Capítulo 10

1134 Words
Marco encarava a cidade do alto de seu escritório, as mãos fechadas em punhos ao lado do corpo. O vidro refletia sua própria imagem: terno impecável, postura ereta, expressão inabalável. Mas aquilo… era uma farsa. A raiva subia como veneno lento, queimando de dentro pra fora. Era ao custo de um autocontrole c***l que ele ainda não tinha voltado ao hotel. Ainda não a tinha pressionado contra aquela parede de novo. Ainda não tinha exigido respostas com as mãos. Porque se fosse… Se ele cedesse, se colocasse tudo abaixo, perderia. E perder para Eva Portinari, depois de tudo o que ela fez, depois de todos os anos tentando esquecê-la — ou substituí-la — era inaceitável. Ele sabia. Ela o estava testando. Brincando. E o pior: estava vencendo. Mas enquanto Marco segurava o próprio caos… os outros pagavam o preço. — Isso aqui tá uma m***a! — sua voz cortou o silêncio da sala de reuniões, fazendo dois diretores mais velhos trocarem olhares nervosos. — É isso que vocês têm pra me apresentar depois de duas semanas de planejamento? — Senhor Santini, nós… — começou um dos executivos, ajeitando os óculos. Marco o interrompeu sem sequer olhar: — Você teve três dias. Três. E me entrega esse lixo de gráfico e uma estimativa baseada em suposições? O homem tentou se justificar, mas o tom gelado de Marco já desestabilizava o ambiente. — Saia da minha sala. Agora. O homem empalideceu. — Mas… senhor… eu… — Não me faça repetir. — A voz era baixa, mas carregada de aço. O diretor hesitou apenas um segundo antes de recolher os papéis com as mãos trêmulas e sair. Diego assistia tudo em silêncio, recostado discretamente perto da porta. Quando o último funcionário saiu, ele soltou um leve suspiro. — Você vai acabar matando alguém do coração, chefe. Marco girou lentamente a cabeça em direção a ele. — Que tal ser o próximo? Diego ergueu as mãos, em rendição. — Só dizendo. Clima aqui tá ficando… radioativo. Marco pegou o copo de whisky, virou metade de uma vez e depois encarou o fundo vazio do copo, como se pudesse encontrar ali o controle que lhe escapava. — Ela não saiu do prédio. — murmurou. Diego franziu a testa. — Como assim? Marco largou o copo sobre a mesa de vidro, agora repleta de marcas de dedos e tensão. — Eva. Ela não saiu. Enganou os seguranças, as câmeras… Ficou na maldita sala dela por horas. Sozinha. Diego assentiu, tenso. — Isso explica por que ninguém conseguiu segui-la. Mas o que ela ganhou com isso? Marco sorriu — um sorriso vazio, sombrio. — Me deixar imaginando. Diego ficou em silêncio por um momento, então arriscou: — E funcionou? Marco se virou com os olhos escurecidos. — O que você acha? Diego deu de ombros e saiu sem dizer mais nada. Era melhor assim. Marco ficou sozinho novamente. No silêncio, na raiva. Na provocação. Ele se afundou na poltrona da presidência, os olhos fixos na parede à frente. Eva sabia exatamente onde apertar. Sabia como ferir. E pior — sabia como deixá-lo desejando mais, mesmo enquanto sangrava. Ele jogaria o jogo. Até o fim. Mas, dessa vez, as regras seriam dele. Ou pelo menos era isso que se forçava a acreditar. Marco não dormiu naquela noite. Passou a madrugada debruçado sobre os próprios fantasmas, encarando o teto do quarto escuro, o whisky esquecido na mesa de cabeceira. A imagem de Eva amarrando a fita no pescoço continuava desfilando diante de seus olhos como uma sentença. Mas não era apenas o presente que o assombrava. Era o passado. Sete anos atrás. A última noite. O último toque. E foi impossível evitar que sua mente escorregasse para lá — para aquele quarto que apenas os dois conheciam, o lugar onde as máscaras caíam e as vontades eram ditas sem vergonha. Ela entrou com os olhos vendados. A fita preta de cetim que ele mesmo amarrara estava firme, deixando-a completamente entregue ao tato, ao som e ao cheiro dele. — Pronta? — a voz dele soou rouca, quente e baixa. Um sussurro que arrepiava a espinha. Ela apenas assentiu, nua, de joelhos no centro do quarto. As mãos descansavam nas coxas. A respiração já irregular antes mesmo do primeiro toque. Marco circulava lentamente ao redor dela. As solas dos sapatos ressoavam no chão de madeira. Cada passo era uma promessa. Cada silêncio, uma provocação. Quando ele parou atrás dela, o cheiro do couro invadiu o ar. Ela reconheceria aquele som em qualquer lugar: o leve estalar do chicote de montaria nas mãos dele. — Palavras de segurança? — ele perguntou, quase como um ritual sagrado. — As mesmas. — respondeu ela, com firmeza. Ainda que o coração batesse acelerado. Então veio o primeiro toque. Não de dor. Mas de comando. A ponta do chicote deslizou por sua pele — um arrepio quente, lento, desenhando caminhos invisíveis sobre as costas e descendo, explorando, provocando. Marco se abaixou e roçou os lábios na curva de seu ombro. Um beijo casto. Quase gentil. Mas em seguida, os dentes morderam sua pele. Ela arqueou o corpo, arfando. Ele sorriu, satisfeito. As algemas vieram logo depois. Frio contra calor. Metal contra carne viva. Ela estendeu os pulsos para trás sem hesitar. Confiança absoluta. Entrega cega. Era isso que os unia — ou unia até tudo desabar. Ele a prendeu com calma, devagar. Como se estivesse marcando o momento. E então, tudo ficou em silêncio. Mas não por muito tempo. Marco se ajoelhou à frente dela. Os dedos puxaram o cetim da venda apenas o suficiente para que ela visse seus olhos. — Você é minha. — ele dissera. E ela acreditara. Ele então abriu suas pernas e a chupou, sua língua circulando seu c******s enquanto a penetrava com o cabo fino no chicote, ele ainda podia sentir o gosto dela, como ela estremecia de prazer. Naquela noite, fizeram amor como se o mundo fosse acabar. Como se não houvesse amanhã, nem fotos vazadas, nem mortes, nem máfia, nem traições. Somente os dois. Somente desejo. Somente dor e prazer misturados na medida exata. Marco fechou os olhos no presente, passando as mãos pelo rosto. A memória ainda queimava. Ainda o destruía. E ainda assim… ele desejava repeti-la. Mas o que Eva fizera nos últimos dias — o sorriso, a fita, o desaparecimento calculado — mostrava que ela não era mais aquela mulher que se ajoelhava e se entregava sem resistências. Agora, Eva era uma jogadora. Com suas próprias armas. E se ele quisesse tê-la de novo… precisaria sangrar por isso. Marco se levantou da cama, incapaz de ficar parado. Foi até a janela, encarando Nova York sob a madrugada acesa. “Você é minha.” As palavras voltaram como açoite. Mas agora… ele não sabia mais quem comandava o jogo.
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