Bianca
Quando senti aquela mão me puxando pelo braço, eu ainda estava com a cabeça quente demais pra pensar.
Foi tudo muito rápido.
O toque não foi forte, mas foi o suficiente pra me tirar do sério. Anos de coisa engolida, de raiva guardada, de lembrança r**m, tudo veio junto. Eu virei no mesmo segundo, sem pedir licença, sem respirar, sem pensar duas vezes.
Minha mão foi sozinha.
O som do tapa ecoou alto demais pro lugar elegante demais. Algumas pessoas viraram na hora. Outras fingiram que não viram. Eu só senti aquele alívio estranho, misturado com adrenalina.
Era o Jhonas.
Claro que era.
Aquele filho da p**a não ia me deixar em paz tão cedo. Mas, dessa vez, eu não era mais a mesma Bianca de antes. A que ficava quieta. A que aceitava desculpa m*l feita. A que sempre passava pano.
Ele me olhava como se eu tivesse cometido um crime. A boca dele ainda estava aberta, como se não acreditasse no que tinha acabado de acontecer.
— Você ficou maluca? — ele perguntou, chocado.
— Não — respondi, firme. — Eu acordei.
O mais engraçado foi a cara dele. Porque, na cabeça dele, a “trouxa da Bianca” sempre faria qualquer coisa por ele. Sempre perdoaria. Sempre abaixaria a cabeça.
Só que aquela Bianca tinha ficado no passado.
E eu não estava nem um pouco arrependida.
Ele demorou uns dois segundos pra reagir. Dois segundos longos, carregados de silêncio e de olhares curiosos ao redor. Depois disso, o Jhonas mudou completamente.
O choque virou irritação.
— Você perdeu a noção? — ele falou entre os dentes, dando um passo à frente. — Tá achando que pode fazer escândalo aqui?
— Escândalo? — ri, sem humor nenhum. — Você me puxa pelo braço no meio de um hotel e acha normal?
Ele passou a mão no rosto, claramente tentando se controlar. Aquela pose de homem calmo nunca durava muito quando ele era contrariado.
— A gente precisa conversar — ele disse, com aquele tom de quem acha que manda. — Agora.
— Não — respondi, simples. — Não preciso.
— Bianca, para com isso — ele insistiu. — Não faz cena.
— Eu não vou a lugar nenhum com você — falei, cruzando os braços. — Nem agora, nem nunca.
Foi aí que ele se irritou de verdade.
— Você sempre foi assim, difícil, dramática — ele começou, elevando um pouco a voz. — A gente precisa resolver o que ficou pendente.
— Não ficou nada pendente — rebati. — Você resolveu tudo quando me traiu. Lembra disso ou apagou da memória seletiva?
Algumas pessoas começaram a prestar atenção. Eu sentia os olhares, mas, sinceramente, não estava nem aí. Ele era o único incomodado com o espetáculo. Sempre foi.
— Você não pode simplesmente aparecer aqui, me bater e sair como se estivesse certa — ele disse.
— Posso sim — respondi. — Acabei de fazer isso.
Antes que ele retrucasse, ouvi uma voz masculina atrás de mim.
— Algum problema aqui, Bianca?
Virei o rosto na hora.
Era o Gael.
O irmão mais velho da Gabi.
Ele estava parado ao meu lado, elegante, calmo, como se tivesse acabado de chegar a um jantar normal, não no meio de uma confusão. O olhar dele passou rápido pelo Jhonas e voltou pra mim.
— Cheguei atrasado, me desculpa — ele disse, naturalmente, colocando a mão na minha cintura como se aquilo fosse rotina.
Eu demorei meio segundo pra entender.
Mas entendi.
E entrei no jogo.
— Achei que você não vinha mais — respondi, me virando um pouco em direção a ele.
O Jhonas ficou imóvel.
— Que p***a é essa? — ele perguntou, olhando de mim pro Gael.
O Gael não mudou a expressão. Nem levantou a voz.
— Algum problema? — ele perguntou de novo, agora olhando diretamente pro Jhonas.
— Isso não é da sua conta — o Jhonas respondeu, já visivelmente furioso. — Não se mete.
Foi aí que o Gael sorriu de leve. Um sorriso curto. Controlado.
— Quem tá se metendo aqui é você — ele disse, com calma demais pra ser ignorada. — Porque quem tá com a Bianca sou eu.
O ar ficou pesado.
