CAPÍTULO UM-2

2356 Words
Gina fez uma pausa, franzindo levemente as sobrancelhas, perplexa. – Tem? – Sim – Lacey a assegurou. – Quando eu estava avaliando o conteúdo da Mansão Penrose, a propriedade tinha uma coleção inteira de rifles de caça. Precisei solicitar uma licença imediatamente para poder realizar o leilão. Percy Johnson me ajudou a organizar tudo. Gina enrugou os lábios. Ela usava sua expressão de mãe substituta. – Por que eu não fiquei sabendo disso? – Bom, você não trabalhava para mim ainda, não é? Você só era a vizinha cujas ovelhas viviam invadindo a minha propriedade – Lacey deu uma risadinha com a amável lembrança de sua primeira manhã acordando no Chalé do Penhasco e encontrando um rebanho de ovelhas mastigando sua grama. Gina não sorriu de volta. Ela parecia estar em um humor teimoso. – Mesmo assim – ela disse, cruzando os braços. – Precisará registrá-la na polícia, não é? Registrá-la na base de dados de armas de fogo. Diante da menção à polícia, a imagem do rosto severo e inexpressivo do superintendente Karl Turner apareceu na mente de Lacey, rapidamente seguido do rosto de sua parceira estoica, a detetive inspetora Beth Lewis. Ela tivera encontros suficientes com os dois para uma vida inteira. – Na verdade, não preciso – disse à Gina. – É uma antiguidade e não está funcionando. Significa que é classificada como ornamental. Já te disse, fiz minha lição de casa! Mas Gina não iria ceder. Parecia determinada a encontrar uma brecha na questão. – Não funciona? – ela repetiu. – Como pode ter certeza? Pensei que disse que a papelada estava atrasada. Lacey hesitou. Tinha sido pega por Gina. Ainda não tinha visto a papelada, portanto não poderia ter cem por cento de certeza que a espingarda não funcionava. Mas a maleta não incluía nenhuma munição, para começar, e Lacey estava confiante que Xavier não lhe enviaria uma a**a carregada pelos correios! – Gina – ela disse com a voz firme e definitiva. – Prometo que tenho tudo sob controle. A afirmação rolou facilmente da língua de Lacey. Ela não sabia naquele momento, mas em breve se arrependeria de algum dia ter proferido aquelas palavras. Gina pareceu ceder, embora não parecesse feliz com isso. – Está bem. Se você diz que está tudo sob controle, então está. Mas por que Xavier te mandaria uma maldita a**a? – Essa sim é uma boa pergunta – Lacey disse, subitamente perguntando-se o mesmo. Examinou o interior da maleta e encontrou um pedaço de papel dobrado no fundo. Retirou-o. A insinuação prévia de Gina de que Xavier queria mais que amizade fez com que se sentisse imediatamente constrangida. Limpou a garganta enquanto desdobrava a carta e leu em voz alta. “Querida Lacey, Como você sabe, estive recentemente em Oxford...” Ela pausou, sentindo o olhar de Gina se aguçando, como se sua amiga estivesse silenciosamente a julgando. Sentindo suas bochechas esquentarem, Lacey manobrou a carta para bloquear Gina de sua visão. “Como você sabe, estive recentemente em Oxford procurando relíquias antigas do meu bisavô. Vi esta espingarda e ela sacudiu minha memória. Seu pai tinha uma espingarda similar à venda em sua loja em Nova Iorque. Conversamos sobre ela. Ele me contou que tinha recentemente viajado à Inglaterra para caçar. Foi uma história engraçada. Ele disse que não sabia, mas estava fora da temporada, portanto, legalmente, só poderia caçar coelhos. Pesquisei sobre a temporada de caça na Inglaterra e é fora de temporada apenas no verão. Não me lembro de ele falar de Wilfordshire diretamente, mas lembro que você disse que era aonde ele tirava férias no verão? Talvez exista um clube de tiro local? Talvez possam tê-lo conhecido? Atenciosamente, Xavier”. Lacey evitou o olhar escrutinador de Gina enquanto dobrava a carta. A mulher mais velha nem precisou falar para Lacey saber o que ela estava pensando – que Xavier poderia ter contado sobre a lembrança em uma mensagem de texto, ao invés do exagero de enviá-la uma espingarda! Mas Lacey não se importava de verdade. Estava mais interessada no conteúdo da carta do que em quaisquer possíveis noções românticas escorando as ações de Xavier. Então, seu pai gostava de caçar durante seus verões na Inglaterra, era isso? Aquilo era novidade para ela! Além do fato de não ter memórias de ele sequer possuir uma espingarda, não podia imaginar que sua mãe aceitaria isso. Ela era extremamente melindrosa; facilmente ofendida. Seria por isso que ele viajava para outro país para caçar? Poderia ser um segredo que ele escondera de sua mãe completamente, um prazer p******o ao qual se permitia uma vez por ano. Ou, talvez, ele vinha