Capítulo 8 - Hospital

1774 Words
*Narrado através da perspectiva de Camila* A cabeça de Camila doía quando ela voltou a abrir os olhos, com as têmporas parecendo pulsar em meio a dor. Ela não fazia ideia de por quanto tempo tinha perdido a consciência, ou do porque a tinha perdido, muito menos entendeu onde estava quando a primeira coisa com que se deparou foram paredes em um tom de verde claro, meio manchadas pela infiltração em alguns pontos, e luzes de led apagadas no teto de gesso sobre a sua cabeça. Toda a iluminação do ambiente parecia vir de janelas na parede lateral, que Camila ainda não tinha tido coragem de encarar. — A bela adormecida acordou — a voz de Elisa soou ao seu lado e ela virou a cabeça devagar, até vê-la sentada em uma maca. O movimento a fez sentir instantaneamente uma dor no pescoço, para completar a da cabeça que a fazia querer fechar os olhos. Observou Elisa, que a encarava com certa atenção enquanto balançava os pés pendurados para fora da maca. Camila sentiu as sobrancelhas franzirem em confusão, a cabeça começou a doer mais intensamente na mesma hora. Por que a amiga estava em uma maca...? — Tu não lembra de nada, não é? Ela meneou a cabeça. Estava em um hospital? Como ela havia ido para em um hospital... E aí as memórias dos últimos acontecimentos voltaram de uma vez, piorando a dor nas suas têmporas: a gravidez, a hora de falar com os pais, a discussão, o momento em que foi expulsa de casa, o temporal repentino, o motociclista surgindo do nada e o acidente... — Ah, nossa, eu bati o carro — concluiu de forma atrasada, balbuciando as palavras enquanto levava as mãos à cabeça, e só nesse momento notando o acesso intravenoso no seu braço direito. — Na verdade, você capotou o carro, amiga — Elisa se consertou na cama, e ao ver que os seus olhos se arregalaram com a informação, completou: — Mas fica calma, nós estamos bem e o meu irmão já resolveu os assuntos com o carro. Pagou pra tirar ele do depósito e até já mandou levar as suas roupas lá pra casa. — Hum — saiu mais como um gemido de dor, ela ainda não tinha muita ideia do que estava fazendo — Me lembra de agradecer a ele. — Não precisa — Elisa descartou a ideia com um gesto de mão — Você vai ver como ele já é acostumado a ajudar os outros assim. — O seu irmão parece mesmo legal — ela observou distraída, enquanto imaginava quando uma enfermeira entraria para injetar um analgésico na sua veia. A amiga deu de ombros com o comentário, desviando o olhar para os pés. Depois de alguns segundos em silêncio, enquanto Camila tentava se concentrar em algo além dos remédios para dor que tanto queria, ela finalmente externalizou um pensamento coerente: — Só me diz uma coisa, meu carro tá bem? — Sinto muito, amiga — os olhos castanhos de Elisa voltaram a se fixar nos seus, com cautela — O Luke me disse que o teu carro tá mais pra lá do que pra cá, vai ser mais fácil comprar outro do que consertar. O bichinho foi todo amassado. Mas mesmo assim ele levou o carro para um depósito de um conhecido lá no morro, para o caso de você querer, sabe, tentar fazer algo, ou se despedir. Os olhos de Camila encheram de lágrimas assim que as palavras fizeram sentido na sua mente nublada, e a vontade de chorar fez a sua garganta doer. Sim, você deve estar pensando que ela era uma chorona na época, e ela era. Naquele tempo ela ainda acreditava que um carro, uma roupa ou uma palavra meio gritada contra ela eram motivos o bastante para chorar. Mas não se preocupe, logo você vai ver como a vida se encarregou de mostrar a Camila o que realmente merecia o seu choro, mesmo que tenha levado um tempo para isso acontecer. E de qualquer forma, aquele carro era mesmo importante para ela, não só por ser um modelo caro e bonito, com bancos de couro e partes cromadas, era por ser um dos últimos presentes que o seu padrinho havia lhe dado em vida. O padrinho era um homem muito bom, sempre a tratou bem, sempre acreditou no seu potencial e até a incentivou a seguir os seus sonhos de estudar filosofia, ainda que os seus pais tenham acabado com qualquer possibilidade dela seguir o incentivo. Infelizmente o padrinho a deixou no início do ano, teve um ataque fulminante do coração, e partiu de modo tão repentino que tudo o que restou a ela foram o choque da notícia e as lembranças. Então, perder aquele carro era como perder mais um pouquinho do que restava do padrinho na terra. E a Elisa, como a boa melhor amiga que era, sabia disso, por isso olhou para Camila cheia de compaixão. — Sinto muito, amiga — ela saiu da maca em que estava e veio se sentar ao lado da outra, se espremendo no pouco espaço que sobrava na estrutura estreita do hospital. — Tudo bem — Camila respirou fundo, se controlando minutos depois, e então voltou a focar em outro ponto que importava bastante, e que, por algum motivo, ela só havia lembrado naquele momento, o que deixou o gosto amargo de culpa em sua boca — E o bebê? O corpo de Elisa se enrijeceu ao seu lado, foi