03 -- Ethan Narrando
Aquilo me atingiu como um soco. Eu fiquei alguns segundos em silêncio, tentando organizar os pensamentos enquanto observava Camila andar pelo quarto como se eu não estivesse ali. A sensação de estar perdendo o controle da situação começou a me incomodar profundamente e, antes mesmo de pensar direito, eu falei, a voz já mais baixa, mais carregada.
— Você tá agindo… por que você tá agindo assim comigo, Camila? — perguntei, passando a mão pelo cabelo, visivelmente tenso. — Eu sempre trabalhei. Sempre tive tempo pra você… pra nossa filha. Tudo bem, nas últimas semanas eu tenho ficado mais ocupado, mas é por causa de coisas importantes. Contratos grandes, decisões pesadas… a empresa tava passando por uma turbulência e eu precisava segurar isso.
Ela não respondeu. Simplesmente virou de costas para mim e começou a abrir o guarda-roupa. Eu continuei falando, tentando fazer ela me ouvir.
— Eu tô dando o meu melhor, entende? Eu dou o meu melhor na empresa, dou o meu melhor pra vocês… e o que você tá fazendo agora é falar comigo desse jeito, como se eu fosse um estranho dentro da minha própria casa.
Ainda assim, nenhuma resposta.
Camila começou a tirar o vestido devagar, com movimentos firmes, quase duros, como se cada gesto fosse uma forma de descarregar algo que estava preso dentro dela. Pegou uma calça justa, vestiu sem olhar pra mim, depois calçou um salto e puxou uma blusa mais fechada pela cabeça. Quando terminou, virou na minha direção com um sorriso debochado.
— Pronto. Agora tá bom? — perguntou, abrindo os braços levemente. — Toda coberta. Ninguém vai me ver. É assim que você quer que eu saia, não é?
Aquilo me irritou ainda mais.
— Eu tô falando com você — respondi, dando um passo à frente. — Dá pra você me responder por que você tá fazendo isso?
Ela pegou a bolsa na cama e respondeu sem me encarar.
— Porque eu quero conversar com alguém.
— Eu tô em casa — retruquei na mesma hora. — A gente pode sentar e conversar agora.
Ela soltou uma risada curta, amarga.
— Não. Agora eu não quero mais falar com você. Agora eu quero falar com outras pessoas. Quero conversar com as minhas amigas, entende? Eu fico aqui dentro dessa casa o dia inteiro, Ethan. O dia inteiro. Vou no shopping, volto, passeio com a Lily, volto… eu já tô cansada disso.
A voz dela começou a falhar, mas ela continuou.
— Eu fico o dia inteiro cuidando da nossa filha. Essa casa é cheia de empregados, cheia de gente… mas o meu marido não tá aqui.
Aquilo apertou alguma coisa dentro de mim, mas o meu instinto foi me defender.
— Eu faço tudo por vocês — falei, mais alto. — Você tem tudo. O melhor telefone, o melhor carro, o melhor apartamento… você tem a mim. Eu te dou tudo. Se você queria mais alguma coisa, por que você não me liga? Por que você não fala comigo?
Foi quando ela explodiu.
— Você sabe que dia é hoje, Ethan?!
O grito dela ecoou no quarto. Eu congelei. Instintivamente olhei para o relógio no pulso… depois para o calendário digital no painel da parede, eu engoli seco. Quando levantei o olhar, Camila estava rindo, uma risada fria.
— Tá vendo? — ela disse, balançando a cabeça. — Você não lembrou do nosso aniversário de casamento.
O mundo pareceu ficar menor naquele instante.
— Camila… eu…
— Relaxa — ela interrompeu, já caminhando em direção à porta. — Eu tô indo comemorar o nosso dia com as minhas amigas. Tchau.
Ela passou por mim e alguma coisa dentro de mim entrou em desespero. Segurei o braço dela com força, puxando levemente para que virasse.
— Espera. Espera… — falei rápido. — Desculpa. Eu esqueci. Eu errei. Vamos sair. Eu levo você pra jantar agora. Onde você quiser. A gente comemora… eu compenso isso.
Ela tentou soltar o braço.
— Me larga, Ethan.
— Por favor — insisti. — Vamos resolver isso. Não sai assim.
— Eu não quero resolver nada agora.
— Camila…
— Eu não quero jantar com você. Eu não quero conversar com você. Eu só quero sair dessa casa. — Ela gritou na minha cara
Ela conseguiu se soltar e naquele momento eu senti uma sensação estranha. Como se estivesse deixando algo muito importante escapar pelos meus dedos.
Ela conseguiu se soltar e saiu do quarto sem olhar para trás, andando rápido pelo corredor como se eu nem existisse mais. Por alguns segundos eu fiquei parado, tentando entender o que estava acontecendo, tentando acreditar que aquilo não estava saindo do controle daquele jeito, mas a sensação de que eu estava prestes a perder algo importante me fez reagir. Saí atrás dela quase no mesmo instante, ouvindo o som do salto batendo firme no chão enquanto ela atravessava a sala e pegava o elevador sem sequer esperar por mim.
— Camila, espera — falei, entrando no elevador antes que a porta fechasse, ainda tentando manter a voz controlada. — Vamos conversar direito, por favor.
