedi uma bebida para nós. — Não conseguia parar de encarar a advogada. Ela estava tão linda em suas roupas de escritório. Sei que só fazia uma semana que tinha lhe visto, mas pra mim, era como se fosse uma eternidade. Só não entendia o que ela estava fazendo aqui?
— Ótimo, vamos sentar, que o seu projeto ficou maravilhoso. Estou doida para lhe mostrar os detalhes finais. — Tentei prestar atenção no que Rute falava e disfarçar a minha surpresa e nervosismo por causa de Renata, mas meu corpo não me obedecia. Estava tão curiosa ao seu respeito. — Ai meu Deus, desculpe. Flávia, está é a Renata. Ela está me acompanhando hoje. — O que significava aquilo? Ela era a sua acompanhante, ok. Mas porque tinha que estar aqui? As duas só podiam ser muito íntimas. Me senti incomoda. — E Renata, esta é a Flávia, minha amiga e cliente.
— Já nos conhecemos, Rute. — Renata falou séria. Ela m*l me olhou e sorriu, se é que poderia considerar aquilo um sorriso. Me senti péssima pelas palavras que disse para ela. Não suportava a tristeza que via em seus olhos ao me encarar.
— Sério? Que mundo pequeno. Como vocês se conheceram?
— Temos amigos em comum. Mas vamos deixar essa conversa para outro momento. Não quero tomar o tempo de vocês. Vou ficar em outra mesa e esperar a sua reunião terminar.
Rute levantou rapidamente e foi até a advogada. As duas estavam perto demais. Conversavam sobre algo que eu não era capaz de ouvir. A arquiteta estava bem à vontade para tocar na Renata. Aquilo foi um beijou no rosto? Qual a necessidade? se estão tão a fim de se pegar, deviam ir para outro lugar. Revirei os olhos, mas logo disfarcei quando Rute voltou para a mesa. Ela estava sorridente. Renata tinha sumido da minha vista. Fiquei tentada a ir atrás dela.
— Vamos começar a nossa reunião, já perdemos tempo demais. — Rute disse. Ela sorria satisfeita.
— Claro.
Rute me mostrou todos os detalhes que ainda faltavam na obra. Tudo ficou da maneira que eu queria. Fiz um esforço gigantesco para me concentrar no que a arquiteta falava, mas a imagem de Renata ainda perturbava a minha mente. A semana que passou foi um inferno. Depois da nossa discussão e da conversa que tive com Soph, pensei muito. E cheguei a conclusão que estava enlouquecendo.
— Tem alguma coisa que você queira mudar?
— Flávia?
— Sim?
— Tá tudo bem? Você está meio aérea.
— Desculpa, Rute. O que você perguntou?
— Se tem alguma coisa que deseja mudar no projeto.
— Não, está tudo ótimo.
— Não quero ser indiscreta, mas você tá assim por causa da minha cunhada?
— Sua cunhada?
— A Renata. — Elas eram cunhadas. O quanto Rute sabia sobre mim?
— A Renata te falou alguma coisa sobre mim? — Rute sorriu.
— Só notei que você ficou desconfortável com a presença dela.
— Não é nada, só fiquei surpresa em vê-la aqui.
— É que depois daqui, vamos para um jantar em família e a Renata vai me dar uma carona. — Porque ela estava dirigindo com o braço machucado? O médico foi bem claro quando disse que ela tinha que manter repouso.
— Ah sim, então vamos finalizar a reunião. Assim vocês não se atrasam. Estou satisfeita com o projeto.
— Que bom que gostou.
— Eu adorei, obrigada Rute.
— Estava pensando. Já somos amigas há bastante tempo, mas você ainda não conhece o meu marido. Já está na hora de esquecermos as formalidades. Você não acha?
— Sim, você tem razão.
— Depois daqui, você vai ter algum compromisso?
— Não.
— E se você for jantar conosco? Já aproveito para te apresentar o meu marido e a família dele. — A sua proposta me pegou de surpresa. Mas não pensei muito antes de responder.
— Pode ser. — O que eu estava fazendo?
— Sério? Perfeito então, vou pedir a conta e vamos para a casa dos meus sogros.
Quando ela disse aquilo, minha ficha caiu. Estava indo conhecer a família da Renata.
— Espera, você quer fazer isso hoje?
— Claro, vamos aproveitar que você está livre.
Precisava me manter calma. Que Droga! Porque aceitei aquele convite? A quem estava querendo enganar. Eu sabia o porquê... Estava preocupada com a advogada. Desde o momento em que ela saiu, quis ir atrás dela. Não sei porque, mas queria ficar perto dela. Só que agora, ela estava p**a comigo e eu aceitei ir em um jantar na casa da família dela. Tinha como as coisas ficarem pior?