Eva tentou se concentrar.
Abriu plantas, revisou cálculos, checou contratos.
Mas, a cada cinco minutos, seus olhos traíam sua disciplina — e voltavam para a porta.
Como se, a qualquer instante, Marco fosse atravessá-la.
Mas ele não veio.
Nem naquela tarde.
Nem no dia seguinte.
Nem nos dois que vieram depois.
Quatro dias inteiros.
Quatro malditos dias de silêncio.
E aquilo estava surtindo efeito.
Ele sabia exatamente o que estava fazendo — e fazia bem.
Deixar que a tensão crescesse em sua mente até se tornar insuportável.
Como se o ar ao redor da porta estivesse mais denso. Como se o tempo entre os passos do corredor carregasse algo prestes a explodir.
Na manhã do quarto dia, enquanto tomava café com amargura e tensão latejando sob a pele, um alerta em sua tela chamou sua atenção.
Um e-mail.
Assunto: Reunião de alinhamento de projeto — Confirmação obrigatória.
Abriu.
Leu.
Relatou:
Prezada Ive,
O Sr. Marco Santini solicita sua presença para um jantar de negócios, a fim de apresentar e revisar os primeiros esboços do projeto.
Confirmação necessária.
Att.,
Equipe Santini Enterprise
Nenhum local indicado. Nenhum detalhe além da formalidade corporativa.
Mas ela conhecia Marco. E sabia exatamente o que ele estava fazendo.
— Um jantar — murmurou, encostando-se na cadeira. — Claro. E eu aposto que vai ser no apartamento dele… Ou algum restaurante com meia luz e vinho caro.
Ela poderia recusar.
Poderia responder propondo uma simples reunião técnica ali mesmo, no escritório, entre mesas, luz branca e pastas organizadas.
Poderia.
Mas isso seria ceder. Ser previsível. Mostrar que estava afetada.
E ela não mostraria.
Aceitou.
Não pensaria sobre isso. Não sobre o que ele planejava. Não sobre o que faria se ele tentasse mais alguma coisa.
Afinal, era só um jantar profissional. Era só trabalho.
Você está no controle, Eva. No controle.
O resto da manhã passou em esforço. Cada tarefa cumprida parecia uma batalha vencida contra a ansiedade. Contra a raiva. Contra o desejo maldito de vê-lo.
Mas então, às 15h, outro alerta na tela.
Novo e-mail.
Dessa vez, diretamente do endereço de Marco.
Assunto: Confirmado.
Já que aceitou, espero você em minha sala.
Oito em ponto.
— M.
Eva franziu o cenho.
O coração disparou.
Na empresa?
Ela leu o e-mail novamente. A sala dele. Ali mesmo. Nenhum lugar íntimo, nenhuma armadilha romântica.
Era... frio. Impessoal. Quase decepcionante.
Ela se levantou, caminhou até a janela, os braços cruzados, o olhar perdido no vidro espelhado.
— Então é isso, Marco? — disse em voz baixa. — Você brinca comigo, invade meu quarto, manda brinquedos do passado… e agora age como se nada tivesse acontecido?
Tinha certeza de que ele armaria uma cena. Que tentaria provocar. Que viria com seu olhar intenso e mãos firmes.
Mas não. Ele parecia recuar.
Ou talvez... estivesse apenas mudando de tática.
Ela sorriu.
Aquele sorriso que não chegava aos olhos.
Frio. Inteligente. Calculado.
— Está jogando, Santini? — sussurrou. — Ótimo. Porque agora… agora eu também sei jogar.
Fechou a tampa do notebook com um clique seco.
Estava decidido.
Ela encerraria o expediente mais cedo.
Iria para casa. Respirar. Planejar.
E voltaria à noite pronta — não para cair nas provocações de Marco, mas para devolvê-las com a mesma intensidade.
Se ele queria testá-la…
Ela estava pronta para virar o tabuleiro.
Enquanto isso
No andar mais alto do edifício da Santini Enterprise, Marco estava em silêncio.
A sala era ampla, elegante, com vista para o coração pulsante de Nova York, mas ele não via a cidade.
O foco estava na tela do computador à sua frente.
A resposta havia chegado.
Eva aceitara o convite.
Nenhuma palavra a mais. Só a confirmação. Seca. Profissional.
Marco apoiou os cotovelos sobre a mesa, entrelaçou os dedos em frente ao rosto. O maxilar marcado se contraía levemente. Para quem visse de fora, ele pareceria impassível. Talvez até resignado.
Mas por dentro... não havia nada de passividade.
Era cálculo. Pura estratégia.
Ela voltou mais forte do que antes.
Sete anos haviam passado, e Eva não era mais a mulher que gemia por seu toque com os olhos vendados e os punhos presos.
Não.
Agora ela usava saltos firmes, palavras afiadas e olhos que desafiavam os dele sem medo.
Ela era uma oponente.
E, mais do que isso, um perigo real para seu controle.
E ele adorava isso.
O sorriso que se formou em seus lábios era lento.
Não era de ternura, nem de saudade.
Era o tipo de sorriso que precedia uma caçada.
Marco girou a cadeira para o lado, encarando a cidade lá embaixo, os arranha-céus refletindo o pôr do sol. Passou os dedos pelos lábios, pensativo.
Ela acha que está no controle.
Mandar a caixa foi só o primeiro passo.
Ele sabia exatamente o que cada um daqueles objetos significava para ela.
Não só prazer. Não só submissão.
Significavam o tipo de confiança que ela só tivera com ele.
E quebrar isso... custou caro.
Depois da entrega, ele não a procurou mais.
Ficou em silêncio.
Mas não desconectado.
Colocou dois de seus homens mais discretos para segui-la desde o primeiro dia.
Não era apenas vigilância. Era p******o, também.
Eva estava em território dele agora — e ninguém tocaria nela sem que ele soubesse.
Tudo fazia parte do plano.
Marco não era mais o garoto impetuoso da máfia Di’Angelo.
Ele era um estrategista. Um líder.
E Eva…
Eva era uma obsessão cultivada em silêncio por sete anos.
Uma obsessão que agora ele via com clareza: ela não voltaria para ele pelo passado.
Ela precisava ser conquistada novamente.
Mas sob novas regras.
E ele estava disposto a jogá-las.
Por isso marcara o jantar ali, no escritório.
Nenhum clima de sedução. Nenhum terreno escuro onde ela pudesse fugir da própria mente.
Queria encurralá-la com o inesperado.
Fazer com que ela mesma não soubesse se ele queria negociá-la como uma arquiteta ou dominá-la como antes.
Marco se levantou, caminhou até o bar e encheu o copo com uma dose de uísque.
Bebeu em silêncio.
— Vamos ver quem mexe com quem hoje à noite… — murmurou para si mesmo, os olhos ainda fixos na tela.
A guerra silenciosa entre eles tinha começado.
E, dessa vez, ele não pretendia perder.