Capítulo 4 - A hora da verdade

1615 Words
*Narrado através da perspectiva de Camila* Não é preciso dizer a vocês como a constatação de Elisa fez Camila entrar em pânico instantaneamente. Ela até acreditou que fosse desmaiar no meio do corredor, sentindo uma tontura tomar o seu corpo enquanto as mãos ficavam frias e o coração disparava, mas a Elisa, delicada como sempre, lhe deu uns t*pas no rosto e mandou ela parar de frescura. — Não é hora para isso, mulher — Elisa disse, firme, já segurando a sua mão e a levando em direção as escadas que davam acesso ao nível inferior do prédio. Era meio da manhã, e naquele horário os outros estudantes estavam ocupados nas suas devidas aulas, o que garantia as escadas livres de ouvidos curiosos, para um mínimo alívio de Camila. A última coisa de que precisava naquele momento era de algum fofoqueiro espalhando a hipótese da sua possível gravidez por ali — Temos que descobrir se isso é verdade — Elisa completou, obstinada. Enquanto Camila a seguia completamente aturdida, a amiga continuava a falar sobre testes, resultados e possibilidades, sobre exames e tudo ficar bem no final... Camila não tinha certeza se estava ouvindo todas as palavras da outra, ou se as registrava da forma certa, na verdade, ela não sentia muito bem o próprio corpo, e m*l sabia como estava sendo capaz de não tropeçar nos degraus. — Ainda é possível que não seja nada, afinal, a sua menstruação não atrasou, não é? — a amiga perguntou, no interminável tagarelar de quem quer levantar todas as possibilidades contrárias a uma catástrofe em um último esforço de manter a esperança. Assim que as palavras de Elisa penetraram a parte consciente do cérebro de Camila, ela travou no meio da escada, o que quase desequilibrou as duas por ainda estarem de mãos dadas. Elisa a olhou com uma expressão pasma. — Eu não acredito... — a amiga disse pausadamente, virando o corpo para olhá-la totalmente. — A minha menstruação nunca foi regular e eu achei... — Camila tentou argumentar, talvez mais para si do que para a outra. — Quanto tempo tem desde a última vez que ela veio? — Elisa a interrompeu, sendo sempre a mais prática e racional das duas. A respiração de Camila já estava irregular, ela fechou os olhos tentando lembrar qual fora a última vez e só então se deu conta de que havia sido há tempo demais, mesmo com o seu ciclo sendo irregular. — Foi antes da... noite na boate — constatou em voz alta. Elisa soltou um palavrão e passou a mão no rosto. — Tudo bem — ela começou a enrolar os longos cabelos negros sobre o ombro, agora parecia tão desesperada quanto Camila, talvez notando como estavam se esgotando rapidamente todos os argumentos em prol da esperança de aquilo ser apenas um engano — Um passo de cada vez. Primeiro vamos fazer um teste. A amiga voltou a puxá-la para descer a escada. A mente de Camila ainda insistia em se recusar a aceitar a possibilidade de uma gravidez. Ela não poderia estar grávida, seria azar demais. Foi Elisa quem comprou os testes de gravidez, já que Camila jamais teria coragem de entrar na farmácia e fazer aquilo. A amiga praticamente correu, mesmo tendo as pernas mais curtas que as suas, e a fez precisar acelerar o passo para a acompanhar. A levou direto para o banheiro do andar menos movimentado do prédio da faculdade e lhe entregou a sacolinha com os testes. — Aqui, é só fazer xixi no potinho e depois mergulhar a tirinha lá até a marquinha indicada. Espera cinco segundos para tirar do xixi e depois trás para a gente esperar juntas os cinco minutos até o resultado — Elisa a abraçou de uma forma meio desesperada, esmagando o seu corpo — Vai dar tudo certo — prometeu um segundo antes de a empurrar para dentro da cabine, e antes de fechar a porta, acrescentou: — Faz todos eles, por via das dúvidas. Fazer xixi em um potinho com as mãos tremendo era uma tarefa bem complicada, mas por fim ela conseguiu. Mergulhou as três tirinhas até a marca, contou até dez só para garantir e depois as tirou do copinho e o jogou no cesto do lixo. Quando saiu da cabine, encontrou Elisa a esperando sentada sobre o balcão da pia do banheiro, enrolando os cabelos no dedo. — Ok, vamos marcar os cinco minutos — a amiga falou, tomando o controle da situação novamente, antes de pular do balcão e pegar os testes da sua mão. Camila não protestou, não sentia coragem o bastante para ver o resultado, por isso virou de costas. Só voltou a olhar na direção da mão da amiga quando ouviu mais um palavrão seguido de: — Deram positivo, os três. Ela precisou correr de volta