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1524 Words
01 — Tainá Narrando Se alguém tivesse me perguntado naquela época se eu era feliz, eu teria respondido sem pensar; muito. Minha vida não era perfeita, mas era boa. Era tranquila. Era segura. Eu tinha uma rotina que fazia sentido, um trabalho que eu amava e pais que eram simplesmente tudo pra mim. Eu acordava todos os dias sabendo exatamente pra onde estava indo e o que queria construir. Eu tinha planos. Muitos planos. Eu era professora de crianças em uma escola particular. Não era uma escola qualquer. Era uma daquelas bem organizadas, com uniforme impecável, sala climatizada, material didático caro e pais extremamente exigentes. Eu dava aula para turmas pequenas, o que permitia conhecer cada aluno de verdade. Eu sabia quem tinha medo de escuro, quem não gostava de matemática, quem fingia dor de barriga pra não fazer prova. Eu sabia quem precisava de mais atenção e quem só queria ser ouvido. Eu gostava daquela sensação de ser importante na vida de alguém. Eu chegava cedo, sempre com café na mão e bolsa cheia de atividades. Minha sala era toda colorida porque eu fazia questão de decorar tudo. Cartazes, desenhos, letras recortadas. Eu mesma colava tudo na parede. As outras professoras brincavam dizendo que eu parecia mais animada que as próprias crianças, talvez fosse verdade. Eu tinha vinte e seis anos e já tinha terminado faculdade, feito especializações e conseguido um emprego estável. Meus pais tinham muito orgulho disso. Minha mãe principalmente. Ela vivia contando pra todo mundo que a filha dela era formada, professora e trabalhava em escola particular e era independente. Independente… mais ou menos. Porque mesmo trabalhando e ganhando meu próprio dinheiro, eu ainda morava com eles. E, sinceramente, nunca vi problema nisso. Nossa casa ficava em um condomínio fechado. Não era coisa de milionário, mas era um lugar bonito, seguro, com portaria, área verde, piscina e vizinhos que se conheciam pelo nome. Era a casa própria dos meus pais, comprada depois de muitos anos de esforço. Eu cresci ali. Cada canto tinha uma lembrança minha. Meu pai tinha uma pequena empresa. Nada gigantesco, nada que aparecesse em revista, mas era um negócio estável. Ele trabalhava muito, saía cedo e voltava cansado, mas sempre fazia questão de jantar com a gente. Além disso, ele tinha algumas casas de aluguel. Eram investimentos antigos que ele foi construindo aos poucos, tijolo por tijolo. Ele sempre dizia que segurança financeira vinha da constância, não da sorte. Minha mãe cuidava de tudo dentro de casa. Era organizada num nível quase absurdo. Tinha dia certo pra lavar roupa, pra trocar lençol, pra fazer compras. Ela sabia exatamente quanto tinha no mercado, quanto faltava e o que precisava repor. Eu brincava que ela conseguiria administrar um exército inteiro só com uma planilha e uma caneta. A relação que eu tinha com eles era a melhor coisa da minha vida. A gente conversava sobre tudo. Tudo mesmo. Sobre trabalho, sobre política, sobre vizinho fofoqueiro, sobre novela, sobre os planos que eu tinha de fazer mestrado. Meu pai gostava de ouvir quando eu contava histórias das crianças da escola. Ele ria, fazia perguntas, parecia genuinamente interessado. Minha mãe ficava orgulhosa quando eu chegava em casa dizendo que algum pai tinha me elogiado ou que a coordenação estava satisfeita comigo. Eu me sentia segura naquele ambiente, protegida. Nunca imaginei que algo pudesse destruir aquilo. Nos fins de semana a gente costumava almoçar junto, sem pressa. Meu pai fazia churrasco mesmo quando não tinha visita. Dizia que carne na brasa melhorava qualquer humor. Eu ajudava minha mãe na cozinha, cortando salada, arrumando a mesa, ouvindo ela reclamar que eu precisava arrumar um namorado. — Você não pode viver só pra escola, Tainá — ela falava. Eu ria. — Posso sim. Na verdade, eu achava que tinha tempo. Tempo pra tudo. Tempo pra amar, tempo pra viajar, tempo pra crescer profissionalmente. Nada parecia urgente. Nada parecia perigoso. Eu vivia como se o mundo fosse um lugar previsível, como se as pessoas que eu amava fossem eternas. Como se o amanhã estivesse garantido. Naquela época, eu ainda não sabia que a vida podia mudar de uma hora pra outra. Nem imaginava que o nome que meus pais escolheram com tanto carinho um dia seria o mesmo nome estampado em uma acusação de assassinato. E que eu seria obrigada a fugir de tudo o que já tinha sido meu. Minha rotina era puxada. Muito mais do que as pessoas