Um velho conhecido

1671 Words
O gosto de canela em sua boca era viciante, seu cheiro era inebriante, fazendo-me querer cada vez mais dele. Minha razão volta a controlar meu cérebro. Me afasto de seu corpo e vejo o seu olhar confuso. — Bem, peço desculpas… acho que foi o calor da emoção. – Digo envergonhada. Ele dá de ombros e, por algum motivo, sua atitude me deixa incomodada. Sua mão tatuada passa em seu cabelo, algo que reparei que ele fazia quando estava nervoso ou desconfortável. — Você e sua mania de me agarrar em momentos inapropriados. – Sua voz rouca diz sarcástica. O encarei confusa e ofendida; isso o fez revirar os olhos e rir sarcástico. — Vai dizer que esquece de todos os homens que você ataca em festas? – Sua voz é sarcástica e provocativa. Seu comentário faz com que meus olhos se arregalem e minhas bochechas corarem. Um flashback de minha desastrosa noite no restaurante grego vem à minha mente. Estava tão escuro que m*l pude perceber seu rosto, os detalhes, suas tatuagens. Droga, mil vezes d***a! De tantas pessoas para eu encontrar no mundo, fui esbarrar logo com o homem do qual beijei alcoolizada? Pior de tudo é que era a segunda vez que eu o beijava! Senti a raiva percorrer meu corpo com seu olhar de desprezo. — Quer saber? Eu até iria te ajudar, mas você conseguiu destruir qualquer resquício de bondade do meu coração. – Digo negando com a cabeça.– Então, fique aí, encharcado e a quilômetros da cidade! Saio andando ignorando seus comentários sarcásticos. Escuto seus passos me seguindo e não pude evitar de sentir mais raiva ainda pela sua atitude ousada. — Você acha que pode me deixar aqui depois de quase me m***r? – Ele grita furioso. Paro meus passos e o encaro com um sorriso sarcástico. — Não seja dramático. Não foi você mesmo que disse que andava essa trilha todos os dias? Aproveite a bela caminhada até a cidade… só espero que seja rápido, está vindo uma tempestade daquelas! – Digo sarcástica olhando para o céu nublado. Todos sabem das mudanças repentinas de clima na cidade, ainda mais de suas tempestades fortes com direito a raios e árvores caindo. — Qual é! – Ele choraminga. Volto a andar, mas rapidamente sou ultrapassada pelas suas longas pernas. — Você não tá falando sério, vai mesmo fazer isso comigo? – Sua voz falha e suas mãos se movem inquietas. Olho para seu rosto em desespero e dou uma risada perversa. Ele acha que eu iria levar ele à cidade depois de tudo que falou? Esse cara só podia estar maluco! O som do trovão me assusta, um relâmpago ilumina o céu e gotas grossas começam a cair. Entro no jeep e o vejo me olhar com desespero. A chuva ficava cada vez mais forte e os trovões mais barulhentos, reviro os olhos e o chamo com a mão. — Você fica uma graça quando está com raiva. – Ele fala assim que dou partida no Jeep, o encaro com desdém. — Mais uma palavra e eu te jogo do carro em movimento! – Falo entre dentes enquanto coloco o cinto de segurança. Dou partida no veículo e a chuva molha nossos corpos. — d***a, vai estragar minha câmera. – Escuto sua voz chateada. Meus dedos seguravam o volante com força, a chuva atrapalhava minha visão e me deixava encharcada, péssimo momento para estar em Jeep. Meu corpo estava todo molhado, meus olhos ardiam em tentar ficar abertos, estava sem condições de dirigir. — Vai mais devagar! Você m*l está enxergando e está dirigindo que nem maluca! – Ele fala cauteloso enquanto toca o meu ombro. Seu alerta me faz sentir um certo desespero, precisava chegar o mais rápido possível no rancho da vovó. Um raio atinge uma árvore no acostamento a fazendo cair logo que passamos pelo local, meu coração se acelera com a possibilidade de quase ter sido esmagada pela árvore. Em vez de seguir o caminho que levaria à cidade, sigo o caminho mais curto, o que levaria ao rancho. Ao mudar o caminho, escuto seus protestos, mas ignoro cada um deles. Acelerei ao perceber que faltavam poucos metros até o portão do rancho; ao me aproximar, eles são abertos e eu entro no rancho em alta velocidade. Dirijo pela propriedade até chegar à casa principal, deixo o carro parado em frente a ela e saio correndo em direção à porta que leva à entrada da casa. Me viro e o vejo no carro observando o ambiente, um estrondo no céu o faz sair do carro e correr em minha direção. Pego a chave no meu bolso com as mãos trêmulas de frio e abro a porta sentindo meu corpo tremer. Encontro a casa totalmente em silêncio, me lembro que hoje é terça-feira e que todos estavam ocupados hoje. A essa hora a vovó devia estar no hospital com Ross e Rose, Rick devia estar trabalhando e Oliver na casa de algum