O peso

869 Words
Dara narrando Acordo com o peso esmagador da realidade. O quarto permanece silencioso, as paredes parecem mais fechadas do que nunca, e Lion está ausente — mas não de corpo, apenas de alma. O homem que conheci, ou que pensei conhecer, simplesmente nunca existiu. Eu deveria saber. Ele é perigoso. Traficante. Intenso. O que eu esperava? Contos de fadas não nascem no submundo. Sinto as marcas das lágrimas secas no rosto. Meu coração, agora, é uma pedra fria, imutável. Por que estou vivendo isso? Por que Deus permitiu esse caminho torto? Eu só queria minha liberdade de volta, meu sorriso, minha vida. O sono serviu como refúcio, mas o amanhecer trouxe a dor de volta — crua, insistente. Dante acredita que me ama, mas não entende que amor verdadeiro não aprisiona. Isso aqui não é amor, é possessão. É cárcere disfarçado de paixão. Preciso encontrar uma saída. Preciso ser forte. Eu não posso mais viver assim. Mas quem me garante que esse pesadelo vai acabar? Que eu vou sair inteira? Me assusto quando a porta se abre, mas permaneço imóvel na cama, olhos fixos em nada, viva por fora e morta por dentro. Lion: Bom dia. Como isso n******e ser um pesadelo? Meu Deus, me tira daqui. Lion: Vey, já tô perdendo a paciência. Por que tu não entende que isso aqui é o melhor pra nós? — Não existe "nós"! Eu te odeio, Dante! Eu não quero ficar com você, não quero ficar nessa casa! Ele permanece sério, sem demonstrar qualquer abalo. O olhar dele é de pedra. Inquebrável. Lion: Mas vai ficar, p***a! E quanto antes tu aceitar, melhor. Cada palavra dele é uma flechada cravada no meu peito. De repente, ouço patinhas correndo do lado de fora da porta. Ele a abre e vejo meu Nico disparando na minha direção. Meu coração bate mais forte. Pela primeira vez em dias, um lampejo de luz me invade. — Meu amorzinho! Meu amor! Que saudade... mamãe tava morrendo de saudades! Sorrio entre lágrimas. Nico me lambe o rosto, gira ao meu redor, feliz por me ver. Um alívio temporário, mas real. Um respiro dentro do inferno. Lion: Olha aí, já te fiz sorrir. — Me fez sorrir porque sequestrou meu cachorro também?! — falo com ironia, sem disfarçar o rancor. Lion: Se eu trouxe pra tu, não é sequestro, né doidona? — Tu se importa? Tu não tá nem aí, Dante. Tu só pensa em tu. Lion: Tô pensando na gente. — Não existe "a gente"! Sacou? Lion: Para, Dara. Eu tô fazendo isso porque te amo. Ele se aproxima. Eu seco as lágrimas rápido, tentando manter minha compostura. Ele senta na cama, ao meu lado. O ar entre nós pesa. — E meu trabalho? Minha família? Como você vai fazer? Eu tinha que voltar hoje e não fui, não mandei notícias, e aí? Lion: Não seja por isso. Vou mandar um e-mail pelo teu celular dizendo que tu precisa de umas férias. Depois tu mesma pede demissão. — Você é um monstro mesmo. Lion: Já chega, Dara. Já deu. Para com isso. Aceita logo. Tua vida é aqui agora. — Não é assim que funciona, Dante! Você n******e obrigar ninguém a ficar com você. Lion: Eu posso tudo! — Te odeio! Sai daqui. SAI DAQUI!! Grito, meu peito em chamas. Ele levanta, fuzila com o olhar e sai, batendo a porta com força. O estrondo ecoa dentro de mim. Lion narrando Saio do quarto cuspindo ódio. Cada passo é uma explosão. Destruo tudo que vejo pela frente. A mesinha de canto voa contra a parede. Um vaso de vidro se espatifa no chão. O quadro dela que estava no corredor... quebro com as mãos. Dara. Maldita Dara. Minha perdição. Ela tá acabando comigo. Por que ela não vê que eu só quero ela comigo? Por que insiste em fugir de mim? Por que me faz perder o controle? — Inferno! Geovana: Que m***a é essa, Dante?! Enlouqueceu de vez? Lion: Sai daqui, Geovana! Dá um tempo! Geovana: Você precisa se acalmar. As coisas não se resolvem assim, quebrando tudo. Gritando. — A Dara me odeia! Geovana: Não é pra menos! Você quer manter ela presa aqui contra a v*****e. Quem é que vai amar um homem assim? — Já foi! Agora não tem mais volta. Geovana: Claro que tem! Deixa ela ir, Dante. Se você ama mesmo ela, deixa ela ir. Amor não se força. — Não. Ela não vai embora. Geovana: E o que você vai fazer? Prender ela pro resto da vida? Até quando você acha que vai manter isso sem consequências? — Não sei. Só sei que sem ela eu sou um lixo. Eu preciso dela. Geovana: Você precisa de ajuda. Isso que você sente não é amor. É obsessão. — Sai daqui, Geovana. Agora. Ela me encara com decepção, como se enxergasse um monstro onde antes via um irmão. Mas não diz mais nada. Apenas vira as costas e vai. Fico ali, no meio dos cacos, respirando fundo, com as mãos sangrando e o coração ainda mais. Eu sei que estou fazendo tudo errado. Mas é a única forma que eu conheço. Dara vai me amar. Nem que seja à força.
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