imaginavam quando ouviam que eu era “só professora”. Eu dava aula de manhã e à tarde. Turmas diferentes, níveis diferentes, crianças diferentes. Era energia o tempo inteiro. Grito, risada, pergunta, dúvida, atividade, recreio, coordenação chamando, pai mandando mensagem no aplicativo da escola. Quando eu finalmente saía de lá, parecia que tinha corrido uma maratona emocional, mesmo assim, eu gostava. Naquele dia específico eu cheguei em casa já quase no início da noite. Estava cansada, com a garganta meio arranhando de tanto falar o dia inteiro e a cabeça cheia de coisas pra preparar pro dia seguinte. Entrei pelo portão do condomínio já tirando o cabelo do rosto, equilibrando bolsa, lancheira e uma pasta cheia de atividades. Nossa casa estava toda iluminada. Isso sempre me dava uma sensação boa. Abri a porta e o cheiro de comida pronta me abraçou na hora. Minha mãe estava na cozinha, mexendo em alguma panela com aquela concentração típica dela, como se estivesse fazendo uma operação delicada. — Cheguei — falei, largando as coisas na mesa. Ela virou o rosto na hora. — Minha filha, você não para um minuto. — Nem você. A gente riu. Eu fui direto até a geladeira pegar água e beber quase metade da garrafa de uma vez só. Meu corpo inteiro parecia pedir descanso, mas minha cabeça já estava pensando nas atividades que eu ainda precisava montar. — Hoje teve reunião com os pais? — ela perguntou. — Teve. Duas mães surtando porque os filhos não querem copiar tarefa. — Normal. Normal mesmo. Aquela era a nossa vida. Simples e cheia de pequenos acontecimentos que, na época, pareciam enormes. Meu pai e meu irmão já estavam na sala. A televisão ligada em um noticiário qualquer, volume baixo, os dois conversando sobre trabalho. Era sempre assim. Os dois tinham uma ligação muito forte por causa da empresa. Meu irmão, Leonardo, era três anos mais velho que eu. Alto, postura séria, aquele jeito de quem já nasceu se sentindo responsável por tudo. Desde cedo ele decidiu que ia trabalhar com o meu pai e nunca cogitou outra coisa. — Olha quem resolveu aparecer — ele falou quando me viu. Revirei os olhos. — Boa noite pra você também. Meu pai levantou do sofá na mesma hora e veio me dar um beijo na testa. — Como foi o dia? — Corrido. — Sempre. Ele sorria de um jeito orgulhoso que eu conhecia bem. A gente foi pra mesa pouco depois. Minha mãe serviu o jantar como se estivesse alimentando um batalhão. Arroz, feijão, carne, salada, suco natural. Tudo organizado, bonito, quente. Aquela cena era tão comum que eu jamais imaginaria sentir falta dela um dia. A gente começou a comer e conversar sobre coisas aleatórias. Eu contando histórias das crianças, meu pai comentando sobre um contrato novo, minha mãe falando do condomínio, do mercado, da vizinha que tinha trocado o carro. Até que Leonardo resolveu implicar comigo. — Você ainda insiste nessa vida de professora? Olhei pra ele já sabendo o tom. — Insisto. — Você podia trabalhar com a gente. A empresa tá crescendo. Meu pai vive precisando de alguém de confiança. Você podia ser secretária, cuidar da parte administrativa… — Eu não quero. — Falei sem nem pensar. — Você prefere lidar com criança gritando o dia inteiro. — Ele deu uma risada meio debochada. — Prefiro trabalhar com o que eu gosto. — Você podia ganhar muito mais. — Dinheiro não é tudo. Ele me olhou de um jeito diferente naquele momento. Um olhar que não era exatamente raiva, mas também não era carinho. Era como se ele estivesse avaliando alguma coisa. Como se estivesse cansado de ouvir aquela mesma resposta. — Você sempre foi a queridinha — ele soltou. Minha mãe imediatamente ergueu a cabeça. — Leonardo. — O quê? Tô mentindo? Meu pai ficou sério. Eu senti o clima mudar na hora. Aquela tensão leve, quase invisível, que aparece em algumas famílias quando alguém fala mais do que devia. — Eu só escolhi minha profissão — falei. — Você escolheu a mais fácil — ele respondeu. Aquilo me irritou. — Fácil? Você acha fácil lidar com trinta crianças todos os dias? — Eu acho fácil viver no mundo perfeito que você vive. Silêncio. Eu encarei ele. — E qual é o problema disso? — Nenhum.— Ele deu de ombros, voltou a comer como se não fosse nada. Mas tinha, eu sentia. Sempre senti que Leonardo achava que eu era protegida demais. Que eu não conhecia o mundo real. Que eu vivia numa bolha criada pelos nossos pais. Talvez ele tivesse razão. Porque naquela época eu realmente acreditava que nada de r**m poderia acontecer com a gente.
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