04

1066 Words
04 — Ethan Narrando Eu voltei para o apartamento com a sensação estranha de que alguma coisa tinha ficado para trás comigo naquele estacionamento. Não era só a briga. Não era só o orgulho. Era como se eu tivesse tomado uma decisão errada e agora não tivesse mais como voltar atrás. Mesmo assim, quando entrei no escritório, tentei agir como sempre fazia quando precisava colocar a cabeça no lugar. Trabalhar. Pensar. Beber. Peguei uma garrafa de uísque no bar embutido da parede, servi um copo generoso e comecei a andar de um lado para o outro sem nem perceber que repetia o mesmo trajeto várias vezes. O apartamento estava silencioso demais, grande demais, vazio demais. Em algum momento passei no quarto da Lily e fiquei alguns segundos olhando ela dormir, o peito subindo e descendo devagar, completamente alheia ao caos que tinha tomado conta da casa naquela noite. Aquilo só aumentou a pressão dentro de mim. Voltei para o escritório, joguei o corpo na cadeira e peguei o celular. A localização de Camila ainda estava ativa. O ponto azul piscava no mapa, imóvel dentro de um bar em Midtown. Olhei para a janela e vi a cidade molhada, os reflexos das luzes tremendo no asfalto encharcado. Estava chovendo. Uma chuva fina, insistente, daquelas que deixam tudo mais pesado. Digitei uma mensagem sem pensar muito. — Que horas você vai embora? — escrevi, passando a mão pelo rosto cansado. — Já é madrugada. Você ainda tá na rua. Tá chovendo lá fora. Isso é perigoso. A resposta não veio na hora. Tomei mais um gole de uísque e fiquei olhando o celular como se aquilo pudesse fazer ela responder mais rápido. Quando finalmente o telefone vibrou, não era mensagem. Era um áudio. Abri imediatamente. A voz dela saiu alta demais pelo alto-falante, misturada com música e barulho de gente rindo ao fundo. — Ethan Gattes… vai dormir — ela disse, claramente alterada. — Para de ficar me controlando. Eu tô bem. Tô com as meninas. Tô curtindo a noite. Logo em seguida veio uma foto. Camila sorrindo, um copo colorido na mão, maquiagem um pouco borrada, mas os olhos brilhando de um jeito que me deixou ainda mais irritado. Aquilo parecia provocação. Parecia que ela queria me mostrar que estava se divertindo longe de mim. — Eu não vou dormir enquanto você não chegar — respondi, digitando rápido demais, sentindo o coração bater mais forte. A resposta veio quase imediata. — Então você vai passar a noite inteira acordado — ela escreveu. Soltei uma risada sem humor, levantando da cadeira outra vez e voltando a andar pelo escritório como um animal preso. Tomei mais um gole direto da garrafa dessa vez. — Eu vou buscar você — mandei, já pegando o paletó sobre o encosto. Demorou alguns segundos. Depois o celular vibrou de novo, outro áudio. — Se você aparecer aqui, a gente vai brigar muito pior do que brigou antes de eu sair de casa — ela falou, a voz mais dura agora. — Não vem, Ethan. Sério. Não vem. Fiquei parado no meio do escritório, olhando para o nada. A chuva continuava caindo lá fora. E alguma coisa dentro de mim dizia que aquela noite ainda não tinha terminado. As horas começaram a passar de um jeito estranho, lento e pesado, como se o tempo estivesse sendo puxado para trás só para me provocar. Eu tentei fazer de tudo para ocupar a cabeça. Voltei para a cozinha, abri a geladeira sem nem saber exatamente o que queria, comi qualquer coisa sem sentir gosto, depois voltei para o escritório e servi mais uísque. Em algum momento fui tomar banho, troquei de roupa, voltei a sentar na cadeira, levantei de novo, caminhei pelo apartamento como se estivesse procurando algo que não sabia o que era. A sensação de inquietação não me deixava em paz. O celular continuava sendo a única coisa que realmente prendia minha atenção. Eu mandava mensagem, esperava, mandava outra, olhava a localização dela, olhava de novo, como se aquilo pudesse mudar alguma coisa. Camila respondeu algumas vezes dizendo que estava tudo bem, que eu podia ficar tranquilo, que quando chegasse em casa a gente ia conversar direito. Perguntou pela Lily, quis saber se a nossa filha já estava dormindo e eu respondi que sim, que ela tinha dormido há horas, que a casa estava silenciosa demais sem ela. — Já posso ir te buscar? — escrevi em determinado momento, olhando o relógio marcar pouco depois das duas da manhã. A resposta veio alguns minutos depois. — Não. Eu vou embora sozinha. Do mesmo jeito que eu vim. Eu respirei fundo, tentando segurar a irritação que ainda insistia em existir mesmo com o medo começando a crescer dentro de mim. — A gente não vai brigar mais — respondi, apoiando o cotovelo na mesa e apertando os olhos com força. — Só vem embora. Ela não respondeu de imediato. O silêncio do celular parecia gritar mais alto que qualquer discussão que a gente tinha tido naquela noite. Continuei ali, sentado em frente ao computador, tentando mexer em algumas coisas da empresa, abrindo e fechando planilhas sem realmente enxergar nada do que estava na tela. Minha mente só conseguia imaginar ela dirigindo na chuva, sozinha, depois de beber bastante, talvez ainda irritada comigo. Quando o relógio passou das três e meia da manhã, o celular começou a tocar. Não foi uma vibração leve. Não foi uma notificação. Foi um toque insistente. Tocando, tocando, tocando sem parar. Meu coração acelerou na mesma hora. Peguei o aparelho quase derrubando o copo que estava ao lado e atendi sem nem olhar o número. — Alô? Do outro lado, uma voz masculina falou em inglês, formal demais, calma demais para aquela hora. — Mr. Gates? — Sim. Quem está falando? — respondi, já sentindo o estômago gelar. — Aqui é do NewYork-Presbyterian Hospital. Estamos entrando em contato porque sua esposa, Camila Gates, sofreu um acidente de carro há poucos minutos. O mundo pareceu ficar em silêncio absoluto. Eu não ouvi mais nada ao redor. Só aquela frase ecoando dentro da minha cabeça. — O… o que você disse? — perguntei, levantando da cadeira tão rápido que ela quase caiu para trás. — Ela está sendo atendida neste momento. Precisamos que o senhor venha imediatamente. Minha mão começou a tremer. E pela primeira vez naquela noite o medo venceu o orgulho.
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