O Jhonas fechou os punhos.
— Você tá brincando comigo — ele falou.
— Não — o Gael respondeu. — Não tô.
A mão dele continuava firme na minha cintura. Não apertava. Não forçava. Era segura. Presente. O tipo de toque que dizia muita coisa sem dizer nada.
— A Bianca já disse que não quer conversar — o Gael continuou. — Então o melhor que você pode fazer é respeitar isso.
O Jhonas me encarou, os olhos cheios de raiva e incredulidade.
— É isso mesmo? — ele perguntou, como se eu ainda devesse alguma explicação.
Inclinei a cabeça de leve, sorrindo.
— É — respondi. — Acabou.
O Jhonas soltou uma risada curta, nervosa.
— Vocês dois estão fazendo um teatro ridículo — ele disse.
— Pode chamar do que quiser — o Gael respondeu. — Mas agora você vai sair.
O Jhonas ficou ali mais alguns segundos, como se estivesse tentando decidir se fazia mais uma besteira. No fim, virou as costas e saiu, claramente possesso.
Quando ele se afastou, só então percebi meu coração acelerado.
Olhei pro Gael.
— Obrigada — falei, baixo.
Ele inclinou o rosto um pouco mais perto do meu.
— De nada — respondeu. — Mas depois você me explica desde quando a gente namora.
***
A música lenta começou a tocar e, por alguns segundos, eu fiquei meio perdida, sem saber exatamente o que fazer com as mãos, com o corpo, com a cabeça. Gael resolveu isso por mim. Ele deslizou a mão pelas minhas costas com naturalidade, me puxando com cuidado, como se a gente já tivesse feito aquilo outras vezes.
Meu corpo acompanhou o dele sem esforço.
Era estranho e, ao mesmo tempo, confortável demais.
— Eu não sabia que você ia estar aqui — falei, tentando soar casual, enquanto a gente se movia devagar no meio da pista.
Ele sorriu de leve, aquele sorriso tranquilo que parecia não se abalar com nada.
— A Gabi pediu pra eu vir — respondeu. — Disse que você ia precisar de reforço.
Revirei os olhos, mas sorri.
— Claro que ela disse.
— Eu consegui uma folga no trabalho — ele continuou. — Então achei que não custava nada aparecer.
Não custava nada.
Pra ele.
Pra mim, custava o equilíbrio emocional inteiro.
Aproximei um pouco mais o rosto do dele e abaixei a voz.
— O Jhonas não para de olhar pra gente.
Gael nem precisou procurar. Ele já sabia.
— Eu vi — respondeu, calmo demais pra alguém no meio de uma confusão dessas.
— Ele tá claramente furioso.
O canto da boca do Gael se curvou num sorriso lento, quase provocador.
— Quer que ele fique com raiva de verdade?
Antes que eu respondesse qualquer coisa inteligente — ou prudente — ele me puxou mais pra perto. Meu corpo colou no dele, sem espaço, sem fuga, sem chance de pensar.
Meu coração disparou.
— Gael… — comecei, mas a palavra morreu no meio do caminho.
Ele não me deu tempo.
A boca dele encontrou a minha num beijo quente, decidido, como se aquela ideia já estivesse guardada há muito tempo. Não foi um beijo tímido. Também não foi apressado. Foi intenso. Seguro. Daqueles que fazem o resto do mundo desaparecer por alguns segundos.
Ou minutos. Eu não saberia dizer.
Minha cabeça esvaziou. O calor subiu rápido pelo meu corpo, meu rosto esquentou. Meu corpo respondendo antes da minha razão. Um arrepio bom descendo pela espinha. As pernas levemente bambas. A calcinha ficando quente demais pra eu fingir que não tinha notado.
A mão dele segurou minha cintura com firmeza, como se estivesse me sustentando ali.
O beijo era delicioso. Ardente. Ele tinha gosto de provocação, de desafio, de algo que não estava nos planos… e que por isso mesmo parecia perfeito.
Quando ele se afastou, foi devagar. A testa ainda encostada na minha. A respiração dele um pouco mais pesada. A minha completamente fora de ritmo.
Abri os olhos com dificuldade.
— Uau — foi tudo o que consegui pensar, mas não dizer.
Ele sorriu, daquele jeito tranquilo de novo, como se não tivesse acabado de bagunçar tudo dentro de mim.
— Sempre imaginei como seria beijar você — ele disse, baixo, perto demais.