Capítulo 5
MAYA NARRANDO
A festa estava bem animada. A música alta fazia as paredes vibrarem, o ar estava carregado com o cheiro de perfume caro misturado ao álcool e ao calor dos corpos dançando. Para muitos, aquela era uma celebração cheia de vida, mas, para mim, era apenas mais uma ocasião em que eu precisava ficar alerta. Sempre observando. Sempre antecipando o caos. Não ligo muito para festas, mas sempre participo, sem deixar de ficar de olho na minha irmã.
Era assim que as coisas funcionavam com a Ayla. Minha irmã tinha a incrível habilidade de transformar qualquer evento em uma tempestade imprevisível, e, claro, eu era a responsável por tentar amenizar os danos.
Enquanto estava encostada em uma das colunas do salão, com um copo de refrigerante nas mãos, meus olhos estavam atentos. Heitor havia acabado de se afastar de Ayla e estava indo em direção aos nossos pais. Ayla desde sempre é apaixonada pelo Heitor, já vi ela chorar muito por ver ele com alguma mulher, ela sempre tentou ser amiga dele, mas ele nunca foi muito próximo da nossa família, ele aparece, mas sempre rápido. Ayla nunca foi direta com ele, mas depois que completou 17 anos, começou a sempre falar coisas com duplo sentido e também foi nessa época que ela começou a ficar com outros caras para tentar amenizar a dor que ela sente de gostar de alguém que não dá a mínima para ela. Não acho certo, mas não julgo, prefiro minha irmã tentando ser feliz, do que dentro do quarto chorando por alguém que não quer ela. Ayla é assim, sofre mas não demonstra, mas eu sei que um dia, nem que seja uma vez, ela vai conseguir ficar com o Heitor e mesmo eu sempre falando para ela deixar pra lá, se ela precisar eu sou a primeira a ajudar.
Continuei observando e até então nada fora do comum até aí, mas eu percebi o olhar que minha irmã lançou para um dos vapores da nossa mãe.
Maya — Ai, Ayla...
Murmurei para mim mesma, balançando a cabeça. Aquela garota não sabia brincar. Vi o vapor dar um pequeno aceno para ela antes de sair, e, claro, Ayla o seguiu como se estivesse indo para uma missão importante.
Pouco tempo depois, Heitor também se afastou, seguindo em direção à saída. Não sabia dizer se ele havia percebido o sumiço da Ayla, mas algo me dizia que ele não estava muito feliz e não tinha entendido porque.
Estava distraída com os meus próprios pensamentos quando senti uma mão pousar de leve no meu ombro.
Aurora — Onde está a Ayla?
Me virei para minha mãe, que me encarava com uma expressão mista de curiosidade e cansaço.
Maya — Não sei, mãe.
Ela bufou, cruzando os braços.
Aurora — Não sabe ou não quer saber? Porque eu conheço sua irmã. Aposto que tá por aí se agarrando com alguém.
Tentei segurar o riso, mas o olhar de reprovação da minha mãe me fez endireitar a postura.
Aurora — Vai atrás dela, Maya. Seu pai tá com o cão hoje, e se ele pegar a Ayla no flagra, não vai prestar. Eu só queria saber quem é esse cara que fez sua irmã ficar assim, eu sei que essa atitude dela é tentando não sofrer por alguém, eu só queria poder ajudar, mas ela não se abre .
Suspirei, colocando o copo sobre a mesa .
Maya — Mãe não tem ninguém, vou atrás dela .
Minha mãe deu um leve aceno e se afastou, provavelmente para manter meu pai distraído enquanto eu fazia o trabalho sujo, era sempre e com as palavras da minha mãe eu me perguntava se ela levaria numa boa, se soubesse que o amor da Ayla é o Heitor.
Segui para fora do salão, tentando adivinhar onde minha irmã poderia estar. Não foi difícil. Bastou dar alguns passos em direção a um dos cantos menos movimentados para encontrá-la. Lá estava Ayla, encostada na parede com um vapor agarrado a ela como se o mundo fosse acabar naquela noite.