resposta o suficiente, mas ainda assim a amiga murmurou: — Eu sinto muito — voltou a repetir — Eu perguntei do bebê assim que acordei, mas a enfermeira disse que você sofreu um aborto antes mesmo do socorro chegar ao local do acidente. Outra lágrima escorreu pela bochecha de Camila. Mesmo o bebê sendo uma surpresa, ainda era parte dela, e perdê-lo no mesmo dia que o descobriu, fez uma sensação estranha tomar o seu peito. Era como perder algo que ela nunca teve de verdade. Ela não sabia como se sentir. Elisa a abraçou e as duas ficaram ali em silêncio, enquanto Camila tentava entender tudo o que inundava a sua mente: a dor, a tristeza, o sentimento de perda, o sentimento de culpa por ter lembrado do carro antes mesmo de ter lembrado da vida que até pouco atrás carregava dentro de si. As reflexões confusas continuaram a deixando enjoada e piorando a sua dor de cabeça até o médico chegar no quarto. Era um homem que parecia jovem demais para desempenhar a função de responsabilidade por uma ala inteira de um hospital, como ele mesmo explicou que fazia ao se apresentar brevemente para as duas. O nome dele era Miguel, e ele explicou as coisas bem rápido e de modo tão prático que ela quase não foi capaz de acompanhar. Miguel disse que Elisa estava bem, e que além dos arranhões não havia sofrido maiores danos. Também informou que Camila havia sofrido uma leve concussão e que ele sentia muito pelo aborto, mas que ela também estava bem, de um modo geral. Ele explicou como as enfermeiras fariam um procedimento com uma combinação de remédios para facilitar a remoção de qualquer resíduo do feto no seu útero e também receitou alguns remédios para dor, disse que lhe daria alta assim que o procedimento acabasse e que a assistente social viria falar com as duas rapidinho, apenas para seguir o protocolo. E depois ele se virou e foi embora, desejando um bom dia. Foi tão rápido que Camila sequer pôde perguntar algo, ou ter tempo de formular uma pergunta no seu próprio cérebro. Ela voltou a olhar para a amiga com cara de espanto, o que fez Elisa dar de ombros. — Isso aqui não são os seus hospitais particulares não, amiga — Elisa meneou a cabeça — Aqui os médicos são assim às vezes, ainda mais quando estão perto da troca de plantão. É muita gente pra atender e pouco médico pra dar conta. Camila tentou fingir que compreendia, mesmo não compreendendo. Nos hospitais que ia quando se acidentava ou sentia algo, hospitais bancados pelos convênios caríssimos dos seus pais, os médicos sempre eram prestativos, a enchiam de perguntas, questionavam se tinha dúvidas e ainda explicavam até os termos mais difíceis de entender. Já ali, quando um deles aparecia, parecia estar sempre atrasado para algo e super ansioso para ir embora. Levou quase duas horas para as enfermeiras mencionadas por Miguel chegarem no quarto com alguns comprimidos em dois copinhos. Elas explicaram para que serviam, deixaram claro que eles causariam contrações no seu útero e fariam ela sentir um incômodo e que depois disso ela seria levada a outra ala onde um ginecologista faria uma curetagem. É claro que Camila ficou assustada com aquilo, ainda mais quando a Elisa lhe fez o favor de explicar, com mais detalhes do que era necessário, do que se tratava a tal curetagem. Camila foi levada para a outra ala algumas horas depois, sentindo uma cólica terrível. A ginecologista a anestesiou para que apagasse de novo, provavelmente porque viu que ela estava em pânico e pretendia correr para fora da sala enquanto chorava feito uma louca, e quando voltou a acordar, já estava no quarto com a amiga, que havia recebido alta e feito um barraco para permanecer ali como a sua acompanhante. Camila não fazia ideia de como Elisa havia conseguido, mas ela estava lá, usando roupas normais e a esperando acordar para lhe dar um abraço. Elisa era mesmo uma amiga incrível, e o gesto fez Camila chorar, mais uma vez. Outro médico veio lhe dar alta uma hora depois disso, ela tinha acabado de comer a marmita sem sal do hospital, enquanto Elisa devorava uma coxinha com suco que comprara em alguma barraquinha do lado de fora, sem a menor consideração pela outra, que apesar de nunca ter gostado muito de coxinha pela quantidade de óleo saturado que normalmente tinha no alimento, sentia uma enorme vontade de comer mesmo que fosse só um pedacinho dela agora. Qualquer coisa parecia melhor do que o frango pálido do hospital, os vegetais insossos e o macarrão lavado. — Vou pedir para uma das enfermeiras ligar para a minha mãe e avisar que estamos liberadas — Elisa avisou, pulando para fora da maca de Camila, sem dar o menor indício de que havia sofrido um acidente no dia anterior. Camila suspirou enquanto via a amiga sair para fazer a ligação. Era aquilo, então, estava prestes a sair dali e seguir por algo que ela nem sequer podia imaginar como seria. Pela centésima vez no dia, ela sentiu vontade de chorar.
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