à Inglaterra caçar por causa da companhia que tinha aqui... Lacey recordou-se da linda mulher da loja de antiguidades, a mulher que ajudara Naomi quando ela quebrou o enfeite e que, depois, haviam encontrado novamente na rua, o sol lançando um holofote atrás de sua cabeça, obscurecendo suas feições. A mulher com suave sotaque inglês e perfume agradável. Poderia ter sido ela quem introduziu o hobby a seu pai? Seria um passatempo que compartilhavam? Ela pegou o celular para mandar uma mensagem para sua irmã mais nova, mas só chegou a escrever “Será que o pai tinha alguma arma...” quando foi interrompida por Chester latindo para chamar sua atenção. O sino acima da porta de entrada devia ter tilintado. Devolveu a espingarda à maleta, fechando as travas com um clique, e se dirigiu à loja. – n******e deixar isso largado por aí! – Gina exclamou, em um instante indo da desconfiança de volta ao pânico. – Guarde no cofre, então, se te incomoda tanto – Lacey disse por cima do ombro. – Eu? – Ela ouviu a exclamação estridente de Gina. Apesar de já estar na metade do corredor, Lacey parou. Ela suspirou. – Só um minuto! – ela gritou na direção para onde estava indo. Depois, virou-se, voltou ao depósito e pegou a maleta. Enquanto a carregava, passando por Gina, a mulher manteve o olhar cauteloso grudado na maleta e deu um passo à trás, como se ela fosse explodir a qualquer momento. Lacey conseguiu esperar até ter passado por Gina de vez para revirar os olhos com sua reação excessivamente dramática. Lacey levou a espingarda até o grande cofre de ferro onde a maior parte dos itens caros e preciosos eram guardados em segurança e a colocou lá dentro. Depois, voltou ao corredor, onde foi seguida até a loja por uma Gina de aparência mansa. Pelo menos agora que a a**a estava fora de vista, ela pararia de grasnar. De volta ao piso principal da loja, Lacey esperava ver um cliente examinando uma das prateleiras abarrotadas. Em vez disso, foi saudada pela visão indesejada de Taryn, sua inimiga da boutique ao lado. Ao som dos passos de Lacey, Taryn girou em seus saltos finos. Seus cabelos castanhos em corte pixie estavam tão ensebados de gel que sequer um fio de cabelo saia do lugar. Apesar do brilhante sol de junho, ela usava o vestido pretinho básico que era sua marca registrada e que mostrava cada ângulo de sua figura ossuda fashionista. – Costuma deixar seus clientes sem atendimento e supervisão por tanto tempo? – Taryn perguntou com arrogância. Ao lado de Lacey veio o som do rosnado baixo de Chester. O pastor inglês não gostava nem um pouco da vendedora esnobe. O mesmo se aplicava a Gina, que emitiu seu próprio resmungo antes de se ocupar com a papelada. – Bom dia, Taryn – Lacey disse, forçando-se a uma disposição cordial. – Como posso ajudá-la neste lindo dia? Taryn encarou Chester com olhos cerrados, depois cruzou os braços e fixou o olhar de águia sobre Lacey. – Já disse – ela estourou. – Sou uma cliente. – Você? – Lacey retrucou rápido demais para esconder sua descrença. – Na verdade, sim – Taryn respondeu, seca. – Preciso de uma daquelas coisas de lâmpadas antigas estilo Edison. Você sabe. Aquela coisa horrorosa com lâmpadas enormes em suportes de bronze? Você sempre tem à mostra na vitrine. Ela começou a olhar ao redor. Com o nariz fino empinado, ela fazia Lacey se lembrar muito de um pássaro. Lacey não pôde evitar sua desconfiança. A loja de Taryn era elegante e simples, com refletores no teto que iluminavam tudo com uma luz clinicamente branca. Para que ela queria uma luminária rústica? – Está redecorando sua boutique? – Lacey perguntou cuidadosamente, saindo de trás de sua mesa e gesticulando para Taryn segui-la. – Só quero injetar um pouco de personalidade no lugar – a mulher disse enquanto seus saltos faziam barulho atrás de Lacey. – Até onde eu sei, aquelas lâmpadas estão muito na moda no momento. Vejo por toda parte… no cabelereiro, na cafeteria. Tinha um milhão delas na casa de chá da Brooke... Lacey congelou. Seu coração começou a martelar. A simples menção do nome de sua antiga amiga a enchia de pânico. Não fazia nem um mês desde que sua amiga australiana a perseguira com uma faca em punho, tentando silenciar Lacey após sua descoberta de que ela havia matado um turista americano. Os hematomas de Lacey estavam curados, mas as cicatrizes mentais ainda estavam abertas. Então era por isso que Taryn estava pedindo uma luminária antiga? Não porque queria uma, mas para ter uma desculpa para mencionar o nome de Brooke e aborrecer Lacey! Ela realmente era uma figura sórdida. Perdendo todo o entusiasmo para ajudar