*Narrado através da perspectiva de Baroni*
Ele não deu muita importância para os olhares m*l disfarçados que pairaram sobre o seu corpo quando entrou no hospital pouco depois. É claro que as pessoas olhariam torto, se o povo da favela, já acostumado com os caras do movimento, o olhavam daquele modo às vezes, por que os do asfalto não olhariam? Se não bastassem as tatuagens que Baroni carregava nos braços e pescoço, com a correria de ir logo ver a irmã, ele acabou descendo o morro sem nem mesmo vestir algo menos “chamativo”. E bermuda tactel preta, camisa de time e tênis de molas, aparentemente chamavam bastante atenção por ali. Mas ele estava pouco se importando, só queria mesmo era saber como a saúde da irmã estava, não fazia a menor diferença o quanto a sua aparência incomodava os outros pacientes ou não.
— Posso ajudar? — a mulher sentada atrás do balcão da recepção do hospital perguntou, o observando meio incerta. Com uma olhada rápida, ele soube que ela estava se acabando de receio com a sua presença ali, as mãos estavam entrelaçadas apertadas no colo e os olhos, com íris castanhas, estavam meio arregalados, como se a qualquer momento ele fosse perder o controle e a atacar ou algo do tipo. E mesmo que o gesto bastante preconceituoso dela não o agradasse muito, Baroni resolveu ignorar. Ele não tinha intenção nenhuma de assustar alguém, não era do tipo que botava terror a toa, por isso apenas assentiu para ela.
— Elisa da Silva Prazeres — disse o nome da irmã, cheio de apreensão para saber se a maluca estava bem. Não queria nem pensar no que seria dele se perdesse aquela pentelha, por mais que ela o tirasse do sério, era a coisa mais perto de uma amiga que ele sempre teve, era uma das poucas coisas boas que realmente ainda tinha na sua vida.
— Você é parente da paciente? — a mulher atrás do balcão perguntou. Os olhos voando do cordão de ouro escondido dentro da camisa dele para as tatuagens à mostra.
— Sou irmão — Baroni rebateu em um tom bem menos ameno que antes. Ele não queria mesmo causar, mas seria difícil manter a fachada calma se a mulher continuasse naquela mescla de preconceito e falta de vontade de ajudar. Ele sempre odiou esse tipo de hospital público com atendimento de m*rda, desde a época em que precisava acompanhar a sua avó e vê-la passar horas em uma recepção suja sendo ignorada pelos médicos e atendentes.
Ele esperou para ver se a recepcionista, que ainda o olhava com receio, teria coragem de o contradizer, mas para a sua satisfação, ela apertou os lábios em uma linha fina e assentiu.
— Elas estão no quarto cento e doze — informou, após digitar algo no computador — Preciso que me dê um documento para gerar um cadastro como visitante.
Ele assentiu, puxando da carteira o seu RG falsificado favorito. Nele Baroni se chamava Luís da Silva Prazeres, filho da dona Luísa, assim como a Elisa.
Depois disso a recepcionista não encrencou muito, disse até para ele ficar à vontade, mesmo sendo óbvio que aquilo significaria fazer com que todas as outras pessoas ao redor não ficassem. Ela também pediu para que ele atualizasse a ficha de Elisa, uma tarefa chata e cheia de informações que ele não estava nem um pouco a fim de dar. Baroni desconversou, dizendo que precisava mesmo ver a irmã antes de ir para o trabalho, e a mulher aceitou que dele não arrancaria nem mais um A.
Ele achou Elisa no tal quarto cento e doze, ela estava sentada na maca perto da janela. Na maca ao lado havia outra mulher que ele nunca tinha visto na vida. Certeza que era a tal mina do asfalto de quem a tia havia falado na ligação.
— Qual foi, maluca? Tá querendo limpar a pista com as fuças? — ele já chegou zoando, depois de ver que a pestinha estava bem o bastante para ficar sentada com aquela cara de paisagem na cama. A irmã até revirou os olhos, para provar que estava tão bem e insuportável como sempre.
— Não tem graça, Luke, eu me machuquei — ela fez um biquinho ridículo com o lábio, o tipo de coisa que para ele só era fofa em crianças menores de três anos, e não em uma mulher adulta.
Elisa e a tia Luísa eram as únicas pessoas que o chamavam de Luke, para os demais ele sempre foi Lucas, depois, quando se tornou patrão, tentaram vir com uma de barão, mas a Elisa foi logo dando a ideia do Baroni e a coisa foi pegando até que pegou de vez.
