Você Sabe Onde Me Encontrar

1249 Words
Corro até o velho celeiro desativado e me sento atrás de alguns barris. Várias memórias passam pela minha mente, vários momentos, várias ocasiões. Abraço meus joelhos enquanto sinto meu corpo balançar com os soluços. Não podia aceitar que eu iria perdê-la, que essa doença maldita iria tirá-la de mim. Continuo ali, no silêncio do celeiro, deixando as lágrimas escorrerem livremente pelo meu rosto. Cada lembrança com ela se torna ainda mais preciosa, e a sensação de impotência diante da doença é avassaladora. Lembro-me dos dias felizes que passamos juntas, das histórias que ela contava à noite para me fazer dormir, dos seus conselhos sábios e do seu amor incondicional. E agora essas coisas seriam apenas memórias em minha mente, tudo graças a esse maldito câncer. A brisa suave entra pelas frestas do celeiro, acariciando meu rosto molhado pelas lágrimas. Respiro fundo e tento encontrar forças para lidar com a situação. Não queria passar esses momentos com ela em um clima melancólico, mas isso era mais forte do que eu. Não conseguia aceitar que iria perdê-la, ainda mais para uma coisa que seu próprio corpo gerou. Escuto a porta do celeiro ranger e passos firmes ecoarem por sua grande extensão. — Hey, Anna? – a voz grossa de Ícaro ecoa pelo ambiente. Segundos se passam até que escuto seus passos próximos. — Aí está você. – Sua voz soa amigável. Escuto seus passos se aproximando e suspiro tentando controlar minha crise de choro. — O que você veio fazer aqui? Veio rir da minha cara? – Dou uma risada amarga. Aperto meus braços ao redor dos meus joelhos. — Já sei! Veio jogar na minha cara como sou patética e você, o Neto que não é de verdade, é melhor que eu, a neta legítima. – Minha voz falha. Sinto sua mão em meu ombro. — Ei, não é nada disso. – Seu tom é suave. — Vá embora! – Minha voz soa rouca. Escuto seu suspiro e sinto sua aproximação. — Pode não parecer… mas, eu entendo você. – Seu tom é triste. Ícaro fica em silêncio por longos minutos. O vento passava pelas frestas do celeiro, fazendo as madeiras rangerem, sinal de que uma tempestade se aproximava. — Você nunca vai me entender, Ícaro. – Meu sussurro é fraco. Seu suspiro ecoa em meus ouvidos, nem precisava ver seu rosto para saber que havia uma expressão de irritação nele. — Você realmente não tem noção de como as coisas foram para mim. – Ele ri. – Anna, você não sabe como minha vida foi e o motivo de ter entrado na sua família. — E isso faz diferença? Você foi uma pessoa h******l comigo todos esses anos. Não acho que você pode agora bancar o compreensivo. – Digo sem o encarar. — Anna, você me julga por um fragmento de minha personalidade. Por uma versão que sequer existe mais. – Ícaro suspira profundamente. – Você não sabe de toda a história para poder ficar por aí falando o que quiser, julgando como uma deusa intocável. O desgosto era nítido em sua voz. Fico em silêncio, não queria argumentar, não queria brigar. — Ágata pode não ser minha avó biológica, mas sempre amarei ela como se fosse. – Ícaro suspira. – Eu estava perdido no mundo antes de ser acolhido pela sua família… o amor dos Harry's Taylor me salvou. Suas palavras soam sinceras e sinto uma pontada de culpa por tê-lo agredido há alguns dias. — Quando minha mãe se separou do meu pai, ela tentou fazer de tudo para ficar comigo. – Ele ri sarcástico. – Mas sabe como é o mundo, pessoas boas dificilmente vão conseguir ter justiça e por isso o i****a do meu pai conseguiu ter a minha guarda. O ódio em suas palavras era difícil de ser ignorado. Sentia a sua dor e revolta por trás delas. — Mês após mês, julgamento após julgamento…. Minha mãe ficou arrasada quando percebeu que nunca iria conseguir me tirar das garras de um homem abusivo. – Ícaro suspira e ri. – Eu era o troféu dele. Se ele não podia ter a minha mãe, então iria a punir tirando a coisa que ela mais amava, o motivo dela viver. O som de um trovão me faz pular assustada, me encolho segurando meus joelhos e o escuto resmungar algo em sua língua nativa. — Ele era um cara influente no meu país, de uma família de empresários e políticos, qualquer coisa que fizesse seria rapidamente abafada pela mídia e pelos seus aliados. – Sua risada amarga ecoa o celeiro. – Minha mãe era apenas uma jovem veterinária de uma família muito pobre, não tinha nenhum parente vivo e sequer como bancar advogados decentes para tentar reparar essa injustiça. Tento quebrar o silêncio, mas não achava as palavras corretas, era como se minha mente estivesse se esvaziado. Nunca havia ouvido sua história antes, isso era algo novo para mim. Ficamos em silêncio por um longo período. Queria saber o restante da história, mas tinha medo de que pressioná-lo o fizesse reviver lembranças ruins. Levanto minha cabeça e observo seu rosto. Ícaro estava de olhos fechados, como se estivesse revivendo todas suas memórias de infância. Seguro seu pulso e seus olhos se abrem lentamente. — Eu só quero dar o melhor apoio possível para a Ágata nesse momento h******l. – Ele sussurra sem me olhar. — Eu também… eu também quero dar o melhor apoio para a vovó. – Digo com sinceridade e calma. Um sorriso tímido surge em seu rosto e sua mão bagunça o meu cabelo. — Você não vai conseguir isso estando aí no chão, não acha? – Sua voz é humorada. Mentalmente prometo a mim mesma que estarei ao lado dela, apoiando-a em cada passo dessa jornada… Mesmo sabendo que o final dela é inevitável. Ícaro levanta sem dificuldade e estende sua mão, com um sorriso a seguro. Com sua ajuda levanto-me do chão empoeirado do celeiro. O grego me observa alguns segundos antes de voltar a falar. — Espero que se sinta melhor e consiga lidar com essa situação, pequena. – Sua voz é calma e amigável. — Ícaro… eu… Eu agradeço por se preocupar comigo, por ter vindo atrás de mim. – Nossos olhares se encontram. — Pode não parecer, mas me importo com você, Anna. – Seus olhos escurecem. Meu coração acelera enquanto seus olhos negros analisam o meu rosto, sentia como se fosse sair pela minha boca. Era impossível quebrar o contato visual, seus olhos negros eram como imãs me atraindo, me hipnotizando. A distância entre nós estava cada vez menor, conseguia sentir o cheiro amadeirado de seu perfume e o seu hálito de canela. Seus olhos encaram minha boca e sinto meu corpo se arrepiar quando sua língua percorre pelo seu lábio inferior o umedecendo. Uma forte ventania faz meu cabelo voar para frente de meu rosto quebrando nosso contato visual. Ajeito minha toca e dou um sorriso fraco enquanto recuo alguns passos. — Bem, caso precise conversar sobre isso tudo, você sabe onde me encontrar. – Minha voz sai humorada. Encaro meus pés evitando contato visual, era como se seus olhos pudessem controlar meu ser, isso era intenso demais para mim. Esse pensamento faz minhas bochechas esquentarem. Sua risada amistosa me faz sorrir, nossos olhares se encontram e seu rosto estava com uma expressão serena. — Digo o mesmo, pequena. – Ele sorri. Ícaro sai do celeiro me deixando com o coração acelerado e um sorriso em meu rosto.
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