Anelise Narrando:
Paris - Campanha Angels Company.
Paris.
Só o nome já me arrepiava. Mas chegar lá… viver aquilo… era outra coisa.
O jatinho da Angel’s pousou no final da tarde, com o céu dourado tingindo as nuvens sobre o aeroporto de Le Bourget. Do alto, a cidade parecia uma pintura viva, ruas simétricas, telhados cinzas, torres e luzes começando a se acender como vaga-lumes urbanos.
Sthefano sentou-se ao meu lado durante todo o voo. Durante as quatro horas, falamos pouco. Ele trabalhava em silêncio, analisando contratos e arquivos, mas sua mão repousava sobre a minha o tempo todo, como uma âncora disfarçada de carinho.
— Tudo vai ser mais fácil do que você pensa. — Ele disse, no momento em que o avião tocou o solo. — Só precisa confiar.
Eu confiava. Cada vez mais.
O motorista nos aguardava em um carro preto impecável, com bancos de couro e divisória fumê. Ao lado dele, um assistente entregou um envelope com meu nome bordado em dourado.
Dentro, o itinerário da semana:
Sessões de fotos em estúdios icônicos, jantares de gala, entrevista em uma revista de prestígio, um desfile privado. Tudo organizado. Tudo sob o comando da Angel’s, sob o comando dele.
— Você ficará no Ritz. Suíte Chérot. Já mandei preparar tudo para o seu gosto.
— Você se lembra do meu gosto?
— Eu decorei. — Ele disse com naturalidade, sem desviar os olhos de mim.
Quando chegamos ao hotel, a equipe do saguão parecia ter sido treinada para receber uma rainha. Um concierge me chamou pelo nome, uma camareira me levou até a suíte, e havia um buquê de tulipas brancas esperando na penteadeira, com um cartão:
“Para lembrar que mesmo entre as luzes, você continua sendo a mais pura.
– S.”
Suspirei encantada. Não havia espaço para dúvida, eu era, ali, o centro do universo dele.
E talvez, pela primeira vez, do meu universo também.
Nos dois dias seguintes, vivi como nunca imaginei. A primeira sessão de fotos foi no topo de um edifício histórico, com a Torre Eiffel ao fundo. Estava frio, mas o stylist me cobria entre os cliques com um casaco de pele falsa. O fotógrafo francês me chamava de “la muse rouge”. A maquiagem era impecável. As poses fluíam. Meu rosto já estava nos bastidores de revistas que antes eu só folheava em silêncio.
Sthefano assistia tudo de perto, como sempre. Às vezes, corrigia um ângulo, sugeria um penteado diferente ou perguntava se o tecido realçava mais a minha silhueta.
— Está tudo bem? — Ele perguntou num intervalo. — Você parece mais cansada hoje.
— Um pouco. Mas feliz.
Ele me puxou para perto, tocando meu rosto.
— Está linda. Mas nunca se esqueça: sua imagem está no auge, mas sua essência é o que me fez escolhê-la.
Naquela tarde, um produtor da Vogue Paris se aproximou de mim enquanto eu terminava de tomar um suco no lounge do hotel.
— Anelise? Não sei se posso, mas... temos uma vaga para um editorial em Versailles. Poderia conversar com você?
Eu sorri, surpresa.
— Claro. Eu…
Mas não cheguei a terminar.
Sthefano apareceu ao meu lado num movimento rápido, quase silencioso.
— Boa tarde. A agenda da Anelise está comprometida essa semana. Mas agradeço o convite.
O produtor ficou sem jeito. Sorriu, agradeceu, se afastou.
Fiquei ali, meio perdida entre o que aconteceu e o que não aconteceu.
— Era só uma conversa… — Murmurei.
— Era uma distração. — Ele respondeu, firme. — Você está prestes a se tornar o rosto da Angel’s no mundo. Não podemos perder o foco por causa de flashes aleatórios.
— Eu só ia escutar…
Ele me olhou por um segundo mais longo do que o normal. Depois suavizou a voz.
— Desculpe. É que... tenho medo de te ver fugir. Você é especial demais pra se perder nesse mar de convites vazios.
E, como sempre, ele me envolveu de novo, com palavras que pareciam cuidado, com gestos que soavam como proteção e com limites que se disfarçavam de amor.
Naquela noite, jantamos no restaurante do hotel. A mesa era reservada e a comida estava impecável. A cidade do lado de fora continuava acesa, mas para mim, Paris se resumia àquele homem sentado à minha frente, mexendo o vinho na taça e dizendo:
— Logo o mundo inteiro vai querer você.
— E você?
— Eu não. Eu já te tenho.
Sorri. Não porque era a resposta perfeita, mas porque eu queria que fosse.
De volta à suíte, sentei-me sozinha na varanda.
Olhei para a cidade que pulsava como uma jóia viva e me perguntei se Claire teria dito algo.
Ela havia mandado uma mensagem mais cedo:
"Espero que esteja bem. E que ainda se reconheça no espelho.