Ela continuou olhando para frente, o maxilar travado, os braços cruzados com força contra o próprio corpo, como se estivesse se segurando para não explodir de novo. O silêncio dentro do elevador parecia apertar ainda mais o meu peito. Quando as portas finalmente se abriram no subsolo, ela saiu primeiro, andando rápido em direção à vaga onde o carro dela estava estacionado, e eu fui atrás sem pensar duas vezes.
— Camila, pelo amor de Deus, não faz isso — falei, alcançando ela já perto do carro e segurando o braço dela outra vez. — A gente tá de cabeça quente. Eu também tô. Vamos subir, vamos conversar, amanhã eu não vou trabalhar, a gente viaja, a gente faz o que você quiser.
Ela puxou o braço com força, o olhar cheio de raiva.
— Me larga, Ethan. Eu vou sair.
— Não vai — respondi na mesma hora, já mais alterado. — Você não vai sair assim.
Ela abriu a porta do carro com um movimento brusco.
— Eu vou sim.
Antes que ela conseguisse entrar, puxei a chave da mão dela.
— Você tá louco? — ela disparou, virando na minha direção.
— Eu tô tentando salvar a gente — respondi, segurando a chave com força. — Você não vai dirigir assim. Você tá nervosa.
Ela riu, mas não era uma risada leve, era amarga.
— Eu não sei nem mais se eu quero continuar casada, Ethan.
Aquilo me atingiu como um soco.
— Para de falar merda — retruquei na mesma hora, sentindo o sangue subir. — Você tá de cabeça quente.
— Não, eu tô cansada — ela rebateu, a voz falhando entre a raiva e a frustração. — Eu tô cansada dessa vida. Eu tô cansada de ficar dentro de casa esperando você existir.
— Então abandona essa p***a desse carro e volta pra casa — falei, já sem paciência. — Não quero ficar aqui brigando com você nesse estacionamento.
— Eu não vou ficar aqui com você — ela respondeu, apontando o dedo para mim. — Volta pra empresa, Ethan. Vai pra merda. Vai pra onde você quiser. Eu tô de saco cheio de ficar presa dentro daquela casa enquanto você só trabalha.
Eu passei a mão pelo rosto com força, tentando não perder completamente o controle.
— p***a, é uma semana só que eu tô trabalhando direto — falei, encarando ela. — Eu sempre fui um bom marido pra você. Sempre. E agora você tá assim? Você virou a cabeça por causa de uma semana?
Ela não respondeu, mas o olhar dela continuava duro.
— Olha quanto tempo a gente tá junto — continuei, dando um passo mais perto. — Olha o que você tá fazendo. Olha as coisas que você tá falando pra mim. Você tá falando como se eu fosse um merda de marido… e eu nunca fui um merda pra você. Você sabe disso. Todo mundo sabe disso.
Minha voz começou a falhar sem que eu percebesse.
— Eu sei que eu errei hoje — completei, mais baixo. — Eu esqueci o aniversário de casamento. Eu errei. Eu tava o dia inteiro em reunião, em compromisso, com a cabeça explodindo… mas eu já te pedi perdão. Foi uma vez. É a primeira vez em anos que isso acontece… e olha como você tá me tratando.
Ela ficou me olhando por alguns segundos, como se estivesse avaliando até onde aquela discussão ainda podia ir, e então esticou a mão com um movimento rápido e firme, conseguindo pegar a chave do carro que eu ainda segurava distraído entre os dedos. Antes que eu reagisse, ela já estava com a chave na mão, dando um passo para trás, mantendo distância.
— Tem certeza que você vai? — falei, encarando ela, a voz carregada de ironia e cansaço.
Ela sustentou meu olhar sem piscar.
— Absoluta.
Naquele momento percebi alguns olhares em volta. Dois vizinhos tinham acabado de sair do elevador do subsolo e estavam claramente observando a cena, tentando disfarçar o interesse enquanto caminhavam mais devagar do que o normal. Aquilo só aumentou a tensão dentro de mim.
— Para de fazer vergonha na frente dos outros — Camila disparou, sem nem abaixar o tom. — Já não chega a vergonha que eu sinto de ficar dentro de casa sozinha.
Eu senti algo estalar dentro da minha cabeça.
— Meu Deus… c*****o… p***a! — soltei, perdendo completamente a paciência.
Antes que conseguisse me controlar, fechei o punho e dei um soco forte na lataria do carro ao lado, o impacto ecoando no estacionamento silencioso.
— O que que tá acontecendo com você, c*****o? — perguntei, respirando pesado.
Ela não recuou. Não teve medo. Pelo contrário. Olhou direto nos meus olhos e respondeu com uma frieza que me desmontou.
— Esse soco no carro era pra você não dar em mim?
Aquilo me fez explodir de vez.
— Para de falar merda, p***a! — gritei, já completamente irritado. — Eu nunca levantei a mão pra você.
Algumas pessoas continuavam olhando, fingindo mexer no celular, fingindo procurar algo no porta-malas. Aquela situação estava virando um espetáculo e eu odiava isso ainda mais.
Passei a mão pelo rosto, tentando respirar, tentando recuperar algum controle que claramente já tinha ido embora.
— Você quer sair com suas amigas? — falei, a voz mais fria agora. — Então vai, Camila. Vai. Vai com Deus. Tchau.
Ela ficou me observando por um segundo, como se estivesse esperando que eu mudasse de ideia, que fosse atrás de novo, que insistisse mais uma vez. Mas eu simplesmente virei de costas e comecei a andar em direção ao elevador. Entrei no elevador e deixei ela ir.