*Narrado através da perspectiva de Camila*
10:58h Camila: Que merda fez comigo? Tá louca?
Ela enviou a mensagem com as mãos tremendo e encarou a tela do celular até que o display apagasse, e continuou encarando pelos minutos que se seguiram, torcendo para que o seu rompante de coragem não acabasse antes da outra responder. Quando começou a acreditar que não teria resposta, sentiu o aparelho vibrar nas suas mãos.
11:23h Alice: Do que vc está falando? ?
11:23h Alice: Não vem dá uma de arrependida. Você queria.
11:24h Alice: ?Vídeo
Com as mãos ainda tremendo de nervoso e o estômago embrulhando, Camila abriu o vídeo enviado em anexo na mensagem. A ânsia de vômito veio nos primeiros segundos, enquanto via a sua própria imagem sendo gravada de um ângulo meio torto. Ela beijava Alice enquanto as suas roupas eram arrancadas por mãos masculinas.
Céus, ela nem sequer podia ter certeza sobre a quem pertenciam aquelas mãos.
11:24h Alice: Você topou, amiga. Sabia que eu queria ficar com o cara e que ele só aceitaria se fosse nós duas.
11:24h Alice: Aliás, obrigada. Você foi ótima ❤
Era tanto cinismo que fez Camila jogar o celular no chão. Como Alice havia sido capaz de fazer algo assim? Elas não eram... amigas?
Camila sentiu uma enorme raiva de si mesma pelo pensamento estúp*do, por ainda cogitar que a outra fosse qualquer coisa próxima a uma amiga depois de fazer algo assim. Ela estava perdida em um mar de confusão, medo e raiva. Não tinha ideia do que fazer, o desespero a deixava tonta, a cabeça doía pelo medo, pela ressaca, pela falta de noção de como agir. Se contasse aos pais, mesmo tendo provas de que fora dopada, o que ela não tinha, eles a acusariam. A culpariam. Diriam que era aquilo o que acontecia com meninas de família que se enfiavam em buracos como aquela boate.
Ela não podia contar aos pais. Nem aos avós. Nem a maioria das colegas que tinha. Todos a julgariam... Exceto uma pessoa, ela logo se deu conta. A única que não apontaria o dedo na sua direção e diria que a culpa era sua. Elisa, uma garota com quem fizera amizade no primeiro dia da faculdade. Os pais de Camila não suportavam a garota por ser moradora de favela. Já Camila sempre a admirou por ser uma ótima aluna, por descer o morro todos os dias para estudar e por ter conquistado uma bolsa integral de estudos mesmo tendo cursado o ensino médio em uma escola precária do estado.
Ela ligou para Elisa sem pensar duas vezes. m*l ouviu a voz da amiga do outro lado da linha e começou a atropelar as palavras, tentando segurar o choro, a vergonha e o enjoou que as lembranças traziam.
— Você precisa respirar, amiga — Elisa falou, a voz de quem tentava passar tranquilidade, mas Camila podia ouvir o tremor no fundo da voz da outra, o tom mais agudo que indicava que até a sua amiga, que normalmente lidava bem com notícias ruins, estava nervosa com o que lhe acontecera. Isso só fez o pânico no seu peito aumentar — O pior já passou, mulher — Elisa continuou, dessa vez mais firme, processando a informação — Agora o mais importante é saber se o tal cara estava usando proteção.
— Proteção? — Camila retrucou, fungando.
— É, gata, proteção, camisinha. Você pode tá correndo o risco de pegar alguma doença ou de engravidar.
— Engravidar? Mais eu era virgem!
— E o que tem isso? — Elisa rebateu — Mulher, virgem também engravida na primeira vez, larga de ser bobinha — ouviu a amiga suspirar do outro lado — Ok, escuta. Amanhã nós vamos para a faculdade e vamos perguntar aquela p*ranha da Alice que m*rda ela fez e se o cara tava protegido. Enquanto isso, pensa em como vai contar isso para os seus pais, para denunciar e...
— Não, eu não... Não posso. Eles vão me matar...
— Cah... — Elisa tentou argumentar, mas ela não deu brecha. A amiga podia até estar querendo ajudar, mas não fazia ideia do que aconteceria se aquilo chegasse aos ouvidos dos seus pais, não importava o quão m*l ela estava se sentindo ali, se eles soubessem a fariam sentir ainda pior.
