Capítulo 9 - Bem-vinda ao lar

2007 Words
*Narrado através da perspectiva de Camila* A mãe de Elisa mandou um Uber para buscá-las. Elisa riu o caminho todo dizendo que a mãe só tinha feito aquilo para não traumatizar Camila a fazendo pegar um ônibus ou andar logo no seu primeiro dia no morro, e fez questão de afirmar como ela não devia se acostumar com a mordomia, porque, segundo a amiga, dali para frente a vida das duas dependeria de ônibus ou do esforço das suas belas pernas em caminhadas longas. No entanto, de todas as brincadeiras e falas da amiga durante o trajeto, a única que ecoava na cabeça de Camila sem parar era: “O seu primeiro dia no morro”. Algo na frase fazia uma sensação estranha correr por seu corpo. Talvez fosse o medo incutido na sua mente por seus pais durante os anos, assim como pelos noticiários durante toda a sua vida que mostravam o perigo, a coerção, as restrições e a miséria de locais como o que ela estava prestes a ir. Ela não sabia ao certo o motivo de sentir aquela coisa gelada nas veias. Tudo o que sabia era que quanto mais o Uber se aproximava do morro, mais ela se sentia nervosa. Tinha uma estranha sensação de que Elisa tinha razão no que lhe dissera na tarde anterior, sobre a sua vida começar a partir daquele momento. Mesmo dizendo a si mesma que a mudança seria temporária, algum instinto dela gritava que se ela não desse meia volta naquele momento, não daria nunca mais. Mas Camila descartou a sensação, achando que era só o estresse e o medo, que era um pressentimento bobo. Não era. Mas é caro que Camila jamais poderia saber daquilo no momento em que decidiu permanecer no Uber. O carro parou a uns seiscentos metros da entrada do morro, antes mesmo de virar na rua direta que realmente dava acesso ao lugar. Só isso já fez o medo de Camila aumentar. Mas Elisa segurou a sua mão e disse para ela ficar tranquila e que aquilo era apenas nóia de alguns motoristas. Ela não retrucou, achou sensato não informar que também tinha a mesma nóia que eles. As duas caminharam os metros restantes até virar na rua que levava direto para o morro. O corpo de Camila ainda estava dolorido em vários lugares por causa do acidente, mesmo com o monte de analgésicos que tomara antes de ser liberada no hospital, e ela ainda se sentia tonta por causa da anestesia, no entanto, as pernas trêmulas não tinham nada a ver com nenhuma das medicações. Elas eram apenas o resultado do seu lado covarde gritando para que ela parasse e fosse embora. Mas ir embora para onde? Ela perguntava a si mesma, enquanto tentava se manter firme. Não havia outro lugar para ir. A família a deserdou, e se tinha algo em que os Garcia eram bons em fazer, era em serem unidos quando queriam ficar contra alguém. Ela não tinha acabado de “perder” só os pais, tinha perdido os tios, os avós e todos os “amigos” do círculo social. Para eles, ela deixaria de existir, e Camila sabia disso porque já tinha visto acontecer antes com o filho de uma juíza amiga dos pais dela. O garoto se envolveu com dr*gas, foi flagrado pelos paparazzi e a mãe o deserdou, e para completar, ainda o enviou para uma clínica de reabilitação em outro estado de onde ele não havia saído até o momento. E isso havia acontecido há seis anos atrás. Quando finalmente chegaram no lugar que Elisa chamava de contenção, ela m*l respirava. Olhou para a imensidão de casas e construções que se estendia mais adiante na vertical e ficou meio deslumbrada. Eram muitas casas, muito maior do que a noção que as imagens que via pela televisão lhe passava. A entrada em si não pareceu nada demais, uma rua asfaltada subindo em meio as casas e estabelecimentos nas laterais. Ela até começou a se perguntar se a tal contenção era o nome da rua ou algo do tipo, mas depois de alguns minutos caminhando, viu Elisa acenar com a cabeça em direção a um bar e olhou na direção que a amiga indicava. Tinham alguns homens sentados mais para dentro do barzinho, a maioria sem camisa, com correntes douradas no pescoço e tatuagens amostra. Um deles levantou e se aproximou dividindo a atenção entre Elisa e ela. — Qual foi, Lis? — ele cumprimentou, Camila achou um cumprimento meio estranho, mas fingiu costume, ou ao menos tentou — Geral ficou sabendo do acidente que tu teve. — Já tô de boa — Elisa respondeu na maior casualidade — Tem como dar uma força pra levar eu e minha amiga lá em casa? A gente acabou de sair do hospital, subir nesse sol tá brabo. O cara assentiu e desviou o olhar para Camila, a olhando da cabeça aos pés sem qualquer disfarce. — A mina do asfalto? — ele perguntou a Elisa sem tirar os olhos dela — Não vai apresentar não? — Essa é a Camila — a amiga segurou a sua mão, provavelmente notando o seu nervosismo — Camila, esse é o D.J. Se pronunciava “dê-jota” mesmo, no português, e não “dee-jay” como o termo americano. Camila tentou sorrir, processando o nome, teve quase certeza de que não conseguiu esboçar nada parecido com um sorriso de verdade, ainda mais quando captou com a visão periférica o movimento de mais alguns caras armados em um canto, assim como de dois garotos sobre uma laje um pouco mais a frente... Aquilo seria a contenção? O lugar onde recebiam os policiais, como o seu pai, a tiros? Céus, o que ela estava fazendo ali? Se aqueles homens descobrissem quem ela era... — Satisfação — D.J disse, chamando sua atenção de volta com aquela fala arrastada que ela logo perceberia que muitos dos caras ali tinham. — Prazer — ela murmurou, sem saber