Taryn, mesmo sendo uma suposta cliente, Lacey apontou de leve para o “Canto Steampunk”, a seção da loja onde ficava sua coleção de luminárias de bronze. – Estão ali – ela resmungou. Assistiu a expressão de Taryn azedar enquanto ela examinava a gama de óculos de aviador, bengalas e o escafandro de mergulho em tamanho real. Para ser justa, Lacey também não era muito fã da estética. Mas existiam muitos indivíduos em Wilfordshire – do tipo com longos cabelos escuros e capas de veludo – que visitavam a loja dela com frequência, então ela fornecia os itens especificamente para eles. O único problema era que a nova seção bloqueava a visão antes intocada do outro lado da rua e da confeitaria de Tom, o que significava que Lacey não podia mais admirá-lo com o olhar sempre que tivesse v*****e. Com Taryn ocupada, Lacey aproveitou a oportunidade momentânea para uma espiada no outro lado da rua. A loja de Tom estava cheia como sempre. Mais movimentada ainda com o aumento na quantidade de turistas. Lacey conseguiu distinguir a silhueta de um metro e noventa indo de um lado para o outro, trabalhando em hipervelocidade para entregar os pedidos de todos. A luz do sol de junho deixava a pele dele ainda mais dourada. Só então Lacey avistou a nova assistente de Tom, Lucia. Ele empregara a jovem há apenas algumas semanas para que ele tivesse mais tempo livre para passar com Lacey. Mas desde que a garota começou a trabalhar lá, a confeitaria ficou mais movimentada do que nunca! Lacey assistiu Lucia e Tom quase esbarrarem um no outro, depois ambos dando um passo para a direita, outro para a esquerda, tentando evitar uma colisão e por fim acabando em uma cômica sincronização. A vergonha alheia terminou com Tom fazendo uma reverência teatral, deixando Lucia passar à sua esquerda. Enquanto ela passava, ele disparou um de seus sorrisos resplandecentes. O estômago de Lacey se contraiu com a visão deles. Não podia evitar. Ciúme. Desconfiança. Eram emoções novas para Lacey, que ela parecia ter adquirido somente após sua separação, como se seu ex-marido tivesse as escorregado em meio às folhas dos papéis de divórcio para garantir que o futuro relacionamento dela fosse o mais desgastante possível. Eram sentimentos feios, mas ela não podia controlá-los. Lucia passava um tempo significativamente maior com Tom do que ela. E o tempo que passava com ele era quando ele estava em seu melhor – energizado, criativo e produtivo, ao invés de estar cochilando enquanto via TV no sofá. Tudo parecia desequilibrado, como se estivessem repartindo Tom e as proporções estivessem pendendo fortemente em favor da jovem. – Ela é bonita, não é? – veio a voz de Taryn no ouvido de Lacey, como o d***o sobre seu ombro. Lacey ficou irritada. Taryn estava só jogando lenha na fogueira, como sempre. – Muuuuuito bonita – Taryn adicionou. – Você deve ficar louca sabendo que Tom fica lá o dia todo com ela. – Não seja estúpida – Lacey estourou. Mas a avaliação de Taryn tinha sido, para usar a expressão de Gina, “na mosca”. Ou seja, ela estava totalmente correta. E isso só deixou Lacey mais frustrada. Taryn deu um sorriso magro. Uma faísca malévola apareceu por trás dos olhos dela. – Sempre esqueço de perguntar... Como está o seu espanhol? Xavier, não é? Lacey irritou-se ainda mais. – Ele não é meu espanhol! Mas antes que pudessem entrar em uma briga, o sino soou de forma barulhenta e Chester começou a latir. Salva pelo gongo, Lacey pensou, correndo para longe de Taryn e suas sugestões de víbora. Porém, quando viu quem a aguardava, perguntou-se se não estava saindo de uma situação r**m para uma ainda pior. Carol, da pousada, estava parada no meio da loja com uma expressão de horror abjeto no rosto. Parecia estar em pânico e ofegava como se tivesse corrido por todo o caminho até ali. Lacey sentiu o estômago embrulhar. Uma terrível sensação de déjà vu tomou conta dela. Algo havia acontecido. Algo r**m. – Carol? – Gina disse. – Qual o problema, querida? Parece que viu um fantasma. O lábio inferior de Carol começou a tremer. Ela abriu a boca, tentando falar, mas a fechou novamente em seguida. Atrás dela, Lacey ouviu o som do clique dos saltos de Taryn conforme ela se aproximava depressa, presumivelmente querendo assistir o drama se desenrolar de camarote. A ansiedade estava matando Lacey. Não conseguia suportar. O medo parecia inundar cada fibra de seu corpo. – O que foi, Carol? – Lacey exigiu. – O que aconteceu? Carol balançou a cabeça vigorosamente. Respirou fundo. – Receio ter péssimas notícias... Lacey se preparou.
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