Marco recuperou o controle com uma velocidade quase inumana.
A máscara de frieza voltou ao rosto. Implacável.
Como se o corpo dele não tivesse ameaçado atravessar a mesa segundos antes. Como se a visão da fita amarrada no pescoço de Eva não tivesse despertado memórias que ainda queimavam sob a pele.
Ele não era um garoto.
Era um Di’Angelo.
E Di’Angelos não se rendem ao passado.
— Os traços estão bem definidos — ele disse, os olhos fixos na tela enquanto seu corpo ainda lutava contra o impulso de puxá-la para o colo. — Mas há cortes que poderiam ser mais suaves.
Eva se inclinou ligeiramente sobre a mesa.
O perfume dela o alcançou como um golpe silencioso.
— Suavidade nunca foi seu ponto forte, senhor Santini. — A voz veio doce, mas a pontada estava ali. — Achei que preferisse traços firmes, profundos. Marcas que... permanecem.
Ele olhou para ela por cima da tela do notebook.
Os olhos estreitos.
O controle inteiro se ancorando no maxilar travado.
— Marcas só servem quando quem as recebe entende o que significam.
— A maioria entende. — Ela deu de ombros, e o cetim no pescoço pareceu sorrir junto. — Mas claro, sempre tem os que agem antes de ouvir, não é?
Antes que Marco pudesse responder, a porta foi aberta com discrição.
Um garçom entrou em silêncio, empurrando um carrinho de jantar.
Louças finas, taças já preenchidas, pratos quentes.
— O jantar será servido aqui mesmo? — Eva arqueou uma sobrancelha.
— Achei que seria mais... produtivo. — Marco se afastou da mesa, indo até o aparador onde estava o vinho.
Eva acompanhou com os olhos cada movimento dele.
A forma como ele desabotoava o paletó, a maneira como os músculos das costas marcavam sob a camisa branca.
Ele sabia que ela observava. E fazia questão disso.
— Gosta de salmão? — ele perguntou, servindo o vinho nas taças com mãos hábeis.
— Desde que não esteja cru demais — ela respondeu, cruzando as pernas lentamente. — O ponto certo faz toda a diferença.
— Algumas pessoas preferem malpassado — Marco entregou a taça a ela, os dedos tocando os dela apenas por um segundo. — O perigo sempre atrai.
— Perigo não me assusta. — Ela bebeu um gole sem desviar o olhar. — Já estive cercada de homens perigosos antes.
E você foi um deles.
Ele sentou-se à frente dela novamente.
As velas no centro da mesa lançavam sombras suaves sobre o rosto dele.
Lindo, calmo, letal.
— E sobre o acesso principal? — ela retomou, apontando um dos pontos no projeto — Achei que manter o traçado curvo dava mais fluidez, mesmo que exija reforço estrutural.
Marco se inclinou para olhar.
Perto. Demais.
— Fluidez é bom. Mas exige equilíbrio. — A voz era baixa. — Se ceder demais, desmorona.
Eva mordeu um sorriso.
— Eu sei até onde posso ceder, Marco. Não se preocupe.
Os olhos dele brilharam por um segundo ao ouvir o nome.
Primeira vez que ela o chamava assim, desde o reencontro.
Sem título. Sem formalidade.
— Espero que sim. — Ele encostou nas costas da cadeira, os dedos tamborilando na taça.
— Você sempre teve talento para caminhar na beira.
— E você sempre achou que podia empurrar os outros do penhasco.
Silêncio.
A tensão era quase palpável.
Mas o jogo seguia.
As palavras continuavam a b*******a contra a outra — afiadas, calculadas.
Eva cortou um pedaço do salmão.
Comia com lentidão. Os olhos ainda nele.
— Ainda pretende acompanhar a execução do projeto de perto? — ela perguntou.
— Muito perto. — Marco respondeu sem hesitar. — Esse tipo de estrutura exige atenção nos detalhes.
Cada curva.
Cada base.
Cada ponto de pressão.
Ela pousou os talheres com calma.
— Então talvez devesse se concentrar menos no acabamento... e mais nas fundações.
Ele sorriu.
Um sorriso perigoso.
— É o que estou fazendo.
Ambos sabiam.
Sabiam que aquela conversa não era sobre traçados nem vigas.
Não era sobre arquitetura.
E definitivamente não era sobre negócios.
Cada frase, cada olhar trocado entre taças e telas, era uma extensão de algo muito mais profundo e perigoso.
Eles estavam falando de si mesmos.
Dos sete anos de silêncio.
Do que ainda queimava por baixo da superfície.
Quando a última imagem do projeto desapareceu da tela, Marco fechou o notebook com um estalo seco.
Silêncio.
Ele a encarou.
Os olhos escuros fixos no cetim ao redor do pescoço dela.
Mas era mais do que desejo. Era memória. Era raiva. Era controle.
Era tudo o que Eva trazia de volta com um simples gesto.
— Estou ansioso pela nossa próxima reunião — disse, com voz baixa e firme. — Acho que por hoje é tudo.
Eva piscou.
Demorou um segundo para processar o que ouvira.
Dispensada.
Dispensada?
Ela conteve o impulso de franzir a testa.
Por dentro, fervia.
Com elegância c***l, se levantou.
O vestido escorria pelas pernas enquanto caminhava em silêncio até o lado dele.
O perfume floral amadeirado invadiu o ar ao redor de Marco.
Ele não se moveu.
Eva se inclinou. Devagar.
Por um segundo, Marco achou que ela fosse beijá-lo.
O hálito dela roçou sua pele.
Mas não.
Apenas esticou a mão e, com dois dedos, retirou o pendrive da mesa.
— Boa noite, senhor Santini — sussurrou. E se virou.
Foi longe demais.
Marco se levantou como se fosse parte de um mecanismo de guerra.
Rápido, letal.
Em dois passos, estava atrás dela.
A mão dele agarrou seu braço, girando-a com firmeza, colando-a contra a parede antes que ela pudesse reagir.
O som s***o do choque das costas de Eva contra o gesso foi abafado pela respiração dela.
Marco estava ali. Corpo contra corpo. Uma das mãos pressionando seu pulso contra a parede.
A outra... desceu.
Lenta.
Dominante.
Explorando a f***a do vestido. A pele quente sob o tecido preto.
— Você acha que pode brincar assim comigo? — murmurou ele contra o ouvido dela.
Eva tentou resistir. As mãos empurrando seu peito, sem força real.
Mas os olhos dela ardiam.
A respiração entrecortada.
— Eu jogo melhor que você, Marco — sussurrou de volta, tentando escapar.
Mas ele não deixou.
A mão subiu pela coxa dela com autoridade.
Sem permissão. Sem hesitação.
E então ele a beijou.
O beijo não era um pedido.
Era uma punição.
Uma exigência.
Uma lembrança de tudo o que já foi.
A boca dele dominava. Quente, faminta.
A língua invadia.
Os dedos cravavam a cintura dela, como se quisessem moldá-la de volta ao que ele conhecia.
Mas Eva não era mais a mesma.
Ela não recuou. Não chorou. Não se entregou.
Ela reagiu.
E com um movimento seco, mordeu o lábio inferior dele com força.
Marco arquejou.
O gosto de sangue preencheu a boca.
Ela se afastou com um sorriso sádico no rosto, os olhos brilhando.
— Boa noite, Marco — disse, com a voz baixa, enquanto ajeitava o vestido.
E saiu, sem olhar para trás.
Deixando Marco sozinho.
Com a boca cortada, o sangue nos dentes…
E o ego ferido.