Beatriz narrando Toda vez que o caveirão ronca lá embaixo dá aquele friozinho filho da p**a no estômago, o corpo já sabe o roteiro: mão sua, perna amolece, ouvido vira antena. Aí eu lembro — graças a Deus — que o Felipe não tá na pista. Tá preso, é um inferno, é injusto, mas hoje não é ele no meio do tiroteio. Hoje eu não corro atrás de corpo. Respiro, encosto na parede gelada da sala e solto um “obrigada, meu Pai”, baixinho, pra ninguém ouvir a tremedeira da minha fé. Primeiro pipoco estalou seco, vizinha já começa com a cachorra latindo como sirene de guerra. Helicóptero riscando o céu, aquele zunido que arrepia até pensamento. Eu já vou no automático: apago metade das luzes, puxo cortina sem barulho, celular no silencioso, chave girada duas vezes. “Meninaaaas, vamo pro quarto da mamã

