Prólogo e Avisos.
Atenção:
Neste livro será relatado cenas de traição, agre.ssão física e psicológica.
Deixo claro, que aqui, não será romantizado esse tipo de relacionamento tóxico, neste livro o vilão não terá redenção, esta é uma história sobre amor próprio, superação e libertação.
Caso você tenha sensibilidade ao assunto, ou lhe deixa m.al, por favor, não leia.
E se você está passando por algo parecido ou conhece alguém, busque ajuda. Caso se sinta confortável, estou aqui para conversar.
Anelise Narrando:
Boston, Estados Unidos.
O som das risadas ecoa pelo jardim como uma melodia esquecida, resgatada pelo tempo. Meus netos correm entre as roseiras, tropeçando nas próprias pernas pequenas, os cabelos bagunçados pelo vento da tarde. Observo pela vidraça da varanda, as mãos ainda trêmulas segurando a xícara de chá que Amélia trouxe há pouco. O aroma de hortelã preenche o ar, mas não é o suficiente para afastar a sensação de inquietação que cresce dentro de mim desde o momento em que voltei para esta casa.
A viagem havia sido longa, mais emocional do que geográfica. Estive fora por meses, visitando velhos amigos, tentando me perder nas paisagens que um dia sonhei conhecer… mas como fugir de algo que habita dentro de você? As paredes da mansão me reconheceram assim que cruzei a porta da frente. Cada canto desta casa carrega as minhas memórias, boas e más, como cicatrizes impressas na madeira, nos quadros, nas escadas de mármore.
Subo os degraus devagar, como se precisasse ganhar fôlego para encarar o quarto que me acolheu por tantas noites de insônia. A luz da tarde atravessa as cortinas de linho, espalhando um brilho dourado sobre o tapete claro. Tudo parece igual… e ao mesmo tempo, diferente. As flores sobre a penteadeira ainda estão frescas, os livros seguem empilhados na mesinha ao lado da cama. Mas há algo ali… um sussurro antigo, um chamado silencioso vindo do fundo do closet.
Deixo a xícara sobre a cômoda e sigo até lá, abrindo a porta com cuidado. As roupas estão alinhadas, como sempre. Blusas de seda, vestidos de tecidos leves, os casacos de inverno que só uso nas viagens. Mas é no canto, entre uma mala esquecida e uma pilha de caixas de sapato, que meus olhos se detêm.
Uma caixa de madeira escura, coberta por uma fina camada de pó.
Me ajoelho diante dela, hesitante. É como se o ar ao meu redor ficasse mais denso, como se o próprio tempo hesitasse em avançar. Meus dedos deslizam pela tampa, reconhecendo o entalhe de pequenas flores que eu mesma pintei, tantos anos atrás. Por um instante, penso em fechar a porta do closet e fingir que não vi nada… mas não sou mais essa mulher.
Abro a caixa.
O cheiro de papel antigo me invade de imediato. Fotos… tantas fotos. Cartas amareladas, bilhetes de amor rabiscados às pressas, um anel de prata que já perdeu o brilho. E, no topo de tudo, uma imagem que parece rasgar meu peito ao meio: eu, com aquele sorriso jovem e t**o, de braços dados com ele.
Meu primeiro marido.
Por um segundo, tudo desaba dentro de mim. Meu corpo parece pequeno demais para conter a avalanche de lembranças que me atinge com força.
Lembro da primeira vez que o vi, com aquele jeito encantador, aquele olhar de promessas fáceis. Eu era jovem, sonhadora, e acreditava que o amor podia curar tudo. Não sabia o quanto podia doer amar alguém que só sabia me quebrar em pedaços. As primeiras traições vieram como sussurros, os telefonemas tarde da noite, perfumes desconhecidos nas camisas, desculpas esfarrapadas que eu fingia acreditar. Por medo. Por vergonha. Por aquela esperança estúpida de que tudo iria melhorar.
Mas o que começou com mentiras, logo se tornou mais sombrio.
Lembro da primeira vez que ele gritou comigo. O olhar dele, antes tão apaixonado, se tornando uma mistura de desprezo e raiva. Depois vieram as mãos. As marcas que eu escondia com maquiagem, com roupas de manga longa, com sorrisos falsos nos almoços de domingo.
Engraçado como o corpo lembra do que a mente tenta enterrar.
Passo os dedos sobre a foto como se pudesse apagar os contornos do rosto dele. Meu coração bate acelerado, uma mistura de medo antigo e revolta que ainda pulsa. Fecho os olhos e quase posso ouvir a voz dele… os pedidos de desculpa depois de cada tempestade, as juras de mudança, as promessas vazias.
E eu… eu sempre voltava.
Até o dia em que não voltei mais.
Aquela noite ainda é clara na minha mente. O cheiro de álcool, os gritos, o estalo surdo da última agressão. A forma como corri para fora daquela casa, com uma mala nas mãos e a certeza de que, se ficasse mais um dia, não sairia viva. A lembrança da minha mãe abrindo a porta pra mim, chorando de alívio, me abraçando como se quisesse costurar de volta cada pedaço rasgado da minha alma.
Demorei anos para reaprender o que era paz. Anos para olhar no espelho e gostar do que via. Anos para permitir que outro amor se aproximasse… com cuidado, com passos lentos, com um respeito que eu nem sabia que merecia.
Guardo a foto de volta na caixa com mãos firmes, mas antes de fechar a tampa, deixo que mais uma lágrima escape. Não por ele… não mais. Mas por aquela versão de mim que um dia acreditou que o amor deveria doer para ser real.
Respiro fundo e fecho a caixa. A tranco com a pequena chave que permanece pendurada no canto, como um lembrete de que certas portas, uma vez abertas, só devem ser revisitadas com a força que hoje eu tenho.
Ao sair do closet, volto meu olhar para o jardim. Meus netos ainda estão lá, rindo, vivendo uma infância que espero que nunca conheça o tipo de dor que um dia me acompanhou.
Sorrio, agora com o coração um pouco mais leve.
Porque, apesar de tudo… eu sobrevivi. E hoje, sou eu quem escolhe quais capítulos da minha vida merecem ser reabertos.
E quais ficarão trancados para sempre.
Este livro é dedicado à todas as mulheres, que sonham, amam, que lutam todos os dias.
Todas merecem amor e paz. Então lembre-se, mesmo em dias ruins, no final da tempestade sempre vem o arco-íris.