amiguinho. Vamos até a sala de estar e eu acendo a lareira. — Não querendo abusar da hospitalidade, mas preciso de um banho quente pra me esquentar… – Ele olha para seu corpo e ri sem graça. Sua blusa branca estava colada em seu corpo, agora transparente devido o tecido estar molhado, isso mostrava todo seu peitoral e suas tatuagens. Aquilo era uma água-viva na sua barriga? Tentava entender os desejos de suas tatuagens, acho que o enc arei por muito tempo pois ouvi sua risada envergonhada. — É claro, também vou te dar algumas roupas do meu primo. Acho que vão caber. – Digo desviando o olhar e sentindo as bochechas corarem. Subo correndo a escada e ando até o quarto de Ross pegando as primeiras peças de roupa que vejo. Volto à sala e indico a ele onde era o banheiro. No meu quarto, escuto sua voz cantando "Cold Water" de forma bem afinada, dou uma risada e entro no box. A tontura faz tudo ao meu redor girar, seguro na parede e sinto o enjôo tomar conta de mim. Eu não havia comido nada no dia, provavelmente minha pressão deveria ter caído. Ao me recuperar, tomei um breve banho. Saio do box, seco meu cabelo enquanto me olho no espelho, meu rosto estava vermelho e inchado, algo que sempre acontecia quando não dormia direito. Visto roupas confortáveis e ando até a sala onde encontro Ross gargalhando. Ao notar minha presença, ele sorri brincalhão. — Vejo que encontrou o grego na chuva. – Ross sorri. – Pelo menos agora vocês estão se dando bem. — Grego? – Digo confusa e ambos me olham. Espera, eles se conhecem? — Chamo o Ícaro assim desde que éramos crianças.– Ross ri – Não lembra dele? Meu melhor amigo desde… sempre. Meus olhos se arregalam. Espera, esse cara bonito era o Ícaro? O mesmo Ícaro que sempre me tratou com indiferença? O mesmo Ícaro magricelo que usava aparelho, óculos e tinha o rosto cheio de espinhas? Meu Deus… isso não podia ser pior. — Tampinha, não me reconhece mais? – Sua voz era provocativa. E essa era a prova que faltava, seu apelido irritante. O encaro com desdém e ando até a cozinha deixando os dois conversando. Não acredito que beijei o cara que eu sempre detestei, ainda por cima gostei! Sinto a raiva percorrer meu corpo ao lembrar de como seu beijo tinha sido bom. Eca, eu ainda não acredito que beijei ele. Abro a geladeira e pego a jarra de suco de maracujá. Me assusto ao fechar a geladeira e ver Ícaro me encarando sem expressão. Levo a mão no peito e suspiro sentindo o coração acelerado. Ele sempre teve essa péssima mania de chegar sem fazer barulho e ficar me analisando, mais um motivo de eu detestar ele. — Você não perde essa mania f**a. – Falo com a voz trêmula devido ao susto. — Você que não deixa de se assustar facilmente. – Ícaro fala rindo histericamente. Meu estômago ronca alto e Ícaro faz uma careta. Ele anda até a geladeira e sorri me olhando por cima do ombro. — Vou fazer uma omelete pra você. – Ele fala de forma simpática. Primeiro ele me irrita, não diz que já me conhece, me deixa beija-lo e agora vai fazer omelete pra mim? — Ora, quem disse que vou querer sua comida? – Falo cruzando os braços. Ele ri e n**a com a cabeça. Ícaro volta a pegar os ingredientes na geladeira ignorando meus protestos. — Com ervas frescas, não é? Ainda é assim que você gosta? – Ele pergunta elevando uma sobrancelha. Abaixo minha guarda e me sento no banco e apoio meu corpo na bancada, algo que ele sabia que sempre comprava meu bom humor com facilidade era a comida. — Isso… – Digo surpresa. A última vez que nos vimos eu tinha 15 anos e ele estava indo se mudar para o exterior para fazer faculdade. Lembro que na época tomamos café juntos, Ross, Rick, Ícaro e eu. Lembro que naquele dia o Ross cozinhou pra gente, ele sempre foi um ótimo cozinheiro. Foi o único dia em que comi omelete perto de Ícaro, como ele se lembra disso? Eu mesma só tinha essa lembrança pois foi no mesmo dia em que quebrei meu braço ao cair da árvore enquanto tentava pegar a bola que Ícaro havia jogado na árvore propositalmente depois de me chamar de tampinha e pirralha irritante. O cheiro na frigideira faz minha boca salivar e meu estômago roncar, escuto Ícaro assobiar enquanto cozinha, ele parece tão relaxado, tão desocupado. Ele me entrega o prato e eu passo a língua nos lábios. Dou uma garfada e sinto como se tivesse indo ao céu, nunca comi nada tão gostoso. Droga, ele cozinhava bem. Dou um gemido de satisfação e isso o faz sorrir de lado. Ele me observava comer, seu braço estava apoiado na bancada e sua mão segurava seu rosto, seus olhos brilhavam de uma forma que os deixavam mais bonitos.
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