02

1343 Words
02 — Ethan Narrando Se tem uma coisa que sempre definiu a minha vida foi controle. Controle sobre a empresa, sobre números, sobre decisões e principalmente sobre pessoas. Eu sempre fui o tipo de homem que antecipa problemas, calcula riscos e domina situações antes mesmo que elas aconteçam, e foi exatamente isso que me transformou no CEO que todos respeitavam e temiam. Mas dentro da minha própria casa, por mais contraditório que pareça, eu nunca consegui controlar a única coisa que realmente importava: os meus sentimentos. Para qualquer pessoa que olhasse de fora, a minha vida era perfeita. Eu comandava uma empresa gigantesca em crescimento constante, fechava contratos milionários quase toda semana e vivia cercado por luxo, poder e reconhecimento. Morava em Manhattan, em um apartamento enorme com vista para a cidade inteira, tinha carros na garagem que m*l tinha tempo de dirigir e uma agenda que parecia nunca me dar trégua. Mesmo assim, nada disso era o que realmente fazia diferença quando eu chegava em casa no fim do dia. O que mudava tudo era ela. Camila. Brasileira, intensa, cheia de vida, carinhosa de um jeito que eu nunca tinha visto antes. Eu era mais fechado, mais direto, mais racional. Talvez por isso a gente tivesse dado tão certo no começo. Talvez por isso também os choques entre a gente tivessem começado a aparecer com o tempo. Naquela manhã acordei antes do despertador, como sempre. Levantei com cuidado para não acordar ninguém e fui direto para o banheiro, mas quando voltei encontrei Camila já sentada na cama, os cabelos bagunçados caindo no rosto enquanto me observava em silêncio. — Você vai sair cedo de novo? — perguntou, a voz ainda rouca de sono, puxando o lençol para se cobrir melhor. Peguei o relógio na mesa de cabeceira e coloquei no pulso. — Tenho reunião com investidores. Ela fez uma careta leve, apoiando o queixo no joelho dobrado. — Você sempre tem reunião. Soltei um meio sorriso enquanto abotoava o punho da camisa. — É o preço de manter essa vida que você gosta. Antes mesmo que eu terminasse a frase, um travesseiro acertou meu ombro. Segurei no ar por reflexo e encarei ela. — Eu gosto de você, não do seu dinheiro — retrucou, tentando parecer séria, mas claramente divertida. Aquilo sempre me fazia relaxar. Aquela mistura de provocação e carinho era o que tornava tudo mais leve entre nós. Antes de sair, passei no quarto da Lily, como fazia todos os dias. Ela ainda tinha poucos meses e parecia impossível que um ser tão pequeno tivesse mudado completamente a minha forma de enxergar o mundo. Encostei o dedo na palma da mãozinha dela e senti quando apertou com força, como se estivesse me segurando ali. Naquele instante tudo parecia fazer sentido. O dia na empresa foi sufocante, cheio de reuniões intermináveis e negociações tensas, e quando finalmente consegui sair eu estava exausto, só pensando em voltar para casa, jantar com Camila e pegar a Lily no colo. Mas assim que entrei no apartamento senti que o clima estava diferente. Caminhei até o quarto e encontrei minha esposa em frente ao espelho, completamente arrumada, usando um vestido colado ao corpo que desenhava cada curva enquanto ela ajustava o cabelo solto sobre os ombros. — Você tá se arrumando? — perguntei, ainda parado na porta. Ela virou sorrindo. — Tô. Vou sair com as meninas. Só um café. Franzi a testa imediatamente e deixei minha pasta cair sobre a poltrona. — E a Lily? Camila pegou a bolsa sobre a cama com naturalidade. — Ué… você fica com ela. A babá tá aí também. Aquilo me incomodou na hora. — Eu achei que a gente fosse ficar junto hoje. Ela suspirou fundo, fechando os olhos por um instante antes de me encarar. — Ethan, eu fico em casa todos os dias. Eu só vou sair um pouco. Não