muito bem o que responder. O que se dizia quando alguém lhe cumprimentava com satisfação? O cara sorriu para ela, como se ela fosse um peixinho fora da água, o que era exatamente como Camila se sentia. Logo vieram mais três homens do bar para se apresentar. HP era o mais forte, com tatuagens no pescoço e cabelos negros, lisos e espetados para cima com o que ela presumiu que fosse gel. Lino era alto, tinha a pele n***a e os olhos castanhos claros que estavam bastante ocupados em averiguar o seu corpo. E Edy, que tinha luzes nos cabelos, um corte baixo nas laterais e mais comprido em cima e uma pele bronzeada de sol. Ele era o único dos três que estava sem camisa, exibindo várias tatuagens, e também foi o único que lhe deu um sorriso que não pareceu ser totalmente um flerte, como os dos outros, que ainda a olhavam dos pés à cabeça daquela forma nada sutil. Ela não estava acostumada com olhares tão descarados, e a cada um deles se sentia ainda mais fora da sua zona de conforto. Notou sem querer que o tal HP e o Lino estavam armados, as pistolas platinadas aparecendo na parte de trás do cós das bermudas que usavam, ela presumiu que os outros também estavam e se perguntou, mais uma vez, se era aquilo a tal contenção. E se haviam mais deles por ali, longe das suas vistas, como os garotos na laje. O fato de ser filha de policiais nunca havia pesado tanto sobre Camila como naquele momento, todo o seu corpo parecia em alerta, pronto para disparar correndo mediante qualquer movimento em falso dos outros. — Cês tão deixando ela constrangida — Elisa falou, mas sorria para eles de modo condescendente. D.J sorriu também, os olhos grudados em Camila. — Relaxa, Lis, a pat logo logo se acostuma com os vagabundo aqui. Né não, pat? O que vocês responderiam no lugar dela? Porque na hora Camila nem soube o que dizer. Ela só assentiu e murmurou um “claro”, que apostava que ninguém havia escutado. Ainda estava assimilando a parte em que ele a chamou de pat. Ela não era pat. A Alice era pat, com os cabelos platinados, as unhas rosa e o seu lulu da Pomerânia. Camila era... Bom, ela não fazia muita ideia no momento de quem era, mas com certeza, não era uma pat. — Sério, D.J, descola umas motos pra subir com a gente, na moral — Elisa pediu. Não foi difícil notar como ela usava muito mais gírias ali no morro. Na verdade, até a postura corporal da amiga era diferente ali. Ela estava parada com uma das mãos apoiadas na cintura e a outra descansando sobre a coxa, que estava bem amostra no short curto que vestia. A mãe dela tinha mandado algumas roupas para quando tivessem alta. Camila não fazia ideia de quem levou as roupas no hospital, porque estava anestesiada na ocasião, mas ficou grata quando viu que a mãe de Elisa havia escolhido um dos seus vestidos que estavam no seu carro. Não sabia como se sentiria dentro de um dos shortinhos de Elisa, não sabia nem se eles caberiam em seu corpo, já que era mais alta e tinha mais curvas que a amiga. — Já é — D.J assentiu — Vou mandar os cria descer aqui pra levar vocês, o coroa não quer ninguém deixando a contenção hoje. A coisa tá ficando estreita esses dias. Elisa assentiu na maior compreensão. Camila havia se perdido depois da palavra coroa. Engraçado como um mesmo idioma podia ser usado de formas tão diferentes. D.J puxou um rádio da parte de trás da bermuda e trocou duas palavras com alguém do outro lado, depois guardou o rádio, se despediu com uma gíria, que Camila mais uma vez não entendeu, e voltou para o bar com os outros. Não levou um minuto para duas motos pararem do lado delas. Duas motos enormes. Camila olhou para o vestido que usava e depois para a amiga. — Como vou subir usando isso? — perguntou, preocupada. A outra sorriu. — Relaxa, esse vestido enorme não vai mostrar nada. Não era um vestido enorme. Ele só ia até os joelhos e era justo, o que não ajudou muito quando ela subiu na moto atrás do cara que pilotava. O vestido encolheu até acima do meio das coxas. Mas ela não teve tempo de fazer muita coisa em relação a isso, já que a moto em que Elisa estava já tinha partido em uma velocidade assustadora e o homem na moto em que ela estava falou: — Segura firme — ela m*l tinha passado as mãos em volta da cintura dele quando ele acelerou. Camila precisou fechar os olhos. A moto subia rápido demais, ao menos para ela, e o seu corpo doía a cada tombo pelo meio do caminho. A sensação era a de que morreria toda a vez que o homem fazia uma curva, com o vento batendo contra o seu rosto e a inclinação da moto a fazendo querer gritar. Ela só voltou a abrir os olhos quando pararam. Sentiu o cara na sua frente rir quando levou mais tempo que o necessário para soltá-lo, e então ela se forçou a afrouxar o aperto em volta dele e descer de forma desajeitada. — Obrigada — ela conseguiu murmurar antes dele assentir e ir embora junto com o outro, na mesma velocidade absurda de antes. Camila olhou ao redor. Estavam em uma rua bem estreita e pavimentada, cheia de casinhas coladas umas nas outras, algumas tinham dois andares, outras pareciam ter sido construídas aos pouquinhos, com partes novas e desproporcionais acrescentadas aqui e ali. A casa em que Elisa havia parado na frente tinha um portão de zinco pintado de preto e um muro de uns dois metros de altura, todo chapiscado. A amiga abriu o portão enfiando o braço pelo buraco na lateral e voltou a olhar na sua direção, sorrindo. — Bem-vinda ao novo lar.
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