- Então é você mesmo. O homem que quase matou um cavaleiro que escoltava seu filho para a carroça que o levaria para a prisão.
Leonard saltou sobre o homem e o agarrou pela camisa.
- Você não tem nada a ver com isso! – Gritou.
- Calminha aí, amigo. Está assustando seus clientes.
Leonard olhou para os lados e percebeu que várias pessoas o olhavam, então ele soltou o homem e suspirou para se acalmar.
- O que você quer?
- Eu vim do leste há alguns dias. Vi este cartaz e achei que seria útil levar comigo. Me disseram que o homem da imagem agrediu um cavaleiro enquanto tentava evitar que seu filho fosse levado. A recompensa pela sua captura é de 100 peças. Uma boa quantia, se quer saber.
Leonard se sentiu acuado, sem saber o que fazer.
- Não se preocupe, acho muito difícil essa história vir parar aqui. Não foi nada muito sério como caso isolado, já que você não matou o cavaleiro. Ainda assim seria r**m se alguém dissesse a um dos guardas da cidade que você está aqui.
- Sim, seria – Leonard já começava a pensar em algum meio de conseguir dinheiro o bastante para cobrir o preço da recompensa de sua captura para manter o homem de boca fechada, mas, por mais que pensasse, não via formas de conseguir arrecadar 100 peças tão rapidamente.
- Eu tenho uma proposta para você. Sei que você deve ter problemas com dinheiro, então eu lhe ofereço meu silêncio e uma generosa quantia de 120 peças em troca de algo que você tem.
- Eu não tenho nada que valha isso tudo... – Respondeu Leonard, quase em um sussurro.
- Talvez tenha – O homem sorriu. – Aquela moça de cabelo preto. Ela é sua filha? – Disse, apontando para Jennifer.
Não levou nem mesmo um segundo para Leonard entender qual o objetivo do homem. Ele queria comprar Jennifer. O pensamento deixou Leonard em um estado de fúria incontrolável e ele avançou sobre o homem. Ele o derrubou e se debruçou sobre ele, golpeando com força seu rosto, atingindo também os braços quando ele tentou desesperadamente se defender. A confusão gerou um tumulto, e o tumulto chamou a atenção dos guardas. Três homens de armadura correram até lá e dois deles tiraram Leonard de cima do homem com a barba manchada com seu próprio sangue.
- O que diabos está acontecendo aqui? – Gritou o que parecia ser o comandante dos cavaleiros.
O homem barbado cuspiu o sangue de sua boca e praguejou.
- Esse homem é um fugitivo procurado – Disse enquanto mostrava o cartaz que confirmava sua história.
O comandante olhou para o cartaz e para Leonard, depois disse:
- Levem esse homem.
Ele tocou um apito alto para que os guardas nas redondezas também viessem – parecia haver muitos guardas para manter a ordem nos dias de feira.
A família de Leonard ficou desesperada. A dor de ver outro amado sendo levado por cavaleiros foi demais para Maria, e ela desmaiou. Lucinda e Jennifer a seguraram para que não caísse, mas Lucas foi correndo para ajudar o pai.
- NÃO, LUCAS! – Gritou o pai. – Não interfira. Não quero que isso acabe como da última vez.
Lucas praguejou, cerrou os punhos, mas se conteve – embora não tenha conseguido conter as lágrimas. Jennifer correu até o comandante dos guardas e implorou.
- Por favor, não levem ele!
- Saia da frente – Ele a afastou com a mão enquanto caminhava até o homem que denunciou Leonard. Ele entregou um saco com 100 peças a ele e assentiu com a cabeça.
- Muito obrigado, meu bom homem – Disse ele.
E partiu.
A confusão se prolongou um pouco mais até que mais guardas chegaram. Para a surpresa de todos, a escolta real foi quem chegou lá.
- O que está havendo? – Perguntou um dos homens da escolta.
Todos que estavam lá se ajoelharam na presença de Sua Majestade.
- Meu senhor, esse homem é um fugitivo procurado. Estávamos prendendo-o.
- Por favor, não levem ele! – Gritou Jennifer. – Eu faço qualquer coisa! Eu pago, trabalho! Dou qualquer coisa, mas não o levem!
Alguns guardas cerraram os dentes, quase cedendo ao apelo da bela jovem, mas era seu dever fazer com que a lei fosse cumprida. Os cavaleiros seguraram Jennifer e Lucas, que gritavam pela libertação do pai, enquanto a pequena Lucinda chorava com a mãe desacordada com a cabeça apoiada em seu colo. Todos os gritos e barulhos cessaram quando o homem no centro da escolta levantou a mão. Ele desmontou do cavalo e caminhou até bem perto de Jennifer. Assim que ele se aproximou, ela se soltou das mãos do guarda e se ajoelhou frente a ele.
- Por favor, Senhor... Poupe meu pai – Ela implorou.
Os guardas olharam apreensivos enquanto ele puxava sua espada da cintura. Ele tocou o queixo dela com a ponta da arma e levantou sua cabeça.