— Machucou nada, tá aí inteirinha — ele disse, olhando com atenção o rosto e todas as partes visíveis do corpo dela. Tinha só um corte na testa, coberto por um curativo, uns arranhões nos braços e o soro entrando na veia. De resto parecia a mesma coisa de sempre. Ele desviou a análise para a garota na maca ao lado — Já a sua amiga aqui... — a garota tinha levado uns pontos no braço direito, aliás o braço dela estava todo arranhado, e para completar, ela estava inconsciente. O que não impediu que Baroni reparasse em como ela era até bonita, um mulherão, mesmo deitada na maca com o roupão feio do hospital cobrindo o corpo. Ela era bem diferente da imagem de patricinha que Baroni havia formado na cabeça quando a tia ligou para falar do acidente. As minas do asfalto sempre pareceram tão plastificadas para ele, ao menos as que iam no morro atrás dos caras e das dr*gas. Ele só via mulher de silicone, saltão, implante de cabelo batendo na b*nda, tudo isso enfiado nas roupas de blogueirinha que normalmente combinavam com a cor do esmalte que elas usavam nas unhas ass*ssinas que pareciam idolatrar. Mas a mina que estava com a Elisa no hospital não tinha nada daquilo. O cabelo era castanho e cacheado, e não liso como os das que subiam o morro. Ela também não tinha as unhas exageradas, e do ângulo que ele estava vendo, não parecia ter silicone...
— Luke, para — Elisa falou, chamando a sua atenção — Nem começa.
— Tô fazendo nada — ele voltou a olhar para a irmã, desviando a atenção do rosto da outra garota, enquanto ainda pensava em como ela ficava até meio angelical apagada daquele jeito, o que Baroni, por um segundo, achou um pensamento meio bizarro de se ter — Diz aí, o que aconteceu?
— Primeiro diz o que tu tá fazendo aqui — Elisa cruzou os braços. Baroni arqueou uma sobrancelha para o tom autoritário. Tudo bem que ela estava em um hospital, mas era bom não perder o costume. Não dava para deixar Elisa falar naquele tom com ele, por mais que não se importasse com o tom sendo ela a falar. Ele era o patrão, entende? Tinha todo o lance da reputação a zelar, e não podia dar brecha para a maninha ir com aquele tom para cima dele agora, porque mais tarde ela poderia acabar esquecendo e fazendo o mesmo na frente dos outros — Foi m*l — ela suspirou — Mas porque tu veio? Sério, irmão, não é perigoso?
— Claro que não. Tu sabe que ninguém fora do morro sabe quem eu sou — ele cruzou os braços — No asfalto eu sou só um homem com cara de m*l e tatuagens demais. Aliás, hoje eu sou o Luís, caso a recepcionista ou algum médico venha conferir a informação com você. Agora conta, tava fazendo o quê no carro com a mina? Ia levar ela pra dar um rolê no morro? Os cria iam ficar doidos com a carne nova.
Elisa abaixou o olhar para a perna, o que fez Baroni consertar a postura e prestar atenção nela, esperando o que tinha a dizer, porque Elisa não costumava ser o tipo de pessoa que desviava o olhar em uma conversa, a menos que nem mesmo ela soubesse lidar com o assunto. E ela normalmente sabia lidar com quase tudo.
— Na verdade, ela tá precisando de um lugar pra morar, e eu pensei em levar ela lá pra casa. Ia te contar, mas tu não gosta que ligue pra falar quando tá... no alto — ela olhou para a amiga, como se estivesse com receio dela estar ouvindo algo, o que deixou Baroni ainda mais intrigado. Então a mina não sabia quem ele era? Só isso justificava como Elisa havia acabado de chamar a base, onde ele passava o dia comandando, de "alto".
— A tia Luísa tá sabendo disso? — ele perguntou, ignorando o resto.
— Tá, sim, liguei pra ela no caminho.
— Então tá sossego, o barraco é da tia, se ela acolhe a mina, eu acolho também.
— Tu é demais, Luke, por isso que te amo — ela sorriu toda alegrinha, fazendo Baroni menear a cabeça.
— Sei — ele desencostou da parede, tinha parado ali de propósito, de costas para algo sólido, de frente para a porta. Não havia perigo eminente, mas o lema de quem vivia a vida dele era um só: sempre atento — Precisa de algo? Tô metendo o pé já.
— Vê se consegue desenrolar o carro dela, acho que foi levado por um guincho. As roupas dela estão todas lá — a irmã pediu, olhando para a amiga com compaixão.
— A mina se mudou de mala e cuia — Baroni comentou, desviando o olhar novamente para a garota sedada na outra maca. Ouviu Elisa suspirar.
— Os pais delas a jogaram pra rua depois de descobrir que estava grávida.
— Que treta pesada, maior onda desses pais — ele voltou a olhar para a irmã.
— E sabe o que é o pior? — Elisa continuou, suspirando — Ela perdeu o bebê no acidente.
— Que barra — ele se aproximou para dar um beijo na testa dela — Boa sorte aí pra consolar a mina do asfalto, ela vai precisar.
— Valeu, irmão.
E com isso Baroni deixou o hospital e voltou direto para a base, já pensando em alguém de confiança para ir resolver o assunto do carro da garota do asfalto. Depois de dar as ordens, deu uma conferida geral no movimento das vendas e subiu para o seu barraco no alto do morro. Era melhor aproveitar a tarde para tirar um cochilo, porque a noite no morro era hora de bandido ficar esperto.