Beijo, Claire."
Apaguei a notificação antes de responder.
Porque, naquela noite, eu não queria lembrar da mulher que duvidava, queria ser apenas a mulher que ele via, a que estava nas luzes, que carregava um império na pele, que pertencia a Sthefano.
Mesmo que… eu ainda não soubesse o preço.
Dia seguinte.
Boston.
O avião tocou a pista em Boston com suavidade, mas meu coração ainda flutuava a milhares de metros de altura.
Eu tinha deixado Paris com a alma embriagada de tudo: da campanha, dos flashes, dos vestidos, das palavras de Sthefano murmuradas nos corredores dos hotéis e das suas mãos firmes segurando as minhas quando o mundo me aplaudia.
Paris me mostrou quem eu podia ser.
Ele me mostrou quem ele queria que eu fosse. E, por Deus… eu queria ser essa mulher.
No aeroporto, já havia uma equipe da Angel’s Company esperando. Fomos levados por uma van escura com bancos de couro macio. Ao meu lado, Sthefano falava no telefone em italiano, misturando ordens e promessas com aquela voz grave que me hipnotizava.
Quando desligou, olhou pra mim com um sorriso calmo.
— Está pronta para ver o que causou?
— Devo me preocupar?
— Não. Deve se orgulhar.
Na sede da Angel’s, meu rosto já estava em banners, telas, revistas. Todos comentavam a campanha em Paris. Comentavam sobre mim. Sobre "a nova musa", "o rosto da década", "a mulher que carrega fogo no olhar".
Claire estava na sala da equipe, e quando me viu, seus olhos se iluminaram, mesmo que seu sorriso parecesse… contido.
— Você está incrível nas fotos. — Ela disse.
— Obrigada. Paris foi surreal.
— Imagino. — Ela hesitou, depois falou baixo: — Mas só toma cuidado pra não viver só o que ele quer que você viva.
— Claire, ele fez tudo isso acontecer…
— E tudo isso tem um preço. Só te peço que não apague suas vontades no meio dos desejos dele.
Eu respirei fundo. A conversa me incomodava… não por estar errada. Mas porque me fazia questionar o que eu não queria questionar.
Naquela noite, Sthefano me mandou uma mensagem simples:
“Hoje não quero a distância.
Vem pra casa.
Pra nossa casa, Anelise.”
Sem pensar duas vezes, arrumei uma pequena mala e peguei o carro que ele enviou. O caminho até a mansão foi tranquilo, e mesmo no escuro da estrada, havia uma sensação de… lar. Como se cada árvore que passava dissesse: “você pertence a ele agora.”
Quando cheguei, ele estava na porta, sem gravata, com a camisa branca aberta no colarinho e um copo de vinho na mão.
— Achei que você demoraria mais.
— Não pensei duas vezes.
Ele sorriu. Aquele sorriso que só usava comigo.
— Boa.
Entramos. A mansão estava silenciosa, iluminada por pontos sutis de luz. A lareira estava acesa na sala, lançando sombras quentes nas paredes. Havia música clássica ao fundo, quase imperceptível, mas que envolvia tudo.
— Quer jantar?
— Não. — Me aproximei. — Só quero você.
Ele pousou a taça sobre a mesa e me puxou pela cintura. Suas mãos deslizaram pelas minhas costas, os olhos fixos nos meus, intensos, quentes e possessivos.
— Eu senti sua falta, Anelise. Cada segundo longe de você em Paris, por conta dos compromissos, me pareceu um desperdício.
— Mas eu estava com você.
— Fisicamente. Mas você pertence a mim e eu gosto de te ver... aqui. Nesse espaço, na minha cama, nos meus lençóis.
— Isso não te assusta? — Perguntei, com um meio sorriso. — Essa intensidade?
— Me excita.
E ele me beijou como se eu fosse um continente inteiro. Como se estivesse me desbravando.
Nosso corpo encontrou o quarto com a naturalidade de quem já tinha um mapa. A cama era grande, mas a forma como ele me envolvia fazia o mundo caber num único gesto. Naquela noite, não houve espaço para dúvidas. Só para beijos, promessas e o som de dois corpos que não sabiam mais viver separados.
Acordei no dia seguinte com ele ao meu lado, já de olhos abertos, como se nunca dormisse de verdade.
— Dormiu bem? — Ele perguntou, com a voz rouca.
— Dormi... em paz.
— Então continue aqui. Quero que traga suas coisas, quero que esse seja seu lugar.
— Você quer que eu me mude?
— Quero que você esteja onde pertence.
Demorei a responder. Não porque duvidasse... mas porque parte de mim já sentia que a resposta certa era o silêncio dele.
E talvez, só talvez, eu já tivesse começado a deixar que ele decidisse tudo por mim, inclusive quem eu seria.
Mas naquele momento, com o sol entrando pelas janelas da mansão, seu peito sob minha mão e o cheiro do nosso corpo misturado nos lençóis…
Não havia lugar no mundo em que eu quisesse mais estar.