tem problema nenhum nisso. Talvez não tivesse. Mas dentro de mim alguma coisa apertou. Meu olhar voltou para o vestido. Curto demais. Chamativo demais. — Você vai sair assim? Ela cruzou os braços devagar. — Assim como? — Chamando atenção. O sorriso dela desapareceu aos poucos. — Você tá falando sério? — Tô. O silêncio que se formou entre nós foi pesado. Eu sabia que estava exagerando, sabia que ela nunca tinha me dado motivo, mas ainda assim não consegui recuar. — Troca de roupa. Camila me encarou por alguns segundos antes de soltar uma risada sem humor. — Você tá mandando em mim agora? Dei um passo à frente. — Eu só não gosto desse vestido. Ela balançou a cabeça lentamente, o olhar já cansado. — O problema não é o vestido, Ethan… o problema é você. Aquilo me irritou mais do que deveria. Eu passei a mão pelo rosto, tentando manter a calma enquanto caminhava mais para dentro do quarto, sentindo o cansaço do dia inteiro pesar ainda mais sobre os meus ombros. — Por quê? — perguntei, parando perto da cama. — Eu estava trabalhando. Eu cheguei agora. Eu sei que já são mais de oito da noite, mas eu estou em casa e você está se arrumando para sair e não me falou nada o dia todo. Ela virou o corpo completamente para mim, segurando a bolsa contra o quadril como se aquilo fosse uma forma de se proteger. — Ah, mas você disse que ia chegar cedo — respondeu, com a sobrancelha arqueada. — Você saiu cedo de casa falando que hoje voltaria mais cedo. Eu soltei o ar com força, irritado comigo mesmo e com a situação. — Eu não consegui chegar — falei, passando a mão pela nuca. — Você sabe como é. Ela deu um meio sorriso sem humor. — Tudo bem. Agora eu vou encontrar minhas amigas. Vou tomar um drink. Franzi a testa imediatamente. — Ué… não era café? — perguntei, encarando ela. — Agora já virou bar pra beber drink? Ela revirou os olhos, claramente perdendo a paciência. — Não começa, Ethan. Não começa, por favor. O jeito que ela falou aquilo acendeu algo dentro de mim. Dei mais um passo na direção dela. — Vai trocar o vestido — falei, firme. Ela abriu a boca em descrédito. — Mas eu acabei de trocar. — Vai trocar de novo — retruquei sem hesitar. — Coloca uma calça, um casaco… qualquer coisa. Ela soltou uma risada nervosa, sem acreditar no que estava ouvindo. — Você tá falando sério? — Você é minha mulher — respondi, mantendo o olhar preso no dela. — Você não vai sair assim. Ela ficou em silêncio por alguns segundos, respirando fundo como se estivesse tentando se controlar. — Eu posso mandar o segurança te levar — completei. — Assim você não precisa ir sozinha. — Eu não quero segurança nenhum — respondeu rapidamente. — Eu quero ir no meu carro. Sozinha. — Pra quê? — perguntei, sentindo a irritação crescer. — Pra “espairecer”? Ela assentiu, o olhar ficando mais pesado. — Sim. Pra espairecer. Eu fico dentro dessa casa o dia inteiro, Ethan. O dia inteiro. Você fala que vai chegar cedo e nunca chega. Aquela frase bateu forte, mas o orgulho falou mais alto. — Eu trabalho pra manter essa vida. — Eu não pedi essa vida — rebateu, a voz subindo um pouco. — Eu pedi você. O silêncio caiu entre nós por um segundo. Eu desviei o olhar, caminhando até a janela e passando a mão no rosto, tentando organizar a cabeça. — Então eu vou ficar sozinho em casa com a Lily? — perguntei, voltando a encarar ela. — Que horas você pretende voltar? Ela deu de ombros. — Eu vou conversar com as minhas amigas, vou fazer o que eu gosto de fazer. A Lily vai ficar com a babá… e você vai ficar. Franzi a testa. — Eu vou ficar o quê? Aonde? Ela respondeu na mesma hora, sem pensar duas vezes. — No escritório trabalhando. É o que você faz o dia todo mesmo. Aquilo me atingiu como um soco.
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