para a cabine para vomitar, dessa vez não achou que tenha sido um enjoou causado pelo bebê. *** — Eu não posso fazer isso, não posso fazer isso... — como um mantra, Camila repetia a frase pelo trajeto até a sua casa. Estava levando Elisa para casa junto com ela pela primeira vez desde que se tornaram amigas, e infelizmente não era pelos melhores motivos. — Você precisa, amiga — Elisa apertou o seu joelho por cima da saia que usava naquele dia — Eu vou estar lá com você. Era uma das atitudes mais bonitas que alguém já fizera por ela. Elisa sabia que os seus pais não gostavam dela, Camila havia contado quando precisou justificar porque não a convidaria para as festas dos seus últimos três aniversários. E ainda assim, ali estava ela, sentada ao seu lado no seu carro indo direto para a casa de um casal que, se pudesse, teria o prazer de a jogar atrás das grades simplesmente por morar na favela. — Será que não podemos contar depois? — Depois quando, Camila? — sentia o olhar de Elisa sobre o seu rosto, mas permaneceu com os olhos grudados na pista — Você já disse que não acha que quer tirar o bebê, então precisa contar logo aos seus pais para começar a fazer o pré-natal, ou ao menos para pensar em todas as reais possibilidades que você tem. As duas haviam tido uma breve conversa sobre o tópico ab*rto, ainda no banheiro da faculdade. Aparentemente nenhuma delas achava uma boa ideia, Camila por não ter coragem, e Elisa por acreditar que seria mais saudável falar primeiro com os seus pais. Pois é, a Elisa não fazia mesmo ideia de quem eram os seus pais, só isso explicava a possibilidade de ela achar que uma conversa sobre esse tópico com eles seria saudável. Nada no mundo poderia ser menos saudável do que aquilo. Mas, infelizmente, Camila não conseguiu a convencer desse fato. Elas chegaram na sua casa pouco depois da hora do almoço. Por ser sexta-feira, Camila sabia que os pais estariam em casa, já que combinavam as suas folgas semanais. Ela m*l sentia as pernas quando saiu do carro após entrar na garagem de casa, era incrível como o medo podia entorpecer os sentidos de uma pessoa. Elisa segurou a sua mão antes de entrarem pela porta principal. Para o seu desespero, os seus pais estavam na sala, assistindo a uma partida de algo que no seu nervosismo ela não conseguiu discernir. — Não disse que iria trazer visitas, filha — a mãe se levantou, ajeitando o r**o-de-cavalo alto que usava nos cabelos lisos que haviam ganhado luzes para o verão. A sua mãe era linda, alta, com um corpo de curvas perfeitas, pele bronzeada, olhos verdes claros que Camila havia herdado, e os longos cabelos que ela fazia questão de sempre manter alisados e presos no seu típico r**o-de-cavalo. No entanto, a beleza nunca parecia capaz de esconder a dureza e a sagacidade sempre presente nos seus olhos — Eu teria mandado a Lucrécia preparar algo diferente para o almoço. Ver a forma como a mãe já olhava Elisa de cima a baixo fez Camila quase travar antes de dar seguimento ao diálogo. Precisou respirar fundo antes de dizer, torcendo para os dois disfarçarem a reação: — Essa é a Elisa... — Trouxe ela para nossa casa? — o pai levantou no mesmo instante. Os olhos castanhos varrendo o corpo da sua amiga com desprezo — Ensinou o caminho da nossa casa para ela? O que acha que ela vai fazer com essa informação? E lá estava a total falta de senso e o absurdo escancarado de preconceitos do seu pai sendo exibidos para quem quisesse ver. — Eu não pretendo fazer nada, senhor, vim apenas acompanhar a Cah para... — O nome dela é Camila, e você não deveria acompanhar ela nem aqui e nem em lugar algum — ele bradou, interrompendo a tentativa educada de Elisa de lidar com a situação. Camila quis correr dali, e olha que sabia que aquela nem seria a parte mais difícil da conversa — gente da sua laia só serve para colocar garotas como a minha filha no m*l caminho... Ele continuou a falar. A mãe assentia, concordando com cada ofensa, enquanto Elisa engolia as palavras ficando cada vez mais vermelha de raiva. Aquilo foi criando um bolo na mente de Camila, algo que ela não sabia bem como controlar. Tristeza, revolta, raiva, medo... não soube exatamente qual dos sentimentos a dominou, só soube que de repente estava gritando: — Eu estou grávida. A sala ficou em silêncio. Elisa apertou a sua mão em apoio. A respiração do seu pai estava alterada, saindo rápida demais. Ele desviou o olhar até ela e travou o maxilar. E Camila engoliu em seco, se preparando para o pior.
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