Bianca
— Gaby, eu só vou porque a minha mãe insistiu. Nada de mais — falei, tentando parecer convincente, enquanto dobrava uma calça em cima da cama já tomada por roupas espalhadas.
O celular estava preso entre meu ombro e a orelha. A mala aberta me encarava como se soubesse que aquela viagem tinha tudo pra dar errado.
— Bianca… — a voz da Gabriela veio do outro lado da linha, naquele tom que ela só usava quando já sabia a merda antes de acontecer. — Você sabe que o Jhonas vai estar lá, né?
Revirei os olhos, mesmo sabendo que ela não podia ver.
— Gaby, por favor, presta atenção — respondi, jogando uma blusa qualquer dentro da mala. — Eu não vou ficar me escondendo a vida inteira daquele babaca. Já faz cinco anos.
Cinco anos. Dava até raiva pensar que tanto tempo tinha passado e, mesmo assim, o nome dele ainda conseguia me irritar em dois segundos.
— Eu sei, amiga — ela disse. — Mas você saiu daquela cidade destruída.
Ela tinha razão. Quando eu fui embora, eu não estava triste. Eu estava humilhada.
O filho da p**a não só me traiu como fez isso na minha cama. Na minha. Como se não bastasse, ele ainda conseguiu superar qualquer limite possível: me traiu com a minha prima.
Dezessete anos.
Só de lembrar, meu sangue fervia.
Eu não chorei. Não gritei. Não fiz cena. Fiquei tão p**a que entrei no modo automático. Catei minhas coisas, joguei tudo numa mochila e peguei o primeiro ônibus para São Paulo, sem olhar pra trás.
Depois disso, ele até tentou falar comigo. Mandou mensagem, ligou, pediu pra “conversar”. Eu ignorei tudo. Já tinha cansado de ser feita de trouxa. Na real, eu só estava esperando coragem pra sumir de vez.
— Bianca… — a Gaby insistiu. — Eu sei que você tá certa, mas eu me preocupo. Ainda mais que eu não vou estar lá pra te proteger. Eu queria muito ir com você.
Suspirei.
A Gabriela sempre foi assim. Protetora demais. Mas dessa vez eu entendia. Ela tinha um emprego chique, responsabilidades de gente adulta e zero tempo pra voltar pra aquela cidade no fim do ano. Diferente de mim, que ainda estava aprendendo a subir na vida.
— Eu vou ficar bem — garanti. — Prometo.
E, de certa forma, eu acreditava nisso.
Minha fase de estagiária não remunerada finalmente tinha acabado. No início do ano, eu começaria como secretária do médico chefe do melhor hospital particular da cidade.
Se isso não era subir de nível, eu não sabia o que era.
Depois de mais alguns avisos dramáticos da Gaby, ela desligou. Terminei de arrumar a mala, conferi os documentos e segui para a rodoviária.
A viagem até a cidade onde eu nasci foi curta. Dormi quase duas horas seguidas, daquele sono pesado que só vem quando o cérebro resolve desligar pra não pensar demais.
Quando cheguei, senti um choque estranho.
Nada tinha mudado.
As casas eram as mesmas. O parquinho velho continuava lá. As velhinhas fofoqueiras estavam sentadas na porta, como se fossem parte da paisagem, comentando a vida alheia em plena tarde do dia trinta e um de dezembro.
Era como se eu nunca tivesse ido embora.
Quando cheguei em casa, minha mãe abriu a porta e me puxou pra um abraço apertado. Foi o primeiro abraço em cinco anos.
Teria sido menos tempo se ela não tivesse ficado do lado da minha prima quando soube que a piranhazinha tinha dormido com o meu namorado.
Mas isso… era uma história pra depois.
***
Quando chegamos à festa, já passava das nove e meia da noite. O hotel estava todo iluminado, elegante demais para aquela cidade pequena. Lustres enormes, música ambiente misturada com risadas altas e garçons circulando com bandejas de bebida como se aquilo fosse um evento de gente importante. O tipo de comemoração que reunia todo mundo da cidade… e todo mundo que eu preferia evitar.
Estavam lá meus tios e tias, meus primos e primas, conhecidos da família, antigos amigos e ex-colegas de escola que agora fingiam i********e, como se nunca tivessem sumido da minha vida. A família da Gabriela ocupava uma mesa inteira, chamando atenção como sempre. Eu me sentia deslocada e, ao mesmo tempo, estranhamente observada.
Foi então que eu vi ele.
O Jhonas.
Meu corpo travou na hora.
Ele estava impecável, conversando com pessoas importantes, totalmente à vontade. Como se o passado não existisse. Como se eu nunca tivesse ido embora por causa dele.
Respirei fundo, ajeitei a postura e levantei o queixo.
Eu não tinha ido até ali pra fugir.
Cumprimentei algumas pessoas, falei um pouco com outras, nada demais, eu só queria beber um pouco e ir embora.
Mas então o Jhonas veio até mim.
— Bia…A quanto tempo?— A vo dele saiu doce, mas venenosa.
— Acho que não tempo o suficiente.— Respondi seca. Tomei um gole do meu champanhe e sai andando.
E é claro não satisfeito ele veio atrás de mim.
— Ei Bia, calma. Sejamos adultos aqui. Podemos agir com maturidade. E ter uma conversa normal. — Ele falou tentando me convencer a continuar dando atenção a ele.
—Jhonas,porque você não me diz o que você quer, e some da minha frente? —Respondi já ficando com raiva.
— Eu já disse o que eu quero, quero conversar. Me diz ainda está procurando emprego? Ou já desistiu?
— E você? Ainda está comendo menininhas, ou já tomou vergonha na cara?— não me contive.
— Sabe Bianca, foi exatamente por isso que eu terminei com você. Você se acha demais.— Ele desdenhou.
— Jhonas, você é um tremendo de um canalha. Eu fui muito ingênua de acreditar que poderíamos ter futuro juntos. Mas sinceramente agradeço a piranhazinha da minha prima que colocou o olho em você e sou mais grata ainda por você ter caído e comido ela. Porque sinceramente eu me livrei de um encosto que nem você.— Eu dei as costas e sai. Naquela altura as pessoas já estavam começando a prestar atenção na gente.
Continuei andando em direção ao banheiro quando uma mão me agarrou.