06 — Tainá Narrando
O dia em que a minha vida acabou começou como qualquer outro. Essa é a parte mais c***l de tudo quando eu lembro. Não teve aviso, não teve sensação estranha, não teve pressentimento. Foi um dia comum. Simples. Feliz até.
Eu acordei cedo como sempre fazia, antes mesmo do despertador tocar, porque meu corpo já estava acostumado com a rotina de dar aula de manhã e à tarde. O quarto ainda estava meio escuro e silencioso, o tipo de silêncio confortável de casa de família que dorme tranquila. Eu fiquei alguns segundos deitada olhando para o teto, organizando mentalmente o que precisava fazer naquele dia, quais atividades levar para as crianças, quais provas precisava corrigir, quais reuniões pedagógicas iam acontecer durante a semana. Era uma vida simples, mas era a vida que eu tinha escolhido e que eu amava.
Quando levantei e saí do quarto, senti o cheiro doce vindo da cozinha antes mesmo de chegar até lá. Minha mãe estava fazendo panqueca. Sempre que ela fazia panqueca de manhã era porque queria me agradar ou porque achava que eu estava trabalhando demais. Ela era assim. Cuidadosa até nos pequenos detalhes.
— Bom dia, filha — ela falou sem nem virar direito, concentrada em virar a massa na frigideira.
— Bom dia, mãe — respondi ainda meio sonolenta, puxando uma cadeira.
Ela colocou um prato na minha frente com um sorriso satisfeito.
— Você precisa se alimentar direito. Ficar o dia inteiro lidando com criança não é fácil.
Eu ri baixo.
— Eu amo o que eu faço.
E era verdade. Dar aula para crianças era a única coisa que fazia sentido para mim naquele momento da vida. Eu tinha estudado, me formado, lutado para conseguir aquela vaga numa escola particular boa, organizada, cheia de alunos de famílias que realmente valorizavam a educação. Eu sentia orgulho de mim mesma por ter construído aquilo.
Meu pai apareceu na cozinha alguns minutos depois já arrumado para sair, com aquele ar sério de sempre que contrastava completamente com o jeito doce da minha mãe. Ele era dono de uma empresa pequena, mas muito bem estruturada, e também tinha algumas casas de aluguel que garantiam uma renda confortável para a família. A gente nunca foi rico no nível absurdo de ostentação, mas sempre viveu muito bem. Casa própria num condomínio caro, carro bom na garagem, viagens de vez em quando. Uma vida estável. Segura.
— Vai trabalhar cedo hoje? — ele perguntou enquanto pegava café.
— Tenho aula o dia inteiro.
Ele assentiu pensativo e então falou algo que eu não esperava.
— Tainá, tenta sair um pouco mais cedo hoje.
Eu franzi a testa.
— Mais cedo?
— Passa na empresa depois — ele explicou. — Eu tenho uma reunião importante e quero que você participe.
Aquilo me pegou de surpresa.
— Eu? Participar de reunião?
Ele deu um meio sorriso.
— Você faz parte disso tudo também. É bom começar a entender algumas coisas.
Eu fiquei alguns segundos em silêncio tentando calcular se conseguiria.
— Pai… eu posso tentar sair uma hora mais cedo — respondi sincera. — Ao invés de sair cinco, eu consigo sair quatro.
— Já ajuda — ele disse.
Minha mãe observava a conversa com aquele olhar orgulhoso que só ela tinha, como se estivesse assistindo a algo muito maior do que uma simples organização de rotina. Depois disso eu terminei de comer, organizei minha bolsa cheia de materiais pedagógicos e saí de casa sentindo aquele tipo de paz que só existe quando a vida parece estar exatamente no lugar certo.
Eu não fazia ideia de que aquela seria a última manhã normal da minha vida.
A escola sempre foi o lugar onde eu sentia que tudo fazia sentido. Assim que eu atravessava o portão grande de ferro e ouvia o barulho das crianças correndo pelo pátio, gritando nomes umas das outras, discutindo por causa de bola ou simplesmente rindo de qualquer coisa sem importância, parecia que o resto do mundo ficava do lado de fora. Eu gostava daquela sensação. Gostava de saber que ali dentro eu não era apenas a filha do dono de empresa, nem a menina que morava num condomínio caro, nem alguém que precisava provar nada para ninguém. Ali eu era só a professora Tainá.
