*Narrado através da perspectiva de Camila*
Vocês não fazem ideia de como o pai de Camila era assustador quando ficava irritado. Era como se os quase um metro e oitenta de altura dele triplicassem, como se a m*ldade no olhar, sempre pairando nas íris castanhas, se tornasse mais visível. Camila sentiu Elisa se encolher ao seu lado e se a sua amiga, que sempre foi mais corajosa do que ela, estava se encolhendo, o que ela deveria fazer?
Quis correr quando o pai deu passos pesados até parar na sua frente.
— O que você disse? — ele perguntou em tom de ameaça, as mãos fechadas em punho e o olhar cravado no seu indicava que ele estava a desafiando a repetir a frase. Como se ela pudesse simplesmente engolir e transformar a verdade apenas para agradá-lo. Camila engoliu em seco, por mais que a declaração que saiu dos seus lábios de forma impulsiva fosse verdadeira, e que no momento em que gritou ela estivesse tomada por uma onda de coragem, agora se via incapaz de repetir, porque ela estava acostumada demais a adequar tudo o que fazia e dizia para agradar aos pais, e repetir o que dissera sobre a gravidez, soava como uma afronta que ela, no estado de pânico em que se encontrava, não se sentia capaz de fazer.
— Pai, o senhor não entende, eu fui dopada e... — o impacto da mão dele contra o seu rosto a calou. O tapa foi tão forte que a fez cambalear para o lado e Elisa precisou a segurar para a manter de pé. Camila voltou a olhar para o pai assustada e surpresa. Ele podia ser bastante rígido e violento normalmente, mas nunca havia a agredido fisicamente.
— É isso que pessoas como ela fazem com garotas burras como você — ele esbravejou, cuspindo as palavras e apontando um dedo na cara de Elisa. Naquele momento Camila sentiu um medo ainda maior de ele agredir a amiga, tamanha era a raiva com que a olhava.
— Ela não tem nada a ver com isso — Camila gritou, com o seu último resquício de coragem, para se sobrepor ao tom dele. Foi uma péssima ideia. A mão do pai a atingiu em cheio de novo, a sua bochecha ardia e ela sentiu o calor do sangue na sua pele no local onde o anel de família dele bateu — Pai...
— Você não é mais minha filha — ele cuspiu no chão, e ela soube que na verdade queria cuspir no seu rosto — e se quiser ter a mínima chance de continuar a morar aqui e ter o mínimo de consideração vinda da sua mãe, vai tirar essa coisa do seu ventre hoje mesmo. Aposto que o bebê é filho de um dos m*rginais amigos dessa...
— Já chega — foi Elisa quem interrompeu. Não a sua mãe, que assistia a tudo com uma expressão fria e braços cruzados. Foi a sua amiga quem se colocou na sua frente, mesmo sendo visivelmente mais fraca que o seu pai e m*l batendo na altura dos ombros dele — Você não pode falar assim com ela...
— E quem você acha que é para dizer o que eu faço na minha casa? — ele se voltou para cima de Elisa, o que fez Camila puxá-la para trás em um ato automático de desespero — Não vou deixar essa garota burra manchar o nome da minha família, essa ingênua vai tirar esse bebê, a menos que queira passar o resto da vida na rua.
— Eu não quero tirar o bebê... não quero fazer isso sem pensar — Camila disse em meio ao choro e ao caos de toda a situação, a voz m*l saía e ela estava a um passo de desistir de... seja lá o que estivesse fazendo ali.
— Eu não me importo com o que você quer, você não é nada sem mim, não é ninguém sem a sua família. Vai preferir a vida desse bebê em troca da sua vida de luxo?
— Por favor, eu não posso... não é uma questão de escolher entre uma vida e outra... Eu não quero ser uma assassina... — ela começou, m*l sabendo o que dizia. Elisa observava tudo horrorizada, no entanto, sem soltá-la, sem se afastar, sem hesitar em permanecer do seu lado.
— E não vai ser, mesmo ab0rtando — a mãe interveio pela primeira vez desde que a discussão começara, sem se aproximar e sem alterar em nada o olhar de indiferença sobre a cena. As íris esverdeadas da mãe pareciam capazes de perfurar a pele de Camila com tamanha frieza que carregavam — Essa... criança ainda não está realmente viva...
— Mãe, por favor...
O pai a segurou pelos braços, interrompendo a sua fala. Ele a chacoalhou, a fazendo olhá-lo nos olhos.
— A sua única chance de permanecer nessa casa, é indo agora tirar esse m*ldito feto da sua barriga — ele a apertava à ponto de machucar os seus braços — Você não tem escolha.
Ela já estava sendo arrastada por ele em direção a porta quando as palavras reverberaram na sua mente.
Você não tem escolha.