— Está fora de cogitação. Eles vão me culpar, todos vão me culpar. Você sabe como é a justiça desse país, não sabe? Não importa se eu fui dopada ou não, eles sempre colocam a culpa nas mulheres — o choro voltou a lhe sufocar. Aquilo não podia estar acontecendo, se já era r**m demais saber que perdera a virgindade para um cara qualquer que sequer lembrava o rosto, era ainda pior saber que agora corria riscos de saúde e de uma gravidez indesejada, e de ser rechaçada pelo seu círculo social. Pelo amor, os pais literalmente a matariam se houvesse uma gravidez. Ninguém na família Garcia passara por tal vexame, eles não seriam os primeiros a passar por sua causa. Com certeza preferiram não ter uma filha à ter uma que os envergonhasse socialmente.
— Tá tudo bem, amiga. Vai ficar tudo bem... — Elisa continuou tentando lhe consolar por quase uma hora depois disso, até o seu pai entrar no quarto e arrancar o celular da sua mão, informando que ficaria sem o aparelho por conta do castigo. Ela tinha quase certeza de que ele havia tomado o celular por saber com quem estava conversando. Os seus pais odiavam os favelados mais do que odiavam qualquer outra coisa no mundo.
Um ódio que vocês logo notarão que vai tornar toda essa história bem mais irônica.
***
Na manhã seguinte, a primeira coisa que Elisa fez após encontrar Camila na frente da faculdade e quase a sufocar com um abraço, foi a arrastar em busca de Alice. Elas a encontraram no banheiro do andar do seu curso. Elisa foi logo trancando a porta após entrarem no ambiente.
— Quê que te deu na cabeça pra levar a Cah pra uma enrascada dessas? — Elisa exigiu saber antes mesmo que Alice, preocupada em retocar a maquiagem diante do espelho, registrasse a presença das duas. Enquanto esperava a reposta, Elisa adotou a postura cheia de marra que Camila quase nunca a via usar. Uma vez a amiga havia lhe explicado que falar daquele jeito era a forma mais eficaz de se impor lá onde ela morava. Por lá, ou você se colocava ou era rebaixado pelos outros. Camila sempre achou engraçado ver Elisa se impor daquela forma, mas naquela manhã foi a primeira vez que gostou de verdade do resultado da postura dela, ao ver Alice estremecer e arregalar os olhos.
— Eu não levei, ela que quis ir — a loira retrucou, a voz trêmula, e desviou o olhar para Camila — Fala para ela, amiga.
— Eu realmente fui porque quis, mas não quis ser dopada — ela se esforçou para manter a pose e não voltar a chorar — Por que você fez isso?
— Não sei do que você está falando, amiga...
— Para de chamar ela de amiga, oh p*ranha — Elisa interrompeu. A vermelhidão na pele dela mostrava como estava começando a ser tomada pela raiva de verdade — Não vem com esse caô pra cima da gente, não. Tua sorte é que a Camila é da paz, se fosse comigo, na minha quebrada... — Elisa deu um passo à frente, fazendo a loira recuar até bater os quadris na pia do banheiro — Tu ia ficar careca só pra deixar de ser traíra.
Naquele momento Elisa era a pessoa mais intimidante que Camila já vira. Mesmo com os seus um metro e sessenta, o rostinho em forma de coração que normalmente era fofo e os longos cabelos negros até a altura dos quadris que a faziam parecer uma patricinha morena, ainda assim, naquele momento era como ver uma fera prestes a acabar com a presa loira e trêmula à frente. Aquela coisa de se impor era mesmo eficaz.
— Camila... — Alice chamou, assustada.
— A gente só veio aqui saber uma coisa — Elisa interrompeu, dando um passo para trás — O cara que dormiu com vocês, tava usando proteção?
— Claro que estava — a loira respondeu imediatamente, as lágrimas transbordando dos olhos verdes e a ponta do nariz ficando vermelha pelo choro — Eu juro.
— Como se a sua palavra valesse alguma coisa — Elisa murmurou meneando a cabeça — Vê se fica longe da Camila, ok?
— Ok — a loira pareceu aliviada ao ver as duas deixando o banheiro.