Naquela manhã o movimento estava ainda mais agitado do que o normal. Alguns pais ainda estavam no portão se despedindo dos filhos menores, alguns alunos mais velhos já corriam pelos corredores fingindo que não estavam atrasados e as funcionárias da limpeza passavam com os carrinhos organizando tudo para o início das aulas. Eu caminhei pelo corredor cumprimentando todo mundo, ouvindo “bom dia, professora” de um lado e de outro, sentindo aquela mistura de responsabilidade e carinho que só quem trabalha com criança entende.
Minha primeira turma era do infantil, crianças pequenas, cheias de energia, curiosas sobre absolutamente tudo. Assim que entrei na sala, fui recebida com um coro bagunçado de vozes.
— Professora chegou!
— Tia Tainá!
— Olha meu desenho!
Antes mesmo de conseguir colocar a bolsa sobre a mesa, três crianças já estavam grudadas em mim, uma segurando minha mão, outra tentando subir no meu colo e uma terceira puxando meu vestido para mostrar algo que tinha feito em casa. Eu ri, tentando organizar aquele pequeno caos com o coração aquecido. Era impossível não se sentir importante quando um ser humano tão pequeno te olhava como se você fosse o centro do universo.
— Calma, calma… um de cada vez — falei, abaixando para ficar na altura deles.
Passei boa parte da manhã entre atividades simples que para eles pareciam descobertas gigantes. Pintura com tinta guache, colagem de formas coloridas, histórias contadas sentada no tapete enquanto eles se acomodavam ao meu redor como se estivessem entrando em outro mundo. Cada pergunta inocente, cada tentativa de escrever o próprio nome, cada abraço inesperado fazia tudo valer a pena. Eu sentia que estava exatamente onde deveria estar.
No intervalo, fui até a sala dos professores tomar um café rápido e conversar um pouco com as colegas. A rotina ali também era cheia de pequenas confidências, risadas sobre situações absurdas que só aconteciam dentro de uma escola e troca de experiências sobre alunos mais difíceis ou pais mais exigentes. Eu gostava daquele ambiente, daquela sensação de pertencimento. Não era um trabalho qualquer para mim. Era uma escolha consciente.
Depois do recreio, fui para a turma do ensino fundamental. Crianças um pouco mais velhas, já cheias de personalidade, questionadoras, inteligentes de um jeito que às vezes até me desafiava. Assim que entrei, um aluno levantou a mão imediatamente.
— Professora, você corrigiu a prova?
Eu sorri.
— Corrigi sim… mas só entrego no final da aula.
Ouvi uma mistura de comemorações e reclamações que me fez rir novamente. Passei a tarde explicando conteúdos, tirando dúvidas, incentivando quem tinha mais dificuldade, elogiando quem se esforçava. Em vários momentos me peguei observando aqueles rostinhos concentrados e pensando em como era bonito participar da formação de alguém, mesmo que de uma forma tão pequena no meio de um caminho tão longo.
Durante uma atividade em grupo, uma aluna se aproximou da minha mesa e perguntou baixinho se podia me abraçar. Eu abri os braços na mesma hora e senti aquele abraço apertado, sincero, cheio de confiança. Foi nesse momento que pensei que talvez não existisse sensação melhor do que saber que alguém se sentia seguro perto de você.
O tempo foi passando sem que eu percebesse direito. Quando olhei o relógio, já estava perto das quatro da tarde. Lembrei da conversa com o meu pai naquela manhã e senti um leve aperto de responsabilidade. Eu realmente precisaria sair mais cedo, organizar tudo rápido, deixar as últimas orientações para a coordenadora e seguir para a empresa. Era estranho pensar em mim mesma dentro daquele ambiente mais formal, participando de reuniões, entendendo contratos, mas ao mesmo tempo existia uma curiosidade natural sobre o mundo dele.
Enquanto arrumava meus materiais na bolsa, algumas crianças vieram se despedir.
— Professora, você vai vir amanhã?
— Vai sim, né?
— Não falta não…
Eu sorri para cada uma delas.
— Eu não falto — respondi com carinho.
Naquele instante, eu realmente acreditava nisso.
Eu acreditava que a minha vida seguiria exatamente naquele ritmo. Aulas pela manhã e à tarde, reuniões de vez em quando com o meu pai, jantares em família, domingos tranquilos no condomínio. Uma vida comum. Segura. Previsível.