Ela nunca teve escolha, não com eles. Nunca escolheu o que queria ser, quem queria ser ou o que queria vestir. Nunca escolheu a dieta que seguia, os amigos que podia levar para casa ou a faculdade que cursaria. Sempre foram eles, a vontade deles, os gostos deles, o orgulho deles... e tudo isso para quê? Para ser repudiada na primeira “falha” sem ter chance de sequer se explicar. Para ter negado o direito de decidir o que era feito com o seu corpo sem sequer poder argumentar. Naquele momento, com o sangue quente nas veias, o rosto coberto de lágrimas e as mãos tremendo de medo, ela percebeu que se cedesse àquilo, assinaria a sua sentença formalizando que seria uma marionete nas mãos dos pais pelo resto da vida.
E ela simplesmente não se achava mais capaz de suportar algo assim.
— Não — falou, fraco demais pelo choro, então tentou mais uma vez: — Não!
O grito fez o pai interromper o processo de a arrastar, e Elisa, que vinha logo atrás mandando que ele parasse com aquilo, trombou nas suas costas.
— O que você disse? — o pai rosnou perto do seu ouvido. Ela precisou de uma força enorme para ter coragem de formar as palavras seguintes:
— Eu disse não, não vou tirar o bebê, não por sua vontade.
Achou que ele fosse lhe bater novamente, mas ao invés disso, ele deu as costas e subiu as escadas para o segundo andar, de dois em dois degraus. Ela presumiu o que ele havia ido fazer quando ouviu o baque do lado de fora. Camila saiu para o jardim em frente a casa, totalmente entorpecida, à tempo de ver as suas coisas sendo lançadas para fora da janela do seu quarto. Elisa a abraçou pela cintura, já que era um palmo mais baixa que ela, e as duas ficaram ali vendo todas as coisas que os pais lhe compraram ao longo dos anos serem lançadas na grama. A mãe não saiu em momento algum para ajudar, ou gritar, ou fazer qualquer coisa além de lançar um último olhar na sua direção, como se Camila fosse um cão de rua miserável, e subir para o quarto.
Ela não soube quanto tempo levou até ele terminar de lançar tudo do segundo andar abaixo, mas seu brado a mandando sumir das vistas dele foi o bastante para fazer Elisa a esticar pelo braço.
— Vamos, amiga — a chamou, dava para ver a compaixão nos olhos castanhos dela, o que só fazia Camila sentir mais vontade de chorar por perceber como era digna de pena — Eu vou te ajudar a pegar as suas coisas.
Por um momento, ela sentiu vontade de deixar tudo aquilo ali no gramado. Mas a quem estava tentado enganar? Já nem sabia aonde iria morar, não tinha porque ficar sem ter o que vestir também.
Ela e Elisa pegaram todas as roupas e levaram para o carro, foram quase dez viagens de ida e vinda. A maioria das maquiagens havia se estragado, os cremes de pele super caros haviam se apatifado no chão. Sem saber mais o que significava a palavra dignidade, ela catou tudo o que dava para aproveitar antes de ir para o carro de forma definitiva. Tentou olhar para trás enquanto seguia até o veículo na garagem, mas Elisa não deixou. A amiga alisou o seu braço e disse, enquanto a apoiava pelo caminho de placas de concreto:
— Mantenha os olhos à frente, amiga. Nada de olhar para trás agora, já chega disso tudo — ela entrelaçou as mãos das duas antes de completar: — A sua nova vida começa a partir de agora, ok? Agora você vai ser a Camila e não mais a marionete de ninguém.
— Isso é muito poético — ela retrucou, fungando — Mas eu nem sei para onde eu vou, como acha que vou começar uma nova vida assim?
Elisa sorriu de forma solidária.
— É claro que sabe para onde vai — ela abriu a porta do carona do carro e entrou — Vamos para a minha casa, madame — Camila nem se deu ao trabalho de pensar naquilo, talvez apenas não tivesse condições de pensar em nada no momento. Assim que deu a volta no veículo entrou, Elisa a olhou com um pouco mais de preocupação — Acha que tem condições de dirigir?
Ela assentiu, secando as lágrimas.
— Claro que tenho, vamos chegar sãs e salvas.
Bem, ela estava completamente errada. Até conseguiu dirigir bem enquanto seguia para fora do seu bairro e depois enquanto atravessava a cidade até o morro que ficava do lado oposto da zona onde morava com os pais. Mas quando faltavam pouco mais de dez minutos para chegarem ao local que a amiga chamava de contenção da comunidade onde morava, uma chuva torrencial começou a cair. Camila desviou o olhar da pista por um segundo para olhar o celular na sua perna que havia vibrado. Ela acreditou, com um último fio de esperança, que poderia ser uma mensagem dos pais, algo sobre o arrependimento deles. Foi só por ter essa esperança tola que decidiu olhar rapidamente o visor e checar a possibilidade de poder voltar, de poder resolver isso tudo de um modo menos drástico...
Não achou que fosse ter problema desviar o olhar da pista para isso, já que nem sequer estava dirigindo em alta velocidade, mas no segundo seguinte, quando levantou o olhar do celular após ver que era apenas a mensagem da operadora do aparelho, havia uma moto em altíssima velocidade saindo de um cruzamento. Por instinto, ela virou o volante para não acertar o motociclista. A última coisa que ela viu antes de perder a consciência, foi tudo virar de ponta cabeça do lado de fora das janelas, enquanto o grito de Elisa inundava os seus ouvidos.