- Você disse qualquer coisa? – Disse ele, mas a voz que saiu de sua boca era mais aguda e fina do que Jennifer esperava, mesmo para um jovem como ele aparentava ser.
Jennifer fixou seus olhos nele e assentiu. Foi retribuída com um sorriso, logo depois daquela pessoa tirar seu elmo e revelar seu cabelo liso e castanho à altura dos ombros.
- O Rei é uma mulher? – Disse Lucas, surpreso.
O guarda que o segurava bateu em seu rosto e o derrubou.
- Tenha respeito quando falar de Sua Majestade, a Rainha Charlotte! – Disse ele.
Jennifer se levantou e chamou pelo irmão, mas sentiu o frio metal da manopla da Rainha tocando a maçã de seu rosto, ajeitando seu cabelo atrás da orelha.
- Eu estou procurando uma serva há um tempo. Alguém dedicada ao trabalho, jovem e de boa aparência. Alguém para me servir e ser minha dama de companhia em ocasiões especiais.
Jennifer abaixou o rosto em reverência.
- Majestade, se poupar meu pai, eu prometo servi-la como bem entender – Disse ela.
A Rainha sorriu, exibindo seus dentes radiantes, perfeitos e bem cuidados. Ela fez sinal com a mão e os guardas soltaram Lucas e Leonard, que se abraçaram logo em seguida.
- Você – Disse a Rainha para Leonard. – Eu o isento de quaisquer que sejam seus crimes. Levarei sua filha para o castelo para me servir em troca disso. De hoje em diante cumpra a lei, ou amanhecerá pendurado pelo pescoço por uma corda.
Leonard deu um passo à frente pronto para protestar, mas foi parado pela lâmina de um dos guardas, que ameaçou perfurar sua jugular.
- Sua Majestade já deu a palavra. Um plebeu como você deveria se sentir honrado por ter seus pecados perdoados.
Leonard chorou, desesperado, mas impotente. Jennifer sorriu em meio às lágrimas, aliviada.
- Voltarei amanhã de manhã com a carruagem para levá-la ao castelo – Disse a Rainha. – Arrume tudo que tiver até lá, e nem pense em fugir. Deixarei guardas de vigia.
A Rainha deu as costas e voltou para seu corcel, recolocando seu elmo e sorrindo com satisfação para Jennifer. Logo em seguida, partiu.
* * *
Maria despertou deitada na cama do Ganso Adormecido. Jennifer estava ao lado da cama e lhe serviu uma xícara de chá para acalmar os nervos.
- Se sente melhor, minha mãe? - Perguntou Jennifer.
- Acho... Eu acho que sim.
Maria levou a mão até o rosto e relaxou um pouco, porém ficou tensa com seu próximo pensamento: o que houve com Leonard? Antes que pudesse se preocupar demais, ela viu o marido sentado no canto da sala, no chão, junto aos outros dois filhos.
- Que bom... Eles não o levaram – O suspiro de alivio de Maria foi curto, pois ela viu que todos estavam com uma expressão desolada, triste, abatida.
- Eu... – Jennifer tentou dizer algo, mas sua voz não saía.
- O que foi, minha filha? O que aconteceu depois que eu desmaiei?
- Eu... Meu pai... – Jennifer não encontrava as palavras.
- Ela agora é a serva daquela v***a! – Vociferou Lucas, do canto da sala.
- O quê? Que v***a? O que está acontecendo? – Maria entrou em pânico.
- A Rainha – Disse Jennifer, com peso na voz. – Ela disse que se eu me tornasse serva dela no castelo, ela soltaria nosso pai.
A imagem de Jennifer sendo escravizada e abusada no castelo foi demais para Maria, e ela desmaiou novamente. Não houve tanta preocupação com ela, todos sabiam que Maria era uma mulher extremamente frágil, desmaiaria se visse um rato correndo do outro lado da sala.
- Você não devia ter feito isso – Leonard se queixou.
- Então eu deveria deixar que eles trancassem você em uma cela para apodrecer?
- Você é minha filha. Eu não quero essa vida para você.
- E você é meu pai... E eu o amo demais para perder você, assim como perdi o Bernardo.
- Maldição... – Leonard suspirou profundamente, lamentando por sua filha. – Os nobres não passam de porcos. Eles vão fazer você de escrava, fazer coisa terríveis com você, te foçar a fazer coisa que você não quer... Filha, eu...
- Não, pai! – Jennifer levantou a voz. – Eu escolhi isso para mim mesma. Não há mais como voltar atrás.
O pai praguejou em silêncio, abaixando a cabeça. A vila onde eles viviam era um lugar tranquilo, livre de impostos e conflitos entre os reinos. Eles eram quase completamente isolados e se esforçavam para não ter contado com os reinos. Ainda assim, os viajantes que passavam por lá contavam histórias terríveis sobre os nobres dos castelos e feudos. Leonard chorou a noite inteira, temendo o destino terrível que tinha feito sua filha traçar.