Capítulo 8

1176 Words
Marco recuperou o controle com uma velocidade quase inumana. A máscara de frieza voltou ao rosto. Implacável. Como se o corpo dele não tivesse ameaçado atravessar a mesa segundos antes. Como se a visão da fita amarrada no pescoço de Eva não tivesse despertado memórias que ainda queimavam sob a pele. Ele não era um garoto. Era um Di’Angelo. E Di’Angelos não se rendem ao passado. — Os traços estão bem definidos — ele disse, os olhos fixos na tela enquanto seu corpo ainda lutava contra o impulso de puxá-la para o colo. — Mas há cortes que poderiam ser mais suaves. Eva se inclinou ligeiramente sobre a mesa. O perfume dela o alcançou como um golpe silencioso. — Suavidade nunca foi seu ponto forte, senhor Santini. — A voz veio doce, mas a pontada estava ali. — Achei que preferisse traços firmes, profundos. Marcas que... permanecem. Ele olhou para ela por cima da tela do notebook. Os olhos estreitos. O controle inteiro se ancorando no maxilar travado. — Marcas só servem quando quem as recebe entende o que significam. — A maioria entende. — Ela deu de ombros, e o cetim no pescoço pareceu sorrir junto. — Mas claro, sempre tem os que agem antes de ouvir, não é? Antes que Marco pudesse responder, a porta foi aberta com discrição. Um garçom entrou em silêncio, empurrando um carrinho de jantar. Louças finas, taças já preenchidas, pratos quentes. — O jantar será servido aqui mesmo? — Eva arqueou uma sobrancelha. — Achei que seria mais... produtivo. — Marco se afastou da mesa, indo até o aparador onde estava o vinho. Eva acompanhou com os olhos cada movimento dele. A forma como ele desabotoava o paletó, a maneira como os músculos das costas marcavam sob a camisa branca. Ele sabia que ela observava. E fazia questão disso. — Gosta de salmão? — ele perguntou, servindo o vinho nas taças com mãos hábeis. — Desde que não esteja cru demais — ela respondeu, cruzando as pernas lentamente. — O ponto certo faz toda a diferença. — Algumas pessoas preferem malpassado — Marco entregou a taça a ela, os dedos tocando os dela apenas por um segundo. — O perigo sempre atrai. — Perigo não me assusta. — Ela bebeu um gole sem desviar o olhar. — Já estive cercada de homens perigosos antes. E você foi um deles. Ele sentou-se à frente dela novamente. As velas no centro da mesa lançavam sombras suaves sobre o rosto dele. Lindo, calmo, letal. — E sobre o acesso principal? — ela retomou, apontando um dos pontos no projeto — Achei que manter o traçado curvo dava mais fluidez, mesmo que exija reforço estrutural. Marco se inclinou para olhar. Perto. Demais. — Fluidez é bom. Mas exige equilíbrio. — A voz era baixa. — Se ceder demais, desmorona. Eva mordeu um sorriso. — Eu sei até onde posso ceder, Marco. Não se preocupe. Os olhos dele brilharam por um segundo ao ouvir o nome. Primeira vez que ela o chamava assim, desde o reencontro. Sem título. Sem formalidade. — Espero que sim. — Ele encostou nas costas da cadeira, os dedos tamborilando na taça. — Você sempre teve talento para caminhar na beira. — E você sempre achou que podia empurrar os outros do penhasco. Silêncio. A tensão era quase palpável. Mas o jogo seguia. As palavras continuavam a b*******a contra a outra — afiadas, calculadas. Eva cortou um pedaço do salmão. Comia com lentidão. Os olhos ainda nele. — Ainda pretende acompanhar a execução do projeto de perto? — ela perguntou. — Muito perto. — Marco respondeu sem hesitar. — Esse tipo de estrutura exige atenção nos detalhes. Cada curva. Cada base. Cada ponto de pressão. Ela pousou os talheres com calma. — Então talvez devesse se concentrar menos no acabamento... e mais nas fundações. Ele sorriu. Um sorriso perigoso. — É o que estou fazendo. Ambos sabiam. Sabiam que aquela conversa não era sobre traçados nem vigas. Não era sobre arquitetura. E definitivamente não era sobre negócios. Cada frase, cada olhar trocado entre taças e telas, era uma extensão de algo muito mais profundo e perigoso. Eles estavam falando de si mesmos. Dos sete anos de silêncio. Do que ainda queimava por baixo da superfície. Quando a última imagem do projeto desapareceu da tela, Marco fechou o notebook com um estalo seco. Silêncio. Ele a encarou. Os olhos escuros fixos no cetim ao redor do pescoço dela. Mas era mais do que desejo. Era memória. Era raiva. Era controle. Era tudo o que Eva trazia de volta com um simples gesto. — Estou ansioso pela nossa próxima reunião — disse, com voz baixa e firme. — Acho que por hoje é tudo. Eva piscou. Demorou um segundo para processar o que ouvira. Dispensada. Dispensada? Ela conteve o impulso de franzir a testa. Por dentro, fervia. Com elegância c***l, se levantou. O vestido escorria pelas pernas enquanto caminhava em silêncio até o lado dele. O perfume floral amadeirado invadiu o ar ao redor de Marco. Ele não se moveu. Eva se inclinou. Devagar. Por um segundo, Marco achou que ela fosse beijá-lo. O hálito dela roçou sua pele. Mas não. Apenas esticou a mão e, com dois dedos, retirou o pendrive da mesa. — Boa noite, senhor Santini — sussurrou. E se virou. Foi longe demais. Marco se levantou como se fosse parte de um mecanismo de guerra. Rápido, letal. Em dois passos, estava atrás dela. A mão dele agarrou seu braço, girando-a com firmeza, colando-a contra a parede antes que ela pudesse reagir. O som s***o do choque das costas de Eva contra o gesso foi abafado pela respiração dela. Marco estava ali. Corpo contra corpo. Uma das mãos pressionando seu pulso contra a parede. A outra... desceu. Lenta. Dominante. Explorando a f***a do vestido. A pele quente sob o tecido preto. — Você acha que pode brincar assim comigo? — murmurou ele contra o ouvido dela. Eva tentou resistir. As mãos empurrando seu peito, sem força real. Mas os olhos dela ardiam. A respiração entrecortada. — Eu jogo melhor que você, Marco — sussurrou de volta, tentando escapar. Mas ele não deixou. A mão subiu pela coxa dela com autoridade. Sem permissão. Sem hesitação. E então ele a beijou. O beijo não era um pedido. Era uma punição. Uma exigência. Uma lembrança de tudo o que já foi. A boca dele dominava. Quente, faminta. A língua invadia. Os dedos cravavam a cintura dela, como se quisessem moldá-la de volta ao que ele conhecia. Mas Eva não era mais a mesma. Ela não recuou. Não chorou. Não se entregou. Ela reagiu. E com um movimento seco, mordeu o lábio inferior dele com força. Marco arquejou. O gosto de sangue preencheu a boca. Ela se afastou com um sorriso sádico no rosto, os olhos brilhando. — Boa noite, Marco — disse, com a voz baixa, enquanto ajeitava o vestido. E saiu, sem olhar para trás. Deixando Marco sozinho. Com a boca cortada, o sangue nos dentes… E o ego ferido.
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