Maya — AYLA!
Minha voz saiu mais alta do que eu esperava, e o vapor imediatamente se afastou, como se tivesse levado um choque. Ayla, por outro lado, apenas revirou os olhos, claramente irritada com a interrupção.
Ayla — Relaxa, Maya. Não é nada demais.
Maya — Não é nada demais? — Cruzei os braços, encarando-a. — Você sabe como o pai fica quando está de mau humor. Quer mesmo arriscar?
Ayla deu de ombros, ajeitando os cabelos como se aquilo não fosse nada.
Ayla — Ele não vai saber. E, se souber, eu dou um jeito.
Maya — Ayla, você abusa demais.
Minha irmã soltou uma risada baixa, cheia de sarcasmo.
Ayla — E você não abusa nada, né, perfeitinha? Vai me dizer que nunca quis quebrar uma regra, nem umazinha?
Maya — Isso não tem nada a ver comigo. — Respondi, desviando o olhar.
Ayla sorriu, percebendo minha hesitação.
Ayla — Relaxa, maninha. Já tô indo.
Ela deu um beijo rápido na bochecha do vapor, que ainda parecia nervoso, e se afastou, caminhando de volta para o salão, provavelmente agradecendo por não ter sido o meu pai.
Suspirei, aliviada por ela não ter resistido tanto dessa vez. Estava prestes a voltar também, mas, quando me aproximei da porta, vi uma figura familiar encostada ao lado.
Caxeta.
Ele estava fumando, o cigarro entre os dedos enquanto observava o movimento. Sempre com aquele ar descontraído, como se nada pudesse incomodá-lo. Por um instante, pensei em passar direto, mas ele me viu antes que eu pudesse decidir.
Caxeta — Tá muito linda hoje, sabia?
Seus olhos estavam fixos nos meus, e o sorriso que ele deu era o suficiente para fazer meu coração acelerar.
Maya — O-obrigada. — Respondi, sentindo meu rosto esquentar.
Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, Ayla surgiu do nada atrás de mim, com aquele timing impecável que só ela tinha .
Ayla — Linda? Tá brincando, né? Minha irmã não tá linda, ela "é" linda. — Ela disse, olhando para ele como se estivesse o desafiando .
Caxeta riu, claramente desconfortável com a atenção repentina .
Ayla — E, sinceramente, se você não fosse tão lerdo, já teria percebido que a Maya é louca pra ficar com você .
Senti meu rosto pegar fogo .
Maya — AYLA!
Minha voz saiu quase como um grito, mas ela apenas deu de ombros, com aquele sorriso travesso no rosto .
Ayla — Tô só te dando um empurrãozinho, maninha. Aproveita! Você merece e precisa aproveitar a vida .
Ela deu uma última risada antes de entrar novamente na festa, me deixando sozinha com Caxeta .
Eu não sabia o que dizer. Apenas fiquei aqui, olhando para ele, enquanto as palavras da Ayla ecoavam na minha cabeça . Eu sabia muito bem que a Ayla era muito amiga do Caxeta, mas ela nunca tinha feito nada parecido como agora, me expondo para ele .
Caxeta — É verdade?
Ele quebrou o silêncio, seu sorriso agora mais contido, quase tímido .
Maya — Não ... quer dizer, eu ...
As palavras se embolaram na minha garganta, e tudo o que consegui fazer foi desviar o olhar .
Caxeta deu um passo à frente, apagando o cigarro contra a parede antes de jogá-lo no chão .
Caxeta — Relaxa, Maya. Eu gosto de você, de verdade. Te acho uma mina da hora, apesar de ter a cara igual da minha parceira que eu jamais teria maldäde, eu entendo que tu não é ela. E ficaria com você de boa, se você quisesse .
Meu coração disparou, e, pela primeira vez nessa noite, não tive certeza de como responder .
Ficamos aqui, em silêncio, enquanto a noite continuava